Adentrei as portas daquele estúdio e ele estava exatamente como as últimas vezes em que eu estivera ali. Havia modelos usando os nossos novos designers de verão enquanto flashs iluminavam todo aquele espaço. As paredes escuras, e logo na frente a montagem branca onde um cara que eu conhecia intimamente tirava uma foto consideravelmente quente.
Mordi o lábio e pedi que Rayssa anunciasse as maquiadoras que eu precisaria delas em instantes. Ela se afastou e eu segui em direção ao meu fotógrafo.
- É um modelo excepcional, não é? – sussurrei baixinho quando me aproximei de Michael.
Ele ficou surpreso quando me viu e tirou a visão de sua câmera. Me lançou um sorriso amigável.
- Elisa, não sabia que viria aqui hoje. – Ele fez um sinal com a cabeça dispensando o modelo. – Repensou a minha proposta? – ele piscou os olhos escuros.
Soltei uma risada.
- Na verdade, eu pedi para Rayssa avisar há algumas semanas que iria precisar dos seus trabalhos. Provavelmente você que esqueceu. – Repreendi. – Vou precisar do estúdio e de você agora. Dispense todos.
Michael arqueou a sobrancelha e eu sabia exatamente o que ele tinha em mente. Desviei o olhar porque eu também não era o tipo de pessoa forte que resistiria fácil ao moreno perfeito que estava em minha frente.
- Quero fazer um book novo. Testar as peças novas pessoalmente e preciso que você fotografe muito bem.
- É um presente então? – ele começou a mexer na câmera e eu assenti.
- Sim. Mas não é pra você. – Pisquei os olhos. – Quero fazer uma surpresa para o meu marido de dois anos de casamento.
- Já faz tanto tempo assim? – ele parecia surpreso. – Eu não pensei que...
Cruzei os braços e lancei o olhar mais sério e repreensivo que eu podia. Michael entendeu de imediato.
O meu relacionamento com meus funcionários não passava de nada além de profissional. Ao menos, era isso que eu dizia a mim mesma nos últimos dois anos. Conheci Michael em uma viagem a Londres e eu soube que precisava dele com urgência na minha equipe. Criamos uma intimidade necessária em nosso meio, apesar das suas tentativas de ter uma noite dos sonhos comigo. Infelizmente, ele não pôde ter essa honra.
- Eu só achei que fosse alguma espécie de fogo de palha. – Ele continuou mesmo assim. – Vocês são diferentes entre si. Você é totalmente ambiciosa, estrategista, um tipo de alfa. E ele é só o Anderson.
Soltei a respiração e lancei um sorriso coberto de indiferença.
- Ser casada não me impediria de ficar com você, se eu quisesse. O ponto é que eu não quero você. – Entreguei a minha bolsa para que ele segurasse. – Eu estou casada porque eu quero, Michael, não porque eu preciso.
Dei as costas a ele e segui até o vestuário, dispensei todo mundo e só deixei quem eu realmente precisaria. Maquiadores, cabeleireiros, minha assistente e meu fotógrafo.
Saí daquela sala meia hora depois; com o meu cabelo perfeitamente alinhado em seus cachos, os olhos em um esfumado preto, os clássicos lábios vermelhos. Saltos finos em agulhas nos meus pés, e abaixo do roupão que eu usava um conjunto de lingerie em renda arrastão com cinta liga e meia 7/8 pretas.
- Está pronta? – Michael perguntou enquanto terminava de arrumar o cenário.
Não havia mais ninguém no estúdio além de nós dois.
- Nasci pronta! – sorri para ele e deixei o roupão cair sobre os meus pés.
Michael engoliu em seco e eu sorri comigo mesma, sabendo o quão irresistível eu podia estar.
- Controle sua ereção, por favor. – Sorri docemente para ele e segui até o cenário.
Os tripés com as luminárias me abraçaram e Michael ajustou as lentes da câmera.
- Então, o que eu faço? – quis saber.
- Vamos começar com você só olhando para câmera, foco no olhar arrebatador. – Ele começou a me dá direção. – Lança um pequeno sorriso. Isso, ótimo. Fica de perfil. Passe os dedos lentamente na estrutura do seu pescoço chegando até o decote. Incrível.
Michael continuava a tirar fotos seguidas enquanto eu realizava aqueles passos a passos. Eu me sentia complexa e descolada o suficiente para saber que eu estava incrível.
- Você. Jogue essa poltrona pra cá. – Rayssa fez o que Michael pediu e ele colocou a poltrona ao meu lado. – Agora se deite de lado e estique suas pernas como se estivesse flutuando. Joga o cabelo para trás. Isso. Tenta soltar uma risada. Agora séria. Sexy. Sexy pra caralho. – Ele me elogiou no final e eu sorri.
- Estou ciente. – Me levantei daquela poltrona.
- Ok, vamos tentar uma mais ousada agora. – Michael se aproximou de mim e me pediu para deitar-se nas almofadas no chão. – Fica de quatro. Ombrinho na almofada e bumbum no teto.
- Eu sei ficar de quatro muito bem. – Sorri para ele e fiz o que me pediu, esticando um pouco do meu braço direito para frente e olhando para câmera mordendo lentamente os lábios.
- Uau. – Michael sussurrou e me entregou um pirulito. – Você sabe o que fazer.
- Você sabe que eu sei. – Eu sorri, fiquei de joelho e olhei para câmera.
As poses e fotos continuaram e aquilo estava me deixando animada o suficiente e eu já esperava ardentemente o momento de chegar em casa e refazer cada posição daquela.
- É isto, temos o suficiente. – Michael anunciou.
Me levantei e Rayssa me entregou o roupão para vestir. Michael me mostrou as fotos e como eu já sabia, fizemos um excelente trabalho.
- Preciso disso para amanhã. Escolha as melhores e em formato de book e envie para Rayssa. – Eu dei minhas últimas ordens e estava prestes a seguir em frente e ir embora quando um perfume conhecido encheu aquele espaço.
Me virei entre os calcanhares e assisti Beatriz atravessando as portas daquele estúdio com o ruivo do seu cabelo no movimento esvoaçante. Ela me olhou e sorriu. Eu continuei séria.
- Elisa, quanto tempo?! – ela se aproximou de mim. – O que faz aqui?
- Por que eu precisaria te dizer isso? Isso é tudo meu. – Sorri.
- Sempre rude.
Beatriz era a prova viva de todos os motivos para eu não me envolver com mais ninguém do trabalho. Ela era uma das minhas modelos mais talentosas e que esteve trabalhando comigo desde o início, até que em uma noite de bebedeira há três anos, dormimos juntas. E assim seguiu pelas próximas sessenta noites seguidas. Até Beatriz se afastar rapidamente por não dá conta de toda bagagem que vinha comigo. De toda forma, eu agradecia.
- Como você está? – ela insistiu.
- Melhor do que nunca. – Eu sorri. – Você?
- Com saudades sua. – Ela mordeu o lábio.
Revirei os olhos e comecei a andar em frente, para longe dela.
- Você não precisa me manter afastada assim. – ela parou em minha frente novamente.
- Você tem que agradecer por ainda deixar você trabalhar comigo. – Dessa vez, fui rude.
- Na verdade, é porque eu sou a sua melhor modelo. – Ela sorriu.
- Não se engane, existem melhores ao redor do mundo.
Beatriz ficou em silêncio por um instante e eu sorri porque eu gostava de me sentir superior a ela. Na verdade, havia passado tanto tempo que eu nem fazia tanta questão. Descobri que tinha coisa infinitamente melhor.
- Como está o seu casamento? Espero que esteja feliz. – Quis saber.
- Você não precisa saber disso. E eu quero que saia. Esse estúdio é meu pelo resto da tarde.
Beatriz tentou argumentar, mas a arqueada de sobrancelha que eu a entreguei foi suficiente. Ela deu as costas e foi embora.
Ser cruel tinha as suas qualidades e eram amargamente doces. Mas naquele momento, eu sabia que precisava voltar para casa o mais rápido que podia e descontar toda raiva e fogo que eu estava sentindo no meu marido.
E bem, essa era a minha rotina.