Duas semanas depois de arrancarem o câncer de mim, no aniversário dela, fui para casa e preparei sua refeição favorita. Era para ser nossa última ceia, um adeus final.
Ela chegou tarde da noite, bêbada, carregada nas costas daquele mesmo homem.
Eles usavam camisetas pretas combinando. A dele dizia: "Estou com ela". A dela: "Estou com ele".
Ela me viu e congelou. O riso morreu em sua garganta. Desesperada, ela desceu das costas dele, o rosto uma máscara de pânico e culpa.
Mas eu não senti nada. Nem raiva, nem ciúme. A parte de mim que podia sentir dor por ela havia sido arrancada na mesa de operação, junto com o tumor.
Eu a encarei nos olhos. "Acabou."
Então, saí da cobertura que um dia chamamos de lar, deixando-a sozinha no monumento ao nosso relacionamento fracassado. Desta vez, eu não voltaria.
Capítulo 1
Coloquei a carta de demissão sobre a mesa da gerente de RH. O papel era nítido e branco, um contraste gritante com a tempestade que se formava dentro de mim.
"Bruno? O que é isso?", Sara perguntou, com os olhos arregalados de surpresa. Ela pegou a carta como se pudesse queimar seus dedos.
Ela leu, sua expressão mudando de confusão para incredulidade. "Você está indo embora? Depois de todo esse tempo?"
Eu apenas assenti, com a garganta apertada demais para falar.
"Mas... Bruno, é o seu aniversário de dez anos com a Isabela na semana que vem. A empresa inteira sabe. Estávamos planejando uma surpresa."
Dez anos. As palavras pairavam no ar, pesadas e sem sentido. Uma década da minha vida, derramada nela, na empresa dela. Para nada.
Fiquei em silêncio, meu rosto uma máscara em branco. Eu não podia me dar ao luxo de demonstrar qualquer emoção. Se eu começasse, talvez não conseguisse parar.
Sara suspirou, vendo a determinação em meus olhos. Ela se levantou. "Preciso que a Isabela assine isso."
"Ela é a CEO", eu disse, com a voz vazia. "É o procedimento."
Ela saiu da sala e eu olhei pela janela para o horizonte de São Paulo. Esta era a vista do nosso novo escritório na cobertura, um símbolo do sucesso que eu ajudei a construir. O sucesso que me custou tudo.
Sara voltou alguns minutos depois, a carta agora com a assinatura floreada e arrogante de Isabela. Ela nem sequer se deu ao trabalho de olhar o que estava assinando.
"Ela nem perguntou o que era", disse Sara, em um sussurro. "Estava em uma ligação."
Claro que estava. Sempre ocupada, sempre importante.
"Bruno, você tem certeza disso? A InovaTech precisa de você. A Isabela... ela precisa de você. Você cuida de tudo. Sem você, este lugar vai desmoronar."
Uma dor surda começou no meu peito. Sara estava certa. Era eu quem lembrava do aniversário da mãe dela, quem lidava com as exigências intermináveis de sua família, quem garantia que o café dela estivesse exatamente como ela gostava. Eu era seu assistente executivo, seu namorado, sua sombra. O homem que fazia o mundo dela girar suavemente para que ela pudesse brilhar.
A dor se intensificou quando me lembrei do que encontrei na noite anterior. Tínhamos acabado de nos mudar para a cobertura, aquela que ela prometeu que seria nosso lar para sempre. Voltei de uma reunião tarde da noite e encontrei um relógio masculino na mesa de cabeceira. Não era meu. Era um Rolex, chamativo e caro, exatamente como os homens que ela sempre parecia encontrar.
Eu o peguei. Ainda estava quente. A traição foi algo físico, um soco no estômago que me deixou sem ar. Não era a primeira vez. Nem a décima. Mas desta vez, em nosso novo lar, aquele que deveria representar nosso futuro... desta vez foi diferente.
Eu não a confrontei. Não gritei. Simplesmente guardei o relógio no bolso, saí e passei a noite em um hotel, o silêncio do quarto gritando mais alto do que qualquer discussão jamais poderia. Dez anos. Eu havia lhe dado minha juventude, minha música, meus sonhos. Troquei meu violão por uma agenda, minhas canções por planilhas.
Na manhã seguinte, eu a vi. Disse a ela que estava deixando-a e a empresa.
Ela apenas riu, um som desdenhoso e tilintante que irritou meus nervos. "Bruno, não seja dramático. Você só está cansado."
Ela tocou meu braço, seu toque parecendo gelo. "Você nunca me deixaria. Você me ama demais."
Ela se afastou, confiante e segura de si, sem nunca olhar para trás. Ela não acreditou em mim. Achava que eu era um item permanente em sua vida, um móvel com o qual ela sempre poderia contar.
Foi quando eu soube que realmente tinha acabado.
Fui direto daquela conversa para o escritório e digitei minha demissão.
"Bruno?", a voz de Sara me trouxe de volta ao presente. "Você está bem?"
"Estou bem", eu disse, com a voz firme. "Por favor, encontre um substituto o mais rápido possível. Ajudarei na transição."
Virei-me e saí de sua sala, sem olhar para trás.
Mais tarde naquela noite, havia uma gala de tecnologia. Isabela, é claro, era a estrela do show. Ela me mandou uma mensagem.
Lavanderia. Meu vestido azul. Preciso dele até as 19h.
Sem "por favor". Sem "obrigado". Apenas uma ordem. Ela nem sabia que eu já tinha me demitido.
Eu não respondi. Liguei para sua nova assistente júnior e disse para ela cuidar disso. Então, dirigi até a lavanderia eu mesmo. Era um hábito, um reflexo gravado ao longo de cinco anos sendo seu cuidador pessoal.
Por cinco anos, eu fiz de tudo. Marquei seus compromissos, gerenciei sua agenda, até lidei com sua mãe esnobe, Diana, que nunca perdia a chance de me lembrar que eu não era bom o suficiente para sua filha. Fiz tudo isso porque pensei que estava facilitando a vida dela, ajudando-a a construir seu sonho.
Agora eu sabia que era apenas uma conveniência. Uma ferramenta que ela usava e descartava à vontade.
Deixei o vestido no escritório para a assistente júnior levar para ela. Eu não queria vê-la.
Mas fui à gala mesmo assim. Uma parte de mim precisava ver aquilo uma última vez.
Ela me disse para esperá-la do lado de fora, que era um evento de alto nível. Ela não queria que seu namorado-assistente atrapalhasse seu brilho.
Encontrei um canto tranquilo nos fundos, observando-a. Ela se movia pela multidão como uma rainha, charmosa e linda, uma taça de champanhe na mão. Estava conversando com um homem bonito, rindo, com a mão no braço dele. Era uma cena familiar, à qual eu já havia me tornado insensível.
Ela estava em seu elemento, o centro das atenções de todos.
Verifiquei meu relógio. Era hora.
Dei uma última olhada nela, a mulher que amei por uma década. A mulher que estilhaçou meu coração em um milhão de pedaços.
Então me levantei e saí da gala, o som de sua risada desaparecendo atrás de mim.
Eu já tinha esperado o suficiente. Era hora de partir para sempre.