Eu sabia que ela não voltaria para casa. Desta vez, não esperei. Voltei para a cobertura e metodicamente empacotei tudo o que era meu. Minhas roupas, meus livros, as poucas peças restantes da minha vida antiga.
Tirei as fotos de nós, os estranhos felizes e sorridentes de outra vida, e as queimei na lareira, observando as cinzas se enrolarem e virarem pó. Apaguei todos os vestígios da minha existência daquele apartamento. Depois de dez anos, tudo o que me restava cabia em três caixas de papelão.
Quando o sol começou a nascer, coloquei minha chave na pequena mesa perto da porta. Fechei a porta atrás de mim, o som ecoando a finalidade em meu coração. Um novo capítulo estava começando, e ela não estava nele.
Dirigi até o escritório para terminar minhas últimas tarefas. Isabela estava supostamente em uma viagem de negócios de última hora para o Japão. Ela me ligou do aeroporto.
"Bruno, estou de saída", ela disse, sua voz brilhante e alegre. "Pode garantir que a casa esteja abastecida? E eu encomendei alguns móveis novos para o quarto, uma surpresa para você. Chega amanhã. Certifique-se de estar lá para recebê-los."
Ela ainda estava jogando o jogo, fingindo que tudo estava bem.
"Claro", eu disse, minha voz monótona. Anotei o número da empresa de entrega.
Assim que ela desligou, eu liguei para eles. "Aqui é Bruno Johnson. Estou ligando sobre a entrega para Isabela Soares. Por favor, cancele e emita um reembolso total. Os itens não são mais necessários."
Enquanto isso, em uma sala VIP de primeira classe no aeroporto, Isabela desligou o telefone, um sorriso aliviado no rosto. Ela se virou para Caio, que estava sentado ao lado dela, bebendo champanhe. Eles não iam para o Japão. Estavam indo para um retiro de camping de luxo a uma hora da cidade.
No dia em que deixei oficialmente a InovaTech, a empresa estava em polvorosa. Isabela, de sua "viagem", havia fechado um negócio gigantesco. Ela organizou uma videochamada para toda a empresa para comemorar, uma tela enorme montada na sala de conferências principal.
Fui encurralado por meus colegas, forçado a participar da minha própria festa de despedida disfarçada de celebração corporativa.
O rosto de Isabela apareceu na tela, radiante de um quarto de hotel que supostamente ficava em Tóquio. Ela brindou ao seu sucesso, agradeceu à equipe e anunciou um bônus enorme para todos.
"E o Bruno distribuirá os pacotes de bônus!", ela anunciou alegremente.
Então, enquanto se movia para pegar algo fora da câmera, ela esbarrou no laptop. O ângulo mudou, a câmera mergulhou para mostrar a mesa à sua frente.
Estava coberta de fotografias. E bem no centro, em uma moldura de prata, havia uma foto dela e de Caio, seus rostos próximos, seus olhos cheios de um amor profundo e inconfundível.
A sala de conferências inteira ficou em silêncio.