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Ela Renasceu para o Sucesso
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Capítulo 2

O choque inicial deu lugar a uma clareza gelada. Eu estava viva, e o passado, com toda a sua dor, era agora um mapa do futuro. Cada traição, cada palavra cruel, cada olhar de desprezo estava gravado na minha memória como um roteiro. Um roteiro que eu agora podia reescrever.

Levantei da cama, meus movimentos deliberadamente lentos. Minha mãe me olhou com irritação.

"Anda logo, menina. Clara já está pronta, linda como uma noiva. E você aí, com essa cara de quem chupou limão."

Na minha vida anterior, essa frase teria me ferido. Agora, eu apenas a observei. Observei os pequenos detalhes que antes eu ignorava. A maneira como ela arrumou a gola do vestido novo de Clara, um vestido que custou o dinheiro que deveria ter sido para nossos materiais escolares. A forma como ela colocou uma mecha do cabelo de Clara atrás da orelha, com uma ternura que ela nunca, jamais, demonstrou por mim.

"Estou indo," respondi, minha voz calma, desprovida da emoção que ela esperava.

Ela me deu as costas e saiu do quarto. Fui até o pequeno espelho rachado. A garota que me encarava tinha 18 anos, mas seus olhos continham a dor de uma vida inteira de sofrimento. A memória da agressão no beco ainda estava fresca, a sensação fantasma dos golpes, o frio do chão. Toquei meu rosto, meu pescoço. Nenhum hematoma. Era real.

Clara entrou no quarto, já vestida. Ela se olhou no meu espelho, ajeitando o cabelo.

"Você não acha que esse vestido me deixa um pouco pálida, Ana? Mamãe disse que realça meus olhos, mas não tenho certeza."

Ela falou com a displicência de quem sempre teve tudo. Na minha vida anterior, eu teria dito que ela estava linda, tentando comprar um pouco de sua afeição.

Hoje não.

"Acho que te deixa com cara de doente," eu disse, seca.

Ela se virou, chocada. Seus lábios se abriram, mas nenhuma palavra saiu. Ela não esperava por isso. Eu nunca tinha falado assim com ela.

"O que deu em você?" ela finalmente conseguiu dizer, sua voz subindo uma oitava.

"Nada. Apenas a verdade."

Vesti meu uniforme escolar, a mesma saia desbotada e blusa surrada de sempre. Minha mãe nunca se importou em comprar um novo para mim. Na cozinha, o cheiro de peixe frito enchia o ar. Maria colocou o melhor pedaço, o maior e sem espinhas, no prato de Clara. Para mim, sobrou a parte da cauda, cheia de ossos.

Era um ritual diário, uma microagressão que, somada a milhares de outras, havia me esmagado. Mas agora, eu via tudo com outros olhos. Não era apenas preferência, era uma crueldade calculada.

Enquanto comia em silêncio, minha mente trabalhava furiosamente. Eu precisava de um plano. Apenas confrontá-las como fiz da última vez não adiantaria. Eu seria expulsa e humilhada de novo. Eu precisava de provas. Eu precisava de aliados.

Lembrei-me de algo. Algo que eu só descobri nos meus últimos dias de miséria na vida passada. Um velho pescador, amigo do meu falecido pai, me contou uma história. Ele disse que meu pai, antes de morrer no mar, havia deixado um pequeno baú com documentos importantes e algum dinheiro guardado para mim e Clara, especificamente para nossos estudos. Ele disse que entregou o baú para Maria logo após o funeral.

Maria sempre nos disse que meu pai morreu sem deixar um centavo. Que éramos pobres por causa dele.

O baú. Onde estaria o baú?

Minha mãe e Clara saíram na frente, ansiosas para chegar à praça. Eu disse que precisava pegar um caderno e que as encontraria lá. Era a minha chance.

Corri para o quarto de minha mãe. O quarto que eu raramente entrava. Comecei a procurar. Debaixo da cama, dentro do guarda-roupa velho. Nada. O tempo estava se esgotando.

Pensei nos lugares mais improváveis. Onde ela esconderia algo que não queria que ninguém jamais encontrasse?

Meu olhar caiu sobre o velho altar de santos que ela mantinha no canto do quarto. Uma imagem de Santa Bárbara, a preferida dela. Havia uma base de madeira oca sob a estátua. Com as mãos trêmulas, levantei a imagem pesada.

E lá estava.

Não um baú, mas uma pequena caixa de metal, enferrujada nas bordas.

Usei um grampo de cabelo para forçar a fechadura. Abriu com um clique.

Dentro, havia uma caderneta de poupança antiga, com um saldo surpreendentemente alto para a época. Havia também cartas. Cartas do meu pai para minha mãe. E um documento.

Um exame de DNA.

Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o papel. Li as palavras que mudariam tudo.

Clara não era filha do meu pai.

As cartas contavam a história. Minha mãe teve um caso com um turista rico, pouco antes de se casar com meu pai. Ela engravidou. Meu pai, apaixonado e de bom coração, a perdoou e assumiu Clara como sua. Mas o turista, antes de desaparecer para sempre, deixou uma grande quantia em dinheiro para Maria, para garantir o futuro da criança.

O dinheiro da poupança.

Meu pai me amava. Ele me criou, a mim e a uma filha que não era sua, com o mesmo amor. E minha mãe... minha mãe o traiu, mentiu a vida inteira e usou o dinheiro que era para o futuro de Clara para sustentar seus próprios caprichos, enquanto nos fazia viver na pobreza. A preferência dela por Clara não era apenas porque ela era a "favorita". Era porque Clara era o símbolo de uma vida mais rica que ela poderia ter tido. E eu... eu era o lembrete constante do pescador pobre com quem ela acabou se casando.

A raiva me consumiu, quente e avassaladora. Mas eu a sufoquei. Agora não era a hora para emoções. Era a hora para estratégia.

Fotografei cada documento com o celular velho que eu tinha. O exame de DNA. As cartas. O extrato da poupança. Enviei tudo para um endereço de e-mail que criei na hora, um que elas nunca encontrariam. Coloquei tudo de volta na caixa, a caixa de volta sob a santa, e saí do quarto.

No caminho para a praça, encontrei Pedro.

Ele tinha voltado de viagem mais cedo. Meu coração deu um salto. Na minha vida anterior, sua ausência foi um dos pregos no meu caixão.

"Ana! Que cara é essa? Parece que viu um fantasma," ele disse, seu sorriso caloroso como sempre.

"Pedro... eu preciso da sua ajuda. É muito, muito importante."

Eu o puxei para um beco, longe de ouvidos curiosos. Eu não contei a ele sobre a minha "volta". Ele acharia que eu estava louca. Mas eu contei a ele sobre minhas suspeitas. Sobre a bolsa, sobre como eu achava que minha mãe e Clara tentariam roubá-la de mim.

"Isso é loucura, Ana. Sua mãe não faria isso," ele disse, cético.

"Você confia em mim, Pedro?" eu perguntei, olhando diretamente em seus olhos.

Ele hesitou por um momento, depois assentiu.

"Confio."

"Então eu preciso que você faça uma coisa. Quando a lista for anunciada e meu nome estiver lá, eu quero que você use seu celular para gravar a reação da minha mãe e da Clara. Dê um zoom no rosto delas. Grave tudo. E depois, fique de olho nelas. Principalmente na minha mãe."

Ele parecia confuso, mas concordou.

"E Pedro... obrigada. Você não sabe o quanto isso significa para mim."

Ao me virar para sair, ele segurou meu braço.

"Ana... eu sei que as coisas são difíceis na sua casa. Mas saiba que eu estou aqui. Sempre."

Havia algo em seu olhar, uma intensidade que eu nunca tinha notado antes. Uma preocupação que ia além da amizade. Na minha pressa e desespero da vida passada, eu nunca percebi. Mas agora, eu via.

Um calor inesperado se espalhou pelo meu peito, uma pequena ilha de segurança em meio ao meu mar de vingança.

Cheguei à praça bem a tempo. A lista estava sendo pregada. Minha mãe me lançou um olhar de repreensão pelo meu atraso.

Eu me posicionei onde podia ver Pedro, que já estava com o celular em mãos, fingindo mexer em algo.

O nome foi lido em voz alta.

"Bolsa integral para a Escola de Música do Rio de Janeiro... Ana de Sousa!"

O mesmo silêncio. Os mesmos olhares.

Mas desta vez, eu não senti a necessidade de correr para ver. Eu já sabia.

Em vez disso, eu olhei diretamente para minha mãe.

E eu sorri.

Um sorriso frio, afiado, que não chegou aos meus olhos. Um sorriso que prometia tudo o que estava por vir.

A expressão no rosto dela, uma mistura de choque, fúria e uma ponta de medo, foi perfeitamente capturada pela câmera do celular de Pedro.

O jogo havia começado. E desta vez, eu ditava as regras.

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