Definitivamente Saulo estava certo, eu realmente merecia tirar férias, ele ficaria completamente surpreso se eu contasse para ele que fiz uma viagem, com toda certeza iria perguntar quem eu era e o que eu tinha feito com a irmãzinha dele. O danado não valia nada, mas mesmo assim eu o amava absurdamente, ele fazia muita falta para mim, mas finalmente resolvi escutar algum conselho seu, e olha que ele tinha muitos, em suma, inúteis e irresponsáveis, mas finalmente depois de anos me vejo fazendo algo que ele sempre quis que eu fizesse, ele realmente estava certo, a viagem fez maravilhas para a minha mente.
Abri a porta de casa me sentindo feliz, como eu não me sentia há muito tempo, ponderei brevemente sobre fazer isso com mais frequência, agora que minha vida estava prestes a mudar, considerando que há essa altura eu já estava milionária, era só uma questão de pouco tempo, talvez um, ou dois anos de trabalho e eu conseguiria viajar com frequência e como dizia meu amado Saulo, aproveitar a vida como um ser humano normal.
Porém ao olhar para a sala da minha casa, ainda com um pé para fora algo me parecia terrivelmente errado, como se tivessem bagunçado tudo e depois arrumado, estava limpo demais para um apartamento desabitado por dias, organizado demais a contraponto da minha própria organização, meus livros não estavam na ordem costumeira, o tapete estava levemente desalinhado, as cortinas estavam completamente fechadas, sendo que eu sempre deixo uma brecha para entrar pouca luz solar, com uma breve olhada, haviam muitas coisas diferentes ali, passariam despercebidas a um olhar destreinado, mas eu consigo perceber mudanças sutis com uma facilidade absurda.
Sou uma pessoa extremamente sistemática, completamente metódica, prezo por ordem em tudo que toco, tenho tantos toques quantos alguém possa ter com meu modo peculiar de organizar as minhas coisas, seria impossível alguém conseguir arrumar minha casa do jeito que eu faço, bastava um lápis fora do lugar para que eu soubesse que tinham mexido nas minhas coisas, e baseado na sala que eu observava atentamente agora, era claro como água que tinham mexido em muitas coisas por ali.
Merda!
Eu fui pega, tinha absoluta certeza disso, alguém invadiu minha casa, mas que merda, provavelmente havia alguém escondido por ali, meu coração acelerou, eu precisava ir embora, todo meu equipamento estava no quarto, não seria inteligente ir buscá-lo, provavelmente já tinha alguém me esperando por lá, na verdade era bem possível que nem houvesse mais equipamento a resgatar, o melhor a fazer, mesmo sendo arriscado, e me dando o maior prejuízo que eu já tive em toda minha vida, seria virar as costas e correr dali imediatamente, mesmo sabendo que existia uma chance gigantesca de alguém também estar me esperando do lado de fora.
Odeio ações sem planejamento, para qualquer tipo de coisa, se tem algo que eu sempre me ferro é quando preciso improvisar, eu não sou a garota dos improvisos, sou a garota que calcula cada passo, eu planejo, analiso, estudo todas as possibilidades e então só aí quando tenho todas as possibilidades claras em minha mente que eu ajo, mas dessa vez não tive escolha, tentar fugir me parecia a melhor opção, e foi o que fiz, meus instintos gritaram dentro de mim, quando vi a sala, o cuidado com que as coisas estavam ali me fizeram perceber facilmente que aquele trabalho era de um profissional, o que deixava claro a armadilha, e o fato de eu estar completamente fodida se fosse capturada.
Foi apenas um passo, nem tinha virado o corpo completamente, já pude senti um cano frio encostando-se à minha cabeça, nem foi preciso falar, eu já sabia, não era a polícia, era alguém pior, alguma das minhas vítimas conseguiu me rastrear, nem tentei correr, gosto de adrenalina, mas não sou louca o suficiente para correr naquela situação e ter minha cabeça belamente explodida na porta de casa. Respirei fundo, minhas mãos levantaram-se lentamente até que pude ouvir uma voz masculina suave atrás de mim.
- Peguei você nanico!
Meu sangue gelou na mesma hora, passei os olhos para toda a parte da casa que minha visão podia alcançar sem que fosse necessário mexer a cabeça, a fim de tentar encontrar qualquer rota de fuga que fosse possível, porém nenhuma das minhas fechaduras estavam ligadas, devem ter cortado a luz já há algum tempo, pois se não as baterias reservas dariam conta de mantê-las funcionando, eu era uma ladra não uma lutadora, não tinha nenhuma merda uma arma que pudesse usar para uma possível luta, mas que merda, eu nem sei lutar. Odeio ter que improvisar.
Merda! Merda! Merda!
- Entre quietinho, sem fazer estardalhaço, se não eu estouro seus miolos antes que consiga falar uma única palavra.
A voz que vinha aos meus ouvidos era calma e mortal, tive que controlar a minha respiração antes que notassem meu leve desespero, não que já não tivessem percebido, é óbvio, uma arma na cabeça de alguém deixaria qualquer ser humano minimamente nervoso, mas eu sabia que não poderia demonstrar fraqueza ou desobedecer enquanto estava naquela posição. Resignada, entrei até que me mandassem parar, fui direcionada até meu quarto e lá vi o que verdadeiramente abalou todas as minhas estruturas.
Todo meu equipamento, meu servidor, computadores, tudo, não passava de sucata, foi difícil engolir depois daquela visão, todo meu trabalho, tudo que eu mais amava na minha vida miserável estava ali, naquelas máquinas, absolutamente tudo, meus servidores possuíam informações que poderiam derrubar qualquer governo que chegasse ao poder pelos próximos 30 anos, além de diversas provas de crimes federais e estaduais, vídeos, fotos, áudios, conversas de whatsapp, relatórios, listas de nomes...
Tinha tanta coisa valiosa ali, mas tanta, oficialmente era a maior riqueza que eu possuía, o trabalho da minha vida, não que eu gostasse de extorquir pessoas, ok, talvez um pouco, mas era bom saber que eu tinha o poder sobre tanta gente importante, e bastava uma única ameaça minha para fazê-los me obedecer, e todo esse poder foi jogado pelo ralo. Eu apelidava meu servidor de Pandora, já deve ficar claro o motivo disso, Pandora possuía tanta informação que se eu ousasse abrir e jogar toda aquela merda no ventilador, das duas uma, ou eu ficaria rica ao ponto de sustentar facilmente minhas próximas dez gerações ou eu seria morta em minutos.
Eu me senti igual meus equipamentos se encontravam, quebrada, destruída, havia acabado tudo, simplesmente tudo, minha riqueza, não que eu realmente fosse usar algum dia, mas eu poderia usar, pensei seriamente em me virar e o mandar acabar logo com tudo aquilo, costumo ser ótima em controlar minhas emoções, Saulo dizia que eu conseguia mentir até para um polígrafo se quisesse, mas diante disso tudo minha frustração foi tão grande e tão visível que eu escutei novamente a voz daquele imbecil que teimava em manter a porra da arma na minha cabeça.
- Gostou? Isso é para você aprender o que acontece com quem rouba do Martin! Se você tivesse sido menos ambicioso talvez vocês pudessem entrar em um acordo, mas depois do rombo que você deixou nas contas dele, acredite, ele vai querer cortar cada pedaço seu para se vingar. – Sua voz era fria e cortante, me mantive calada, precisava pensar, tinha que ter uma saída. - Vira!
Puta que pariu! Não! Não! Não! Tô fodida!
Ouvi a ordem e senti meu corpo amolecer no mesmo instante. – Vira bem devagar, e sem tentar nenhuma gracinha. – Continuei imóvel, se vissem meu rosto a minha situação ficaria muito pior, sobrevivi por quinze benditos anos na vida do crime sem que ninguém conhecesse minha identidade, ser pega assim iria me expor para todos, ser mulher nesse meio é um perigo incontestável a nossa dignidade, mulheres não morrem quando são pegas, elas são usadas até que não aguentem mais e tirem as próprias vidas, ainda mais tendo o meu lindo, mas perigoso histórico, assim que me vissem eu estaria completamente enrascada, minha fama me precedia, bastava descobrirem quem eu era para quererem a minha cabeça numa bandeja, com muita sorte seria apenas a minha cabeça que iriam querer.
- ESTÁ SURDO PORRA? EU MANDEI VIRAR – Não tive tempo, o tal do bandidinho de merda puxou meu braço e me virou com força, no susto acabei caindo no chão, mantive a cabeça baixa, o capuz escondendo quase todo o meu rosto. - LEVANTA O CAPUZ VAGABUNDO! – O escuto gritar novamente e ouço o clique na arma sendo engatilhada – Não vou mandar de novo! – Sua voz voltou a ser suave, e isso me fez ter certeza que eu estava perdida, talvez fosse melhor deixa-lo atirar, pelo menos isso acabaria ali, sem tantos danos, seria tão mais simples.
É foda o que a esperança e a possibilidade de viver faz conosco, mesmo sabendo que o melhor era morrer ali mesmo por algum motivo não consegui desobedecer a sua ordem, e extremamente contrariada, puxei meu capuz lentamente para trás, fazendo com que meu rosto fosse ficando gradualmente a mostra, pensando em como eu tinha me metido naquela confusão, eu nunca tinha sido pega, não era possível, e ainda mais sem saber o que aconteceu para isso, eu nem teria como tentar consertar, que puta desgraça, excelente hora para escolher escutar os conselhos de Saulo, pensei revoltada, logo no momento que eu realizei o maior roubo da minha vida. Que puto azar foi esse.
Olhei para o bandido que segurava a arma apontada para mim, haviam mais uns sete homens atrás dele, vieram mesmo preparados para uma emboscada, provavelmente esperavam uma equipe imensa de ladrões virtuais, qual não devia ser a decepção deles ao ver que era só a idiota aqui, era impossível lutar contra eles sozinha, seria estupidez, suicídio tentar qualquer coisa agora, por algum motivo eu acabei por chamar atenção demais para mim, deixei o capuz cair nas costas, a surpresa nos olhos daqueles babacas me enojou.
- É uma garota! – Sua afirmação estúpida me fez revirar os olhos, e logo senti meu coração errar uma batida ao ver um meio sorriso se formando em seu rosto. – Martin vai adorar saber disso.
Ouvir suas palavras me fez ter certeza que era melhor ter deixado ele atirar, aquilo não era nada bom, vi o imbecil que me derrubou ligar para um número através de uma chamada de vídeo, após dois toques a chamada foi aceita e a voz que saiu de lá era bem grave e fria, terrível, perguntando se tinham conseguido concluir a tarefa. Logo ouvi quando o capacho de merda disse que ele ia adorar a surpresinha que ele tinha sobre quem realizou os roubos. Foi impossível não temer pela minha vida, mais temor do que eu já sentia naquele momento.
- Chefe, tu não vai acreditar no que encontramos na emboscada que armamos para o ladrãozinho que te deu aquele baita prejuízo. Ou eu deveria dizer: "ladrazinha" – Fez questão de enfatizar essa palavra.
- O que? Você quer dizer que? – A voz grave do tal chefe soou surpresa do lado de lá do telefone, senti nojo novamente. – Me mostra! – Ordenou.
O tal capacho virou a câmera do celular, me mostrando sentada no chão, abaixei a cabeça imediatamente por puro instinto, então o senti segurar meu coque e puxar para trás, fazendo com que meu rosto ficasse completamente visível, e naquele momento eu o vi. Martin Dolabella. Um chefão do crime organizado no Brasil, o cara tem uma imensidão de negócios visíveis ao público, pagando de empresário honesto e bom moço filantrópico para a sociedade, conheço cada propriedade que esse homem tem, e não são poucas, conheço sua fama muito bem, e de todos os grandes chefões que eu conheço, a fama dele é das piores, o mais cruel, sanguinário e violento, nunca nem passou pela minha cabeça ameaçá-lo, sempre mantive roubos muito pequenos, quase que insignificantes de suas contas.
Ele era um homem extremamente perigoso, não matava de imediato, torturava sua vítima até conseguir satisfazer seu desejo de sangue, era um psicopata sanguinário o maldito, ao ver o seu rosto confesso que senti medo, não adrenalina, mas medo, de todos os malditos chefes de organizações criminosas, por que diabos ele estava atrás de mim, que merda eu fiz na conta dele para chamar a sua atenção ao ponto de armarem uma emboscada para me pegar. Olhei nos olhos dele através da tela do celular, inconscientemente segurei a respiração, eu tinha assinado minha sentença de morte, não tinha a menor dúvida disso.
- Então foi você que me deu um prejuízo de 200 milhões de reais. – Meus olhos arregalaram de surpresa ao ouvir o valor mencionado. Como assim tudo isso, a minha meta era roubar apenas 2 milhões, o suficiente para me manter e montar meus pequenos negócios, eu não seria louca em roubar um valor tão alto, ainda mais em um período tão curto de tempo, imediatamente comecei a refazer mentalmente toda a programação que desenvolvi para o roubo a fim de tentar entender que merda eu fiz para acontecer um erro tão grande como esse. – Traga ela para mim, ela vai me pagar cada centavo que me roubou, tenho grandes planos para essa mocinha ai. – Ele ordenou para o seu capacho o que prontamente foi atendido.
Vi o capacho pegando uma seringa no bolso e o vi se aproximando de mim com a arma apontada para minha cabeça - Não se mova! – ordenou, a essa altura eu já tinha absoluta certeza de que era melhor morrer do que ser capturada, então tentei correr, obviamente que foi inútil, o imbecil me alcançou facilmente me puxando pelo cabelo com força e me jogando nos braços de dois capangas que estavam ali, logo me imobilizaram e em seguida o capanga que me abordou puxou meu braço, subindo o casaco por ele, depois ingeriu uma substância que eu supus ser algum tranquilizante, claro que iriam me apagar, o formigamento que se seguiu após a inserção do líquido no meu corpo, e a forma que eu comecei a amolecer apenas confirmaram os meus palpites.
Merda! Mil vezes merda!
Depois do tranquilizante veio o saco, me tirando a visão de absolutamente tudo, em seguida escutei os passos, alguém que eu não saberia dizer quem me carregando como um animal, senti meu corpo cada vez mais mole, não conseguia reagir, sequer falar alguma coisa, mas lembro vagamente de escutar a voz dele cada vez mais baixa no telefone.
- Quero ela intocada...
Era melhor ter deixado ele atirar!