Levantei-me lentamente, minhas pernas parecendo instáveis. Caminhei para a frente da sala.
"Como alguns de vocês sabem, hoje é meu último dia", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Eu me demiti da InovaTech."
Um murmúrio percorreu a multidão.
"Isabela e eu também nos separamos", continuei, as palavras com gosto de liberdade. "Como podem ver, ela encontrou sua própria felicidade. E estou ansioso para encontrar a minha."
Levantei meu copo de suco – eu ainda não podia beber. "Desejo a todos o melhor."
A sala explodiu em um coro de parabéns e despedidas confusos. O suco era doce, mas queimou minha garganta.
Horas depois, depois que a festa acabou, eu liguei para ela.
"Você vai voltar hoje à noite?", perguntei, minha voz desprovida de emoção.
"Não, ainda tenho algumas coisas para resolver aqui", ela disse, sua mentira tão fácil, tão praticada. "Já está com saudades?"
Esmaguei o cigarro apagado na minha mão e o joguei no lixo. "Só para saber."
Eu queria dizer adeus adequadamente, dar aos nossos dez anos pelo menos esse respeito. Mas ela estava muito ocupada com sua nova vida para me conceder isso.
Desliguei e fui ao escritório de RH para assinar meus papéis finais.
Quando eu estava saindo, a nova assistente me ligou, sua voz frenética. "Bruno, a Sra. Soares quer sua sobremesa favorita daquela pequena confeitaria no centro. Você poderia pegá-la para ela? Ela disse que está no novo local de glamping, o 'Refúgio da Serra'."
Eu congelei. O Refúgio da Serra ficava a vinte minutos do escritório. Ela não estava no Japão. Ela nunca tinha saído do país.
Uma determinação fria e sombria se instalou em mim. Eu precisava ver com meus próprios olhos.
Comprei o bolo e dirigi. O acampamento era idílico, com tendas de luxo e luzes de fada penduradas entre as árvores.
E lá estava ela. Sentada perto de uma fogueira crepitante com Caio. Uma faixa estava pendurada atrás deles: "Parabéns, I+C!" Eles estavam tendo sua própria celebração particular pelo negócio. Estavam rindo, suas cabeças juntas, seus rostos iluminados pelo brilho quente do fogo.
Fiquei nas sombras, observando-os. Um casal esbarrou em mim, me trazendo de volta à realidade.
Olhei para ela, para a mulher que tinha sido meu mundo inteiro, e sorri. Um sorriso real, cheio de dor e libertação.
"Adeus, Isabela", sussurrei.
Este adeus não era para ela. Era para mim. Para o garoto que desistiu de seu violão, para o homem que desistiu de sua alma. Era pelos dez anos que eu nunca poderia ter de volta.
Você não tem tantas décadas em uma vida. Eu não desperdiçaria mais um minuto.
Enquanto eu me afastava, um garçom entregou o bolo à mesa deles. Isabela viu o logotipo da confeitaria, a nossa confeitaria, e seu rosto ficou pálido. Ela sabia. Ela olhou freneticamente ao redor, seus olhos procurando na escuridão. Mas eu já tinha ido embora.
Dirigi de volta para a torre da InovaTech, meu coração um tambor oco. Assinei o último formulário, deletei minha pegada digital e me apaguei da empresa que ajudei a construir.
Entrei no elevador principal com minha última caixa de pertences, as portas se fechando na minha vida antiga.
No mesmo momento, do outro lado do saguão, Isabela entrou correndo, seu rosto uma máscara de pânico. Ela apertou o botão do elevador executivo.
Nossos dois elevadores se cruzaram no poço, um descendo, outro subindo.
E nunca mais nos cruzamos.