- Calma, ele só está brincando. E que experiência culinária é essa, Enzo?
- Pizza margherita e, para os mais ousados, uma de chocolate.
- Ai, que delícia! Eu amo pizza!
Durante a tão aguardada conversa, aprendi várias coisas sobre Ethan; uma delas era que, apesar de sua beleza, ele não costumava sair com muitas mulheres, como eu imaginava. Na verdade, ele teve apenas um relacionamento sério e duradouro ao longo de sua vida.
Enzo acredita que a profissão de guarda-costas do irmão afastava as mulheres; no entanto, eu não compartilhava dessa opinião, pois Ethan, um homem de 39 anos, 1,88m de altura, 90 kg de músculos bem definidos, vestido de terno preto e com uma arma em punho, era uma verdadeira fantasia sexual tanto para mim quanto para uma boa parte da população feminina e masculina.
A noite foi perfeita; jantamos e rimos muito juntos. Descobri que Enzo também havia trabalhado como segurança, mas decidiu não continuar nessa carreira, considerando-a muito arriscada. Além disso, ele não era tão certinho quanto o irmão, o que acabou gerando alguns conflitos com a namorada.
- Enzo, suas narrativas românticas mais se assemelham ao Kamasutra do que a um conto de fadas - disse eu, com um sorriso no rosto.
- Não seja cruel, Alisson. Afinal, não se pode beijar um príncipe sem antes enfrentar alguns sapos.
- Rindo, eu comentei que já beijei um príncipe sem precisar passar por muitos sapos.
Sorrindo, olhei para Ethan.
Ele segurava minha mão sob a mesa; seu olhar penetrante me fazia sentir um frio na barriga.
Depois de lavarmos toda a louça, subimos em direção aos quartos.
Com um passo cambaleante e desajeitado, parei em frente à minha porta, desejando uma boa noite aos dois pares de olhos negros que me observavam.
Enzo me desejou o mesmo ao entrar em seu quarto; Ethan, por outro lado, me surpreendeu. Eu queria puxá-lo para o meu quarto e realizar todos os meus desejos, mas a presença do irmão dele no quarto ao lado me deixava tímida.
- Você tem certeza de que não quer passar a noite comigo?
Perguntou ele enquanto suas mãos me mantinham de pé em minha desajeitada pose "sexy".
- Na verdade, neste momento, não tenho certeza de nada.
Respondi, fixando meu olhar nos olhos dele.
- Então, deixa eu tentar te convencer.
Ele me pressionou contra a porta, levantando-me com suas mãos, enquanto minhas pernas se entrelaçavam em sua cintura. Seus lábios ávidos exploravam minha orelha e pescoço, descendo lentamente até meu decote.
- Eu quero você.
Implorei, gemendo em seu ouvido.
Ele me carregou para seu quarto, onde me beijou novamente. E assim, nos entregamos ao prazer, permitindo que a felicidade nos envolvesse por mais um tempo. Adormeci em seu peito, ouvindo o ritmo pesado da sua respiração.
Mas logo a sensação de alegria começou a se dissipar. Um arrepio percorreu meu corpo, e ao abrir os olhos, deparei-me com um ambiente, escuro e sombrio, envolto em fumaça de cigarro com aroma de uísque barato. Eu estava no restaurante, com aqueles olhos fundos e cansados me observando de maneira atordoada, murmurando coisas que eu não conseguia compreender. Um homem entrou pela porta, simulando um assalto ao puxar minha mochila. BANG!
Os olhos cansados, agora sem vida, já não se voltavam mais para mim.
"Não, por favor, não!" eu implorei, as lágrimas escorrendo enquanto a arma estava apontada em minha direção, minha mão levantada na tentativa de proteger meu rosto. Um terceiro disparo ecoou, um zumbido ensurdecedor preenchendo meus ouvidos. O sangue, quente e pegajoso, jorrava do meu peito, e a dor aguda me envolvia, aterrorizando-me enquanto eu mergulhava na escuridão.
"ETHAN, ME AJUDE, ESTÁ QUEIMANDO TANTO, ESTÁ DOENDO!" gritei, soluçando no meio da penumbra, chutando para longe o edredom que nos cobria.
- Alisson, Alisson, querida! Acorde, foi apenas um pesadelo - ele disse, enquanto puxava de volta o edredom.
Quando abri os olhos, Ethan estava ali, e a dor no meu peito também. Sentada em sua cama, puxei o edredom para verificar se havia sangue na ferida, que parecia menos cicatrizada do que eu esperava. A porta se abriu, com Enzo ascendendo as luzes.
- O que aconteceu? Ela está bem? Você está bem? - perguntou ele, exasperado e constrangido pela minha falta de roupas.
- Sim, ela está. Foi apenas um pesadelo - respondeu ele, tentando cobrir o máximo possível do meu corpo com o edredom.
Mesmo acordada, com meu ferimento já cicatrizado, ainda sentia dor por razões que não compreendia. Respirei fundo para me forçar a voltar à realidade: as luzes acesas, Enzo no quarto enquanto eu estava seminua, com parte do meu corpo coberta pelo edredom e a outra parte protegida por Ethan, que estava sentado atrás de mim, escondendo meus seios com os braços.
Muitas vezes, retornar à realidade é mais assustador do que permanecer à deriva, especialmente quando essa realidade traz pessoas desconhecidas para o seu quarto enquanto você está quase nua.
- Enzo, pode ir, eu cuido da Allison. Estamos bem, fique tranquilo; foi só um pesadelo.
- Tudo bem, qualquer coisa, me avise.
Meu cabelo estava grudado no meu rosto, molhado de suor e lágrimas.
- Você vai ficar bem; foi apenas um sonho. Agora está tudo certo.
Ele se levantou, pegou uma toalha úmida com água morna e limpou meu rosto. Me abraçou, me aconchegando em seu peito.
- Luzes acesas ou apagadas? - ele me perguntou.
- Pode apagar; estou segura onde estou agora.
Pela manhã, a chuva ainda caía forte; era um dia nublado e frio, e eu estava decidida a acabar com a farmacêutica ISLAND.
Enrolei-me lentamente no lençol para não acordar Ethan, que não tinha dormido bem por causa do meu pesadelo. Depois do banho, fui para o outro quarto.
Acompanhada por uma imensa caneca de café fumegante, preparado pelo Enzo antes de voltar para casa, comecei a redigir minha matéria. Tinha provas suficientes para demonstrar que aquele incidente não foi um assalto de verdade e que a farmacêutica ISLAND estava, de fato, desenvolvendo uma arma biológica.
Era quase meio-dia quando alguém bateu à porta.
- Pode entrar!
Respondi, já sabendo que era o Ethan.
- Bom dia!
- Bom dia! Desculpe pelo que aconteceu na noite passada. Não queria te assustar. Agradeço pelo empréstimo do computador. Não queria te acordar, então vim para cá.
- Sem problemas, quase não o uso. E como você está?
- Estou bem, obrigada! Decidi que vou escrever meu artigo; a ISLAND vai pagar pelo que fez.
- Uau, que mulher determinada! Sabe, eu adoro isso em você.
- Obrigada, Sr. Perigo!
- Estava refletindo: já se passaram alguns dias desde que chegamos, e essa chuva não dá trégua. Que tal sairmos para comprar algumas roupas novas para você? E, se você quiser, podemos almoçar fora também.
Levantei-me, envolvendo meus braços em seu pescoço.
- Eu adoraria! Muito obrigada!
Não que eu fosse ingrata pelas roupas que estava usando, já que adorava o aroma dele impregnado em suas camisas, mas sentia que estava me aproveitando demais de sua generosidade.
Minutos depois, já estava vestida com uma das poucas peças que escaparam do desastre no meu apartamento: um vestido longo verde militar, com uma fenda até o joelho, uma botinha de cano curto e um colar com um pingente de coração, o mesmo que usei naquela tarde fatídica no restaurante. Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo e, mesmo com o pé ainda dolorido pelo corte da noite anterior, desci radiante para o fim da minha reclusão social.
Ethan estava sentado no sofá, vestido com um terno e uma camisa preta, mantendo sua postura profissional habitual. Parecia que nada havia acontecido entre nós; eu me sentia desconfortável e, por um momento, cheguei a pensar que tudo não passara de um sonho. Um sonho muito bom e feliz.
- Olá!
Disse eu, um pouco intimidada, mas já imaginando como seria estar ao seu lado naquele sofá, vestido daquela maneira. Sabe como é, né? Terno, gravata e colete com uma camisa preta impecável são um convite irresistível para um delicioso fetiche.
- No que você está pensando?
Ele perguntou, aproximando-se de mim.
- Que você está muito atraente, todo sério e profissional.
- Você também está linda! Peguei este moletom para você. Está frio e a chuva ainda não passou.
- Certo! Obrigada por se preocupar comigo!
Vesti o moletom, impregnado com seu perfume. Por alguns segundos, senti como se nunca tivesse respirado de verdade.
- Você está bem?
Ele me questionou, visivelmente preocupado.
Eu o abracei pela cintura, sentindo-me grata por toda a sua atenção.
- Sim, estou bem! Muito obrigada! Sei que toda essa preocupação não faz parte do seu trabalho.
Com o olhar fixo em meu rosto, ele beijou o canto do meu olho, onde estavam as lágrimas, depois beijou minha bochecha e o canto da minha boca. E me disse, com os olhos fixos nos meus:
- Não estou mais trabalhando para sua revista desde o dia em que te trouxe aqui.
- O quê? Como assim? Não entendi.
- Deixei claro para seu editor-chefe que cuidaria de você, mas que não estava mais a serviço dele.
- Mas por que você fez isso?