Capítulo 5 Vida Ardua

SAGE

O despertador toca às três da manhã. Sinto o corpo pesado, mas levanto-me sem hesitar. Hoje é o meu primeiro dia no ginásio e não quero correr riscos. Preparo um pequeno-almoço rápido: café forte, duas torradas, e faço também um chá e umas bolachas para a avó Mila. Deixo-lhe uma nota na mesa da cozinha:

"Avó, fui trabalhar cedo. Volto depois das nove. O pequeno-almoço está pronto. Amo-te."

Quando saio de casa, a noite ainda é absoluta. O céu está negro, as ruas desertas e o frio corta-me a pele. Encolho-me no casaco, as mãos nos bolsos, e caminho depressa, como se isso pudesse afastar o gelo que me entra pelos ossos. Roseland a estas horas é um bairro fantasma: só o som dos meus passos e o vento a uivar entre os prédios.

Chego ao ginásio dez minutos antes das quatro. Espreito pela porta de vidro, à procura de sinais de vida. Lá dentro, vejo Mikhail sentado na receção, a beber qualquer coisa quente. Ele ergue o olhar, faz-me sinal para entrar.

- Bom dia, Sage. - A voz dele é grave, sem pressas.

- Bom dia, Mikhail.

Sem perder tempo, mostra-me onde estão os produtos de limpeza, os baldes, os panos, o desinfetante. Explica-me o que tenho de limpar: balneários, chão, máquinas, vidros, entrada, cacifos. O espaço é enorme, parece não ter fim. Tenho até às nove da manhã para deixar tudo impecável.

Dispo o casaco, calço os ténis e começo. Limpo cada canto, esfrego as máquinas, desinfeto os bancos, passo pano nos balneários, troco os sacos do lixo. O cheiro do desinfetante mistura-se com o suor antigo das paredes. Penso na responsabilidade: um ginásio limpo é essencial, não só para a saúde, mas para dar confiança a quem entra ali.

Às sete da manhã, faço uma pausa rápida: um iogurte e uma maçã, sentada num banco do balneário. Sinto os músculos dos braços a protestar, mas não posso abrandar. Volto ao trabalho, determinada.

Quando são oito da manhã, ouço passos atrás de mim. É o Thunder.

- Então, Sage, como está a correr o teu primeiro dia?

Sorrio, cansada.

- Atarefado, mas já estou quase a terminar. Este ginásio é maior do que parece.

Ele ri-se.

- Hoje não trouxe companhia, hein? - Brinco. - Ou devo dizer Thunder? Ou preferes que te trate por tu?

- Por favor, trata-me por tu. - Ele faz um gesto descontraído. - Ainda bem que hoje não houve greve na escola do Leo. Mas olha, o miúdo adorou passar o dia contigo e com a tua avó. Não se calou a falar de vocês.

Sorrio, genuinamente feliz.

- Temos de repetir outro dia. A minha avó também gostou muito dele.

- E ela, como está?

- Na situação dela, é um dia de cada vez. - Encolho os ombros.

Ele assente.

- Percebo. Bom, tenho de ir trabalhar. Força aí.

Despedimo-nos. Sinto-me mais leve depois da conversa.

Mikhail aparece pouco depois, chama-me ao balcão.

- Sage, esqueci-me de te dizer o salário. - Mostra-me um papel: 300 dólares por mês. O valor é quase nada, sinto o estômago apertar, mas não reclamo. Preciso deste trabalho.

- Obrigada, Mikhail.

Vou trocar de roupa, passo pelos ringues e distraio-me a ver alguns lutadores a treinar. O som dos socos, o cheiro a suor, a concentração nos rostos. Sinto saudades do tempo em que fazia boxe. Boas memórias, vontade de voltar.

No caminho para casa, passo por um supermercado. Há um anúncio na porta:

"Precisa-se de empregada a meio tempo, das 20h às 00h, duas folgas semanais."

Entro e pergunto à mulher da caixa.

- Bom dia, vi o anúncio na porta. Ainda estão a precisar de alguém?

Ela sorri e chama a gerente. Espero uns minutos. A gerente chega, uma mulher de ar prático.

- O trabalho é das oito à meia-noite, quatro horas por dia, duas folgas. Quer começar hoje?

- Quero, sim. Preciso mesmo. Posso vir às oito.

- Então, até logo.

Quando chego a casa, encontro o Hugo à porta.

- Então, Sage, como correu o dia?

Conto-lhe tudo, do ginásio ao emprego no supermercado. Ele percebe logo a minha hesitação.

- Não vais aceitar?

- O trabalho dava-me muito jeito, mas não gosto de deixar a avó Mila sozinha à noite.

Hugo sorri, põe a mão no meu ombro.

- Eu fico com ela essas quatro horas. Não te preocupes. Ela gosta de conversar e eu trago-lhe um bolo.

- Obrigada, Hugo. És mesmo um amigo.

Entro em casa, conto tudo à avó. Ela olha-me com preocupação.

- Não vai ser demais para ti, filha?

- Não há outra maneira, avó. Preciso disto. E tu sempre fizeste tudo por mim. Agora é a minha vez.

Ela sorri, emocionada.

Dou um jeito na casa, ponho roupa a lavar e secar. Janto qualquer coisa rápida. O Hugo chega, fica com a avó, e eu vou para o supermercado.

O primeiro dia é puxado, mas tenho alguém a explicar-me tudo: caixas, reposição de produtos, limpeza dos corredores. O tempo passa depressa. Quando o turno acaba, volto para casa, tomo um duche quente, bebo um chá e deito-me. Restam-me duas horas para dormir antes de voltar ao ginásio.

A vida não está fácil, mas não há nada que eu não faça pela minha avó. Amanhã, recomeça tudo outra vez.

                         

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