- Olá, boa tarde! Tudo bem com o senhor? Sou Allison. Como posso te chamar? - respondeu ele, segurando meu braço com firmeza, sua voz carregada de medo e ressentimento;
- Eles estão aqui, estão em todos os lugares - proclamou, em um tom frenético que ecoava a urgência de suas palavras.
- A farmacêutica ISLAND está envolvida com armas biológicas. No início, seu foco era apenas em medicamentos, vacinas e substâncias terapêuticas, mas acreditam que uma arma biológica pode render muito mais lucro.
Com um olhar cético, ele prosseguiu:
- Assim, desenvolveram uma arma biológica e realizaram testes em pessoas que acreditavam estar participando de um novo programa de vacinação.
- Vacina? Mas contra que doença? Contra o quê?
Perguntei, tomada por um misto de medo e incredulidade.
- Não tenho certeza. Mas isso parecia irrelevante; as pessoas estavam satisfeitas, recebendo dinheiro para participar dos testes. Logo, começaram a surgir corpos, dezenas enterrados como se fossem indigentes.
Naquele momento, eu soube que aquela era a matéria de uma vida, ou seria uma vida pela matéria? Puxei meu braço e coloquei o pen drive dentro do bolso da frente da minha calça.
Poucos instantes depois, a porta se escancarou; um homem armado avançou em nossa direção, proclamando um assalto.
Ele agarrou minha mochila e, num piscar de olhos, um estrondo atingiu os meus ouvidos, causando-me um profundo zumbido ensurdecedor. No peito do meu informante, cujo nome ainda era um mistério para mim, uma grande mancha vermelha e pegajosa começou a se espalhar.
Diante de mim, seus olhos, agora sem foco e sem vida, estavam abertos, fitando-me, enquanto seu corpo flácido se inclinava para trás. Mesmo tomada pelo terror, pude ouvir gritos e o som de cadeiras sendo arrastadas, seguido por um segundo BANG. Meu corpo desajeitado caiu para frente sobre a mesa, e uma dor lancinante irrompeu em meu peito, acompanhada por uma sensação de queimação, enquanto uma escuridão total me engolia. Se aquilo era a morte, eu só desejava que tudo acabasse rapidamente. Minha garganta estava seca e ardente, e uma ânsia de vômito me invadiu.
Uma luz branca e difusa ofuscava minha visão, como se meus olhos estivessem se abrindo pela primeira vez em muito tempo. Aquilo não poderia ser o céu, mas também não era o inferno. Com um esforço para focar em algo ou alguém, uma mulher se aproximou, sua voz suave e acolhedora quebrando a névoa ao meu redor.
- Calma, minha querida, não se aflija, tudo ficará bem. Você está a salvo agora- disse ela, tentando me tranquilizar.
- A salvo! A salvo de quê?
Naquele instante, minha memória parecia um borrão, e as lágrimas brotavam incontroláveis dos meus olhos.
Um anjo ou um ceifador? Na verdade, não acreditava em nenhuma das duas opções; era o guardião das donzelas atrasadas. Alto, com grandes olhos escuros, cabelos negros como a noite e uma expressão que exalava perigo, ele se aproximou, dirigindo-se à enfermeira com gentileza:
- O que aconteceu? Ela está bem?
- Sim, ela está. Apenas precisa de um tempo para processar tudo. Já faz dias que ela estava inconsciente e acaba de sair da intubação. Mas o perigo já passou.
Como assim, dias inconsciente? Há quanto tempo eu estava ali? Minha mente girava em um turbilhão de perguntas. Por que ele estava ali? Por que me observava com tanta preocupação e curiosidade? E o que um completo estranho estava fazendo ao meu lado em um quarto de hospital?
Como se pudesse ler meus pensamentos, a enfermeira segurou minha mão e começou a me explicar o que havia acontecido. Ela me disse que aquele homem estava ali para me proteger, que ele era um guarda-costas e que sua missão era garantir minha segurança.
Com a mente sobrecarregada de informações e o auxílio de um sedativo potente intravenoso, logo voltei a adormecer.
Os dias se arrastaram, e aquelas manhãs no hospital estavam me deixando à beira da loucura. Assim que abria os olhos, ele era a primeira pessoa que eu avistava ao despertar e também a última antes de mergulhar no sono. Sempre muito profissional, suas palavras se resumiam a um simples "bom dia" e "boa noite".
Uau! Até agora, nada de novo. Vamos lá, pensei, decidida a quebrar o gelo.
- Você, por acaso, é um ciborgue?
Ele me lançou um olhar confuso, com as sobrancelhas franzidas, como se estivesse tentando decifrar meu questionamento.
- Desculpe, não quero parecer indelicada ou algo assim. É como se você estivesse sempre ali, sentado com uma postura impecável, vestindo seu terno preto perfeito. Com um sorriso encantador e sutil, ele se levantou e se aproximou de mim, respondendo à minha indagação.
- Estou aqui para protegê-la e não sou um ciborgue ou algo do tipo.
- Você está sempre presente, mas ainda não me contou seu nome ou quem arca com essa proteção.
- Meu nome é Ethan e estou a serviço do Peter.
- Ah, entendi, a entrevista com a minha fonte.
Pensei comigo mesma, sem perceber que havia falado em voz alta.
- E como ele está? Ele está bem?
Perguntei, mesmo temendo a resposta.
- Infelizmente, não sobreviveu ao atentado.
Ele respondeu, parecendo sensibilizado pela minha dor. É claro que aquilo nunca tinha sido realmente um assalto. Que tipo de assaltante se arriscaria a abordar duas pessoas em vez de ir direto ao caixa? Não sou do tipo que se veste sempre com roupas de grife; estava apenas com uma camiseta branca, uma jaqueta e calça jeans.
Minha mochila era tão antiga quanto os pares de silicone da Joyce, que, devido à sua falta de simetria, já ultrapassavam o tempo de uso permitido. Meu informante, se estivesse sentado em um banco de praça, facilmente poderia ser confundido com um andarilho. Naquele instante, lembrei-me do seu olhar angustiado; parecia que o medo era um companheiro constante em sua vida, e toda aquela dor e terror voltaram a me atingir, trazendo à tona memórias aterradoras.
Com as lágrimas escorrendo descontroladamente e um nó na garganta, ele me envolveu em um abraço, como se me conhecesse há eras, sabendo exatamente o que eu precisava. Permaneci em seu peito por um tempo, absorvendo seu perfume envolvente: uma mistura doce e amadeirada que não era comum, mas que parecia ser exclusivamente dele. Não sei dizer quanto tempo durou aquele abraço, mas sei que há muito não me sentia tão segura e protegida.
A porta se abriu e, num movimento ágil, ele se afastou, retornando à sua habitual postura profissional e reservada.
- Olá, minha querida! Como está a minha paciente favorita hoje? - exclamou a enfermeira, radiante.
- Estou bem, obrigada!
- Que maravilha! Fico contente em ouvir isso, pois hoje você receberá alta, logo após o almoço. Eu estava animada com a notícia, mas também um pouco apreensiva.
Ali, sentia-me protegida; já em casa, não tinha tanta certeza se conseguiria manter essa sensação.
Assim que minha enfermeira dedicada deixou sobre a cama um pacote com minhas roupas sujas, manchadas de sangue, ela me entregou a tão esperada alta, despediu-se e nos deixou a sós. Ethan, com seu olhar gentil, apanhou do chão uma sacola preta de papel e me entregou, dizendo:
- Enquanto você descansava, comprei isso para você assim que soube da sua alta. Ao olhar dentro da sacola, vi um par de tênis, uma camiseta branca e um jeans preto, que eram exatamente a minha cara.
- Muito obrigada!
Ainda não deu seu depoimento. Preciso te levar a uma delegacia; você vai relatar sua história e testemunhar contra a ISLAND FARMACÊUTICA.
- VOCÊ SABE DE TUDO ISSO?
Eu exclamei, sem perceber, com uma voz aguda e descontrolada.
- Calma, chefe da redação. O Peter esteve aqui e me contou sobre suas investigações e sua fonte.
Respirando fundo, voltei a me sentar na cama e, segurando minha mão, disse:
- Fique tranquila, você vai dar seu depoimento. Passaremos na sua casa e te levarei para um lugar seguro.
- Tudo bem! Só preciso pegar algumas coisas.
Levantei, com as roupas em mãos, mas seus olhos insistentes não se desviaram de mim.
- Ethan, preciso me vestir.
Ele apenas se virou de costas.
Derrotada pela teimosia daquele homem, agradeci com ironia.
- Muito obrigada! Privacidade é essencial.
Talvez eu não tenha sido irônica o suficiente, ou ele era mais sarcástico do que eu, pois simplesmente respondeu com um "à disposição".
Assim que finalizei a papelada do hospital, ele me conduziu até o elevador, com a mão na parte inferior das minhas costas. Seu toque em meu corpo provocou uma corrente elétrica que eu nunca havia sentido antes.
Alto e imponente, com um olhar que penetrava a alma, Ethan me conduzia pelo estacionamento. Entramos em seu carro, um sedã negro com bancos de couro que exalavam seu perfume, proporcionando-me uma sensação de conforto. Fomos até a delegacia, onde prestei meu depoimento, e então seguimos rumo ao meu saudoso lar.
Ao chegarmos ao meu apartamento, percebi que a porta estava entreaberta. Ethan a empurrou com firmeza, sacando a arma de seu coldre e me instruindo a ficar atrás dele. Com a arma em punho, ele fez uma busca meticulosa, assegurando-se de que não havia mais ninguém ali.
- Rápido, pegue o que precisar. Aqui não é seguro - disse ele com sua voz profunda.
- Claro, tudo bem! - respondi, enquanto minhas mãos tremiam.
Com pressa, peguei uma mochila e coloquei alguns itens pessoais. Ele me aguardava na porta, segurando minha mão e me puxando em direção ao elevador. O que restava do meu apartamento era um cenário de destruição: livros rasgados, móveis estilhaçados.
Eu estava tão amedrontada que minhas pernas pareciam não obedecer a comandos básicos. Ao entrar novamente no carro, as lágrimas escorriam silenciosamente até que o sono me envolveu. Acordei com a suavidade da mão de Ethan acariciando meu rosto.
- Desculpe. Não queria te assustar - sussurrou ele, com um olhar cansado.
- Que horas são? - perguntei, sentindo meu corpo dormente após tantas horas sentada.
- 21:00 em ponto. Ele respondeu com um lindo sorriso, olhando o relógio de seu pulso.
- Tudo bem! E onde estamos?
- Na minha casa. Venho aqui sempre que preciso escapar da loucura da cidade. É um lugar tranquilo e sereno, longe de tudo.
Ao olhar ao redor, percebi que só havia árvores: enormes árvores e nada mais. As únicas luzes ali eram os faróis do carro e a luz suave da lua. Não havia casas por perto, um verdadeiro santuário para a solidão.
Apesar da distância de tudo, uma sensação de segurança me envolveu. Peguei minha mochila e a sacola com as roupas do restaurante e saí do carro.
Retirando um chaveiro do bolso, Ethan destrancou a porta.
- Seja bem-vinda! Este será seu lar temporário.
Era uma charmosa casa de dois andares, completamente revestida de branco, com janelas e portas de estilo colonial em preto e um lindo piso de madeira, um verdadeiro oásis moderno e acolhedor em meio à natureza.
- Uau! É deslumbrante! Não parece nada com uma cabana de pescadores.
- Fico feliz que tenha gostado! Recentemente, fiz algumas reformas. Os quartos ficam no andar de cima; venha, vou te mostrar.
Um quarto amplo, com uma enorme cama king size e edredons que pareciam fofos como algodão.
- Sinta-se à vontade, guarde suas coisas e desça. Vou preparar algo para a gente comer.
Após guardar meus poucos pertences, senti um cheiro prazeroso vindo da cozinha.
- Parece delicioso! - disse eu enquanto ele cozinhava.
Sorrindo, ele respondeu:
- Sente-se, já vou nos servir.
Com obediência, acomodei-me em uma banqueta ao redor da ilha.
- O prato do dia é frittata com presunto de Parma. Bom apetite!
Ele exclamou, sentando-se ao meu lado.
- Está delicioso, obrigada!
- Disponha!
Ele respondeu, exibindo um sorriso genuíno.
- Sério, está incrível! Depois de tantos dias no hospital, eu havia esquecido como a comida caseira pode ser tão saborosa.
Enquanto desfrutamos da refeição, conversamos sobre sua bela casa, recém-reformada por ele, e descobri que aquele grande corpo definido havia sido esculpido por seu pesado trabalho braçal. Organizamos a cozinha e seguimos rumo aos quartos.
- Tome banho e descanse. Precisamos conversar pela manhã.
Disse, com um ar de preocupação.
- Tudo bem, boa noite!
Respondi ainda preocupada, com a destruição do meu apartamento.
Entrei no quarto, desfrutando de um momento de privacidade, após dias ao lado dele no hospital.
Depois de um banho revigorante, percebi que não havia trazido pijama algum, o que, dadas as circunstâncias, era compreensível, já que a morte parecia estar sempre à espreita.
Acabei dormindo apenas de calcinha e uma camiseta preta que encontrei no armário do meu quarto, que suspeitava ser do Ethan.
A noite estava quente e abafada; o lençol era tudo o que eu precisava. A cama era tão aconchegante que não demorei a cair no sono.
Quando abri os olhos, lá estava eu novamente, no restaurante, frente àqueles olhos cansados e profundos.
A porta se escancarou, e um homem armado entrou, gritando e anunciando o assalto.
BANG!
Gritei. Não, por favor! As lágrimas escorriam pelo meu rosto.
BANG!
Um último grito, rasgando minha garganta, e logo me senti sendo puxada para longe do perigo iminente.
- Abra os olhos, isso não é real, abra os olhos.
A voz insistia, tentando me puxar para a realidade.
Meus olhos lutavam para se adaptar à luz intensa; minha mente ainda estava emaranhada, tentando recordar onde eu realmente estava.
- Foi só um pesadelo, você está a salvo, estou aqui com você.
Sim, era isso. Eu estava com ele, não no restaurante, com meu carrasco, mas sim sentada na cama ao lado de Ethan, que me envolvia em um abraço apertado, me protegendo com seu calor reconfortante.
Apesar do calor que emanava dele, eu tremia de frio; minha camiseta, colada ao corpo e encharcada de suor, provocava ondas intensas de arrepio.
- Você está gelada.
Ele pegou o edredom e se deitou ao meu lado, cobrindo-nos.
- Durma, vou ficar aqui com você esta noite.
Não que compartilhar a cama fosse algo comum ou habitual, mas ao lado dele eu me sentia segura, dia após dia.
Acordando e dormindo com ele no hospital, aquela situação para mim não foi constrangedora.
Mesmo deitada sobre seu peito, demorei a dormir, e aquele fim de noite havia chegado; a luz do sol entrava pela janela, acompanhada do barulho dos pássaros cantando lá fora.
Ethan ainda dormia quando decidi que me levantaria escondida dele, porque não estava vestida o suficiente.
Ao me levantar, nas pontas dos pés, olhei ao redor à procura da minha toalha.
- Já de pé, tão cedo?
Sua voz rouca e sexy me tirou do foco anterior. Quando o olhei, ele estava me analisando de cima a baixo. Constrangida, me esforcei ao máximo para puxar para baixo a barra de sua camiseta, que, no momento, eu vestia.
- Então, é que, bem, eu...
E, mais uma vez, eu estava completamente gagá, me perguntando: como eu poderia descrever aquele ser? A resposta me veio à mente: conhece o Apolo? O deus da beleza, da poesia e da sabedoria, com sua aparência sem igual. Se ele estivesse entre nós, teria que batalhar pelo seu título, porque, olhando para Ethan naquele instante, tenho certeza de que o coitado do Apolo não teria chance alguma.
Como sempre, ele tinha o poder de me fazer esquecer até as coisas mais simples, como construir uma frase ou até mesmo pronunciar um simples "bom dia". Com aquele sorriso encantador, ele se levantou, se aproximou de mim e me deu um leve beijo nos lábios.
- Bom dia, garota-problema!
- É, bom dia!
- Você está bem? - perguntou ele, com um olhar curioso.
- Sim, estou. Ah, e a propósito, muito obrigada! Você sabe, por ter passado a noite comigo. Não, não é bem isso. Por ter dormido comigo. Bem, também não era isso que eu queria dizer.
Minha voz estridente alcançava um tom constrangedor, totalmente embaraçoso.
- Na verdade, era por ter me feito companhia.
- Não por isso - ele esboçou um sorriso.
Com um gesto delicado, ele afastou um dos meus cachos de cabelo atrás da orelha e sussurrou:
- Essa camisa te deixou maravilhosa.
- É, que bom!
Respondi, sentindo meu rosto arder de vergonha.
E assim, ele se despediu.
Uau, que resposta brilhante, Allison! Uma repórter que fica muda ou tropeça nas palavras toda vez que um homem fala com ela.
Só poderia ser o karma. Já tinha ouvido falar que o karma era uma vadia; o pior é que tinha que concordar.
Depois de um banho revigorante, desci determinada a preparar nosso café da manhã como forma de agradecer pela noite anterior, mesmo sabendo que, na verdade, já era hora do almoço.
Eu não era uma especialista na cozinha, mas torradas, panquecas e um bom café preto, isso sim, eram o meu forte. Ele entrou pela porta da frente, suado e vestido com um moletom.
- Que cheiro bom! - exclamou ele, com um sorriso no rosto.
- Preparei um café fresquinho.
Aproximando-me, entreguei-lhe uma caneca generosa, repleta do líquido fumegante. Como era de se esperar, de perto pude analisar melhor o conjunto da obra.
- Que maravilha! Estou morrendo de fome!
Eu também, pensei com ironia, perdida em meus pensamentos eróticos. Enquanto saboreávamos o café, ele me questionou sobre o sonho da noite passada. Foi nesse momento que uma lembrança inesperada surgiu em minha mente, uma recordação que até então não havia se manifestado.