Abandonei os meus sapatos no início da escada e sai correndo entre os degraus. Encontrei Anderson na beira da cama e ele se levantou quando me viu. Corri e o abracei. Senti minhas energias sendo carregadas de pouquinho a pouquinho enquanto ele passava a mão lentamente pelas minhas costas.
- O que foi, gatinha? – ele sussurrou sobre os meus cabelos. – Aliás, feliz dois anos.
Eu sorri sobre os seus ombros e me afastei.
- Feliz dois anos. – Eu respondi de volta e beijei de leve os seus lábios. – Eu tive um dia tão cheio, só precisava encontrar você.
Anderson sorriu para mim e colocou um cacho que caía nos meus olhos atrás da orelha.
- E o que houve em seu trabalho? – ele quis saber.
Eu soltei a respiração e comecei a abrir os botões da minha blusa.
- Lembra do novo projeto que venho planejando nos últimos dois anos e que pode mudar totalmente o futuro da Caccini's Style? Bom, aparentemente não vai acontecer. – dei de ombros.
Anderson apenas ficou calado e enfiou as mãos no bolso da calça e foi quando prestei atenção atentamente nele. Ele estava vestido formalmente, uma calça escura, com um terno azul marinho. Os cabelos negros penteados para trás e a barba cheia enfeitando o seu rosto.
- Você está me parecendo a própria personificação de tentação. – Eu sussurrei baixinho e me aproximei lentamente dele.
- Fico agradecido por esse elogio, mas você só tem trinta minutos. – Ele sussurrou sobre os meus lábios.
- Dá pra fazer três vezes então. – Sorri e Anderson gargalhou.
- Temos uma reserva no seu restaurante italiano preferido em trinta minutos. Mais tarde da noite iremos para o motel mais caro da cidade. E se tudo der certo, você pode liberar o que negociamos há alguns dias. – Ele me lançou o seu sorriso mais sacana.
- Só se eu quiser. – Pisquei os olhos e me afastei.
Estava seguindo até o banheiro quando Anderson me chamou, antes de atravessar as portas do quarto.
- Aliás, recebi o seu book com aquelas fotos irresistíveis. Estou até com calo na mão esquerda. – Eu gargalhei enquanto ele ia embora e eu segui até o banheiro.
É, talvez os fins justificassem os meios. Eu comecei aquele dia estressada o suficiente para só querer passar o resto da noite deitada na minha cama, mas aquela noite havia começado a fazer todas as últimas horas serem insignificantes.
Eu estava de baixo do chuveiro e eu sentia a água quente queimar cada pedaço da minha pele e isso me fazia sentir viva. Em seguida, coloquei a água mais fria possível. Eu adorava aquele contraste de temperatura, era como levar um choque e eu tinha a necessidade de sentir sensações que podiam me queimar na mesma intensidade que me deixariam fria.
Saí daquele banheiro com a toalha envolta ao meu corpo e segui para o meu closet. Encarei as infinidades de roupas na minha frente em seus cabides, a maioria ainda com etiquetas e eu não sabia qual usar. Corri as mãos sobre os vestidos de todos modelos e cor tentando escolher, mas os últimos cabides chamaram minha atenção.
Decidi pegar o vestido que usei em nosso primeiro encontro. O vestido branco, um pouco acima dos joelhos, onde continha uma fenda na perna esquerda e era justo o suficiente para marcar todas as curvas que deviam ser apreciadas. O vestido não possuía decote, mas o design do busto dava um ar de sensualidade juntamente com as alças fininhas que o prendiam em meu corpo.
Enquanto me vestia e cravava outra luta sobre qual sapato iria usar, ouvi um celular tocando de dentro do meu quarto. Terminei de me vestir e encontrei o celular de Anderson em cima da cama. A ligação já havia sido encerrada e só restava uma mensagem de texto. Atravessei o quarto e abri a mensagem; era do número do seu escritório.
Sei que eu não deveria fuçar o seu celular assim, por respeito a sua privacidade. Mas não era como se ele tivesse algo a esconder e nós tivéssemos segredo entre nós. Principalmente na área de trabalho. Comecei a ler a mensagem:
Escritório Anderson Baker:
Adorei todo o trabalho que realizamos hoje. Apesar de eu ter as minhas partes preferidas. Xoxo, Iz.
Encarei aquela mensagem repetidas vezes tentando encontrar alguma explicação ou palavrachave que indicasse que aquilo era assunto de trabalho. Mas eu não encontrei nada e eu não era idiota a esse ponto. Então fiz o que minha inteligência e estratégia pediu; respondi aquela mensagem.
Negoc. Anderson Baker:
Estou curioso, quais partes foram as suas preferidas?
Esperei aquela mensagem chegar enquanto soltava o meu cabelo e deixava a tranquilidade voltar a correr em minhas veias. Não precisava de pressa, nem de surtos inúteis. Ao decorrer dos anos eu percebi que abstrair e fingir demência era o segredo.
A mensagem chegou.
Escritório Anderson Baker:
A parte que você prendeu minhas mãos com sua gravata e lambeu o meu corpo todo.
Xo, Iz.
Senti o meu coração bater acelerado e deixei o celular escorregar da minha mão. O aparelho bateu na gaveta aberta do criado-mudo e em seguida a tela trincou quando encontrou o chão. Exatamente como eu podia sentir a droga do meu coração fazer.
E eu simplesmente não sabia o que pensar. Como reagir. Ou o que sentir. Eu estava em choque e tentava encontrar alguma explicação lógica porque nem em meus piores pesadelos aquilo poderia acontecer. Pensei se alguma vez eu fui cega e não notei os sinais. Pensei que o problema deveria ser eu. E droga, eu odiava o rumo que os meus pensamentos seguiam.
Deixei aquele celular jogado no chão e fui para frente da minha penteadeira. Sentei-me naquela cadeira e encarei o meu reflexo. Alinhei os meus cachos com os meus dedos e lembrava a mim mesma que estava tudo bem. Que eu podia acumular a raiva e que eu podia evitar o ódio por pelo menos cinco minutos.
Eu não chorava há o quê... Três anos? Não seria por isso que eu iria chorar ou me desesperar. Eu só precisava ser paciente e aceitar o tipo de decepção amorosa que o tempo nunca poderia concertar. Estava tudo bem, eu só estava me sentindo quebrada em mil pedaços.
Ouvi barulhos de passos se aproximando do quarto e o meu coração bateu acelerado. E eu só agi naturalmente. Quando Anderson pisou novamente no quarto, eu estava passando um batom vermelho em meus lábios, tranquila e pacificamente.
- Está pronta? – sua voz soava desconhecida para mim agora.
- Só preciso de alguns minutos. – Respondi e abri a minha gaveta de joias. – Como foi o seu dia no trabalho? Muito corrido?
Só ouvi o som pesado de sua respiração porque eu era incapaz de olhar para ele naquele momento.
- Foi um dia cheio. O único momento livre que tive dediquei todo as suas fotos.
Sorri para o meu próprio reflexo enquanto tirava minha aliança de casamento do dedo e joguei naquela gaveta.
- Me sinto tão lisonjeada. – Eu respondi me virando naquela cadeira para o encarar. – Mas não tanto quanto a Iz.
Anderson engoliu em seco e piscou os olhos rapidamente.
- O que você está falando? – sua voz parecia trêmula.
Fechei a gaveta da minha penteadeira com força e me levantei daquela cadeira. Anderson notou o seu celular quebrado no chão e arregalou os olhos.
- Não se preocupe, eu pago pelo seu celular. Assim como pago por todo o resto aqui. – Sorri.
- Gatinha, eu posso te explicar, isso não é...
- O meu nome é Elisa. – Eu o interrompi. – E eu não preciso de explicações, eu sei ler e sei exatamente o que "lamber" significa.
Anderson assanhou os cabelos e parecia desesperado. Eu não sabia se eu ria da cara dele ou se simplesmente o mandava se ferrar e o expulsava da minha cabeça. Mas tudo que eu sabia era que eu tinha nojo dele. Tinha nojo do estranho que eu dividi os últimos setecentos e trinta dias.
- Você não pode me culpar, porque nada disso aconteceu porque eu quis. - Ele tentou argumentar.
- Para de falar comigo como se eu fosse idiota! – eu gritei. – Eu sei o que você fez, sei quem é autora desse chupão horrível que você tem no pescoço, sei quem foi a merecedora de toda dedicação do seu dia. Seja a merda do homem que você é, e assuma.
Anderson bufou e tirou o seu terno jogando em cima da nossa cama. Encarei cada movimento dele me segurando a vontade de chutá-lo até a morte. Eu não sabia o que era pior, saber que eu estava o perdendo ou que havia sido enganada pela pessoa que eu mais amava.
- Ok, Elisa. Você está certa. Sobre tudo isso. – Ele assumiu e eu dei um passo para trás. – Eu juro que eu não queria que nada tivesse acontecido, mas eu não pude mais evitar.
- Quanto tempo? – eu perguntei e ele ficou sem silêncio. – Quanto tempo?
- Seis meses.
- Oh, meu Deus. – Precisei me virar de costas para ele porque ele não merecia enxergar o estado que eu estava.
Em que mundo estava a minha cabeça que eu não notei tudo aquilo? Que eu não vi os sinais de que eu não era simplesmente a única?
- Eu não consigo entender. – Me ouvi falando. – Minutos atrás eu era tudo para você, e agora não sou nada.
- Você nunca será nada para mim.
- Eu não sou otária. – Me virei de volta pra ele e parei em sua frente. – E você não é esperto o suficiente para trair uma mulher e torcer para que ela nunca descubra. Só espero que ela valha a pena, porque o que nós tínhamos... – apontei de mim pra ele. – Você não terá com mais ninguém.
- E você acha que o que temos é perfeito? – sua voz aumentou algumas oitavas e ele se afastou de mim. – Acontece que eu estava cansado de viver um relacionamento com a sua secretária eletrônica.
- Que merda você está falando? – eu o encarei. – Eu sempre estive presente para você toda a noite.
- Eu não estou falando de sexo, Elisa. – Ele continuou a berrar como um garotinho desesperado por um brinquedo na vitrine. – Eu falo sobre conversas profundas, carinhos, segredos.
Eu sorri e joguei o meu cabelo para trás.
- Ah, então eram essas coisas que você foi procurar nela? – arquei a sobrancelha. – Nada de sexo?
Anderson soltou a respiração e encarou o chão. A resposta alta clara gritando sobre os meus ouvidos e apagando tudo de bonito que nós dois já tivemos.
- Vai se ferrar. – Eu sussurrei muito perto do seu rosto. – E eu não me arrependo, nem por um minuto, de ter colocado o meu trabalho acima de nós dois, porque ele nunca vai acordar numa manhã qualquer e descobrir que não me ama mais.
Peguei a minha bolsa no criado-mudo e saí daquele quarto. Anderson veio correndo atrás de mim.
- Para onde você vai? Nós não iremos jantar para comemoramos o nosso aniversário de casamento? – ele gritava enquanto eu descia as escadas.
Eu dei uma gargalhada que encheu toda a minha casa. O quão estúpido ele era? E por que eu só havia notado aquilo agora?
- Você já comemorou por nós dois, e agora é a minha vez de comemorar o fim do nosso casamento. – Eu disse e estava de volta a minha tranquilidade e calcei os saltos vermelhos que eu deixei na beira da escada.
Desfilei calmante no meio da sala, indo em direção a porta, ouvindo Anderson gritar o meu nome. Sem me virar para encará-lo, apenas levantei o meu dedo do meio para ele e atravessei aquelas portas.
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Eu estava dirigindo rápido o suficiente e ultrapassando a velocidade daquela rodovia. Eu encarava as ruas escuras e sentia o vento gelado bater sobre o meu rosto através das janelas abertas do meu carro. E eu só sabia que precisava ir para o mais longe que podia, precisava me isolar e está em um lugar que me impedisse de sentir dor ou decepção.
Eu sabia que eu simplesmente não podia fugir dos meus problemas e que de repente tudo iria desaparecer. Eu estava ciente de que precisaria sentir dor, precisava sentir e decorar toda forma que os destroços do meu coração estavam desenhando no meu peito, mas eu me recusava a ficar me lamentando. Recusava-me a achar que tudo que aconteceu era minha culpa. Por mais que algo dentro de mim quisesse ardentemente voltar no tempo e nunca ter visto aquela mensagem. Nunca ter ido embora daquele jeito. Nunca ter conhecido o único filho da puta que eu gostei o suficiente ao ponto de conseguir quebrar a droga do meu coração.
Estacionando o meu carro e seguindo em direção ao pub mais distante que eu encontrei, eu pude finalmente respirar. Eu estava longe o suficiente de quem eu era e do que me lembrasse tudo que aconteceu. Sentei-me em uma das cadeiras no fundo daquele estabelecimento e fiquei sozinha em meus pensamentos, que pouco a pouco eu conseguia os calar com as doses seguidas de martini.
O lugar aparentemente escuro e seguindo a mesma ordem decorativa das tabernas dos séculos passados me pareceu um lugar seguro. Havia pessoas de todas as idades e vestindo todos os tipos de roupas. Pessoas acompanhadas. Pessoas solitárias. Tudo ao fundo de uma música aparentemente alegre.
Eu continuava a observar todo lugar quando notei pares de olhos me encarando a uma distância considerável. Devolvi as olhadas e fixei os meus olhos naquela bela visão e ela parecia ser o meu próximo erro.
Ainda mantendo os olhos vidrados em sua direção, peguei o palito dentro do meu Martini onde duas azeitonas estavam espetadas e levei lentamente aos meus lábios, o puxando lentamente para dentro da minha boca. Ele entendeu o convite e caminhou em minha direção. Eu continuava irresistível então.
- Posso sentar aqui com você? – ouvi sua voz e logo em seguida o seu sotaque assim que ele ficou em minha frente.
E eu resolvi ser gentil ao menos uma vez na vida, até porque isso não teria consequência nenhuma.
- Como quiser. – Apontei para a cadeira em minha frente. – Ramón.