Enquanto eu levava mais uma taça de martini até minha boca, foquei minha atenção atentamente naquele belo erro á centímetros de mim. Os traços do seu rosto pareciam ter sido desenhados com as mãos. A mandíbula firme sendo coberta por uma barba bem-feita, os lábios carnudos que chamaram curiosamente a minha atenção. Bem abaixo de sua boca, no centro do seu queixo uma covinha lhe dava um ar de inocência. Os cabelos castanhos claros com fios caindo sobre seus olhos, cujo olhos eram penetrantes e castanhos demais atrás dos óculos de grau.
- O que achou? – sua voz quebrou o silêncio. – Claramente estava me analisando. Já se arrependeu?
Dei um sorriso de leve e neguei lentamente com a cabeça.
- Nada mal. – eu respondi sua primeira pergunta. – Então, Ramón, o que faz aqui?
Ele me encarou de volta, parecia intrigado, mas não respondeu a minha pergunta. Aquilo me estressava, eu odiava ser ignorada daquela maneira, eu gostava de ter o controle de tudo, mas aparentemente aquele homem não se importava nem um pouco.
- Eu te fiz uma pergunta. – Arqueei a sobrancelha do jeito intimidante que fazia todo mundo ceder.
Exceto Ramón. Ele deu apenas uma risada alta e desceu uma dose da bebida sobre os lábios rosados e quentes, aposto.
- Aqui você não é a minha chefe. – Ele finalmente respondeu. – Nada será resolvido apenas com a sua palavra.
- Isso é uma espécie de desafio? – eu o encarei. – Posso fazer você ceder em minutos.
Ramón voltou a me encarar e levou o longo dedo indicador até o nariz empurrando os óculos para cima. Um sorriso irônico pintou o seu rosto e estranhamente eu sorri também.
- Estava esperando alguém para um encontro. – Ele cedeu, por fim. – Mas aparentemente levei um... Como fala isso aqui? – ele franziu a testa.
Acabei sorrindo.
- Um cano, pé na bunda. – expliquei. – Então, como era ela? Ou ele? Ainda pode chegar.
Ramón sorriu para mim mais uma vez e umedeceu os lábios. E eu sorri de novo. Que merda estava acontecendo? Eu raramente sorria e naquela noite, essa era a última coisa que eu deveria fazer.
- Essa é a sua maneira de perguntar se eu sou hétero? – ele voltou a falar e eu dei ombros. – Para a sua felicidade, sim.
Essa foi a minha vez de gargalhar e em seguida revirar os olhos.
- Você é tão convencido assim? – eu perguntei.
- Só quando estou bebendo. – Ele levantou o seu copo e eu o acompanhei.
Descemos a nossa bebida sobre nossas bocas e o silêncio voltou. Era estranho, porque eu nunca havia sentado para conversar ou beber com nenhum funcionário, e o mais estranho ainda era que aquilo não parecia um sacrifício. Eu estava leve, estava com a mente ocupada e isso era tudo que eu precisava.
- Me fale sobre você. – Eu pedi. – Tudo que eu conheço de você é o seu nome e que trabalha para mim.
Ele soltou a respiração e encostou as costas no estofado do sofá booth. Enfiou as mãos na jaqueta de couro preta que cobria a sua camisa branca e por alguma razão, eu quis ver além daquele tecido.
- Meu nome é Ramón Martin. Sou de Porto Rico, estou nesse país há uns seis meses. Sou formado em agronomia e...
- Espera. – Eu o interrompi. – Como você é formado em agronomia e está trabalhando na copiadora da empresa?
- Precisava de dinheiro. – Ele deu de ombros. – Minha família estava passando por um momento difícil e eu não poderia me dar o luxo de escolher trabalho.
- Entendi. - Balancei a cabeça rapidamente, me recriminando por me meter em sua vida pessoal porque eu odiava quando faziam isso comigo. – Pode continuar.
- Acho que é só isso que você precisa saber. – Ele sorriu. – Tenho vinte e sete anos e ainda tenho dificuldade em falar seu idioma.
Soltei uma risada e concordei, porque o seu sotaque claramente chamava mais atenção do que as coisas que saiam da sua boca.
- Eu posso falar com você em espanhol. – Eu disse. – Sou muito boa com línguas.
Ramón semicerrou os olhos para mim quando veio à tona o entendimento ambíguo na minha frase.
- ¿Entonces es eso?- perguntei, ele sorriu.
- ¡Si, creo que si!
Então sem mais enrolações, desci o resto do líquido da minha taça pela minha garganta e a deixei de lado. Bati os dedos lentamente naquela mesa e encarei aqueles olhos castanhos em minha frente.
- Então... – comecei, ele me olhou atentamente – Você quer foder?
E como eu sabia exatamente o que aconteceria, Ramón arregalou os olhos e os seus óculos escorregaram no mesmo instante. Ele parecia surpreso, mas eu me mantinha séria, porque bem, eu estava falando sério.
O que eu tinha a perder? Ele era atraente o suficiente, tinha um sotaque e voz gostosa, e com sorte, ele seria também. E bem, eu não era o tipo de mulher que calava os meus desejos e depois ficaria arrependida nos cantos das paredes. E eu nunca ficava na vontade.
- Mas eu não sei nada de você. – Ramón falou, por fim.
Eu sorri, me levantando. Atravessei lentamente o espaço que nos separava e olhei profundamente nos seus olhos.
- Prazer, meu nome é Elisa, apelido Lili para os mais íntimos. – Sorri lentamente para ele e passei minhas unhas sobre o seu braço.
- Lili? – ele me perguntou, confuso.
Me abaixei lentamente e sussurrei no seu ouvido:
- Tenho uma descendência com a rainha do inferno, Lilith.
Dito isso, me afastei devagar dele e comecei a andar em frente. Ouvi os seus passos pesados atrás de mim. E eu sorri.