Encontrei o presente de aniversário que comprei para ela – uma palheta de guitarra personalizada, gravada com a data em que nos conhecemos. Segurei-a por um momento, depois a joguei na lata de lixo sem pensar duas vezes.
Exausto, caí no sofá e dormi.
Na manhã seguinte, fui acordado por batidas furiosas na porta. Cambaleei para abri-la, minha cabeça enevoada de sono.
Diana Soares, a mãe de Isabela, estava lá, com o rosto uma máscara de fúria.
"Onde está a Isabela?", ela gritou, passando por mim e entrando no apartamento. "Você não sabe que dia é hoje? Você deveria estar com ela! Que tipo de namorado você é."
Ela arrancou o cobertor de mim, seus olhos percorrendo minha camiseta simples e calça de moletom com desdém. "Olhe para você. Você é um desastre. Minha filha merece coisa melhor."
"Onde ela está?", Diana exigiu novamente, sua voz afiada.
"Eu não sei", eu disse, minha voz rouca de raiva. "E você não tem o direito de estar na minha casa. Saia."
"Eu saio quando eu quiser", ela zombou. "Vá se vestir. Você parece patético."
Eu conhecia o jogo dela. Ela adorava me humilhar. Fui para o banheiro e fechei a porta, o som ecoando no apartamento vazio.
Quando saí, vestido com jeans e uma camisa limpa, Isabela estava lá. Ela estava ao lado da mãe, parecendo cansada, mas linda, um leve traço do perfume de outro homem grudado em suas roupas.
"Mãe, para com isso", disse Isabela, com a voz cansada.
Diana mudou de tom imediatamente, sua voz se tornando chorosa. "Isabela, querida, você tem que falar com o Bruno. Meu sobrinho precisa entrar naquela escola particular, e o pai do Bruno é o único que pode fazer isso acontecer."
Ela se virou para mim, seus olhos gananciosos. "Bruno, você tem que nos ajudar. Somos família."
Olhei para ela, para suas roupas caras e unhas perfeitamente feitas. Por anos, ela me tratou como lixo, mas nunca hesitou em usar minhas conexões familiares quando lhe convinha.
Meu pai, o Coronel Matos, era um homem de imenso poder e influência. Ele também era um homem com quem eu não falava há anos.
Isabela estava prestes a falar, a me pedir para fazer a ligação. Eu já tinha feito isso por ela uma dúzia de vezes.
Mas desta vez, eu falei primeiro. "Não."
Minha voz era baixa, mas firme. "Eu sou apenas um músico pobre, lembra? Não sou bom o suficiente para sua família. Não posso te ajudar."
O rosto de Diana ficou vermelho. "Como você ousa! Depois de tudo que fizemos por você!"
Eu apenas a encarei, meu silêncio mais poderoso do que qualquer argumento.
Isabela interveio, puxando a mãe em direção à porta. "Mãe, já chega. Eu resolvo."
Depois que Diana saiu, batendo a porta atrás de si, Isabela se virou para mim. Ela tentou pegar minha mão, sua expressão suave e apologética.
"Desculpe por ela, Bruno. Você sabe como ela é."
Puxei minha mão, meus olhos captando uma leve marca vermelha em seu pescoço, logo abaixo da orelha. Um chupão. Meu estômago revirou.
"Onde você estava ontem à noite?", ela perguntou, sua voz um pouco casual demais.
"Isso importa?", eu disse, virando-me para longe dela.
"As pessoas mudam, Isabela."
Ela riu, um som confiante e conhecedor. "Você não, Bruno. Você nunca vai mudar."
Afastei a mão dela novamente, com mais força desta vez. "Eu tirei uma licença. Encontre outro assistente para fazer seus recados."
Passei por ela, pegando minhas chaves do balcão.
"Onde você vai?", ela gritou atrás de mim, um toque de irritação em sua voz.
Eu não respondi. Apenas saí pela porta, deixando-a sozinha no monumento ao nosso relacionamento fracassado. Ela provavelmente pensou que eu estava apenas fazendo birra, que voltaria para o jantar. Ela estava errada.
Uma hora depois, eu estava sentado em um escritório elegante e moderno do outro lado da cidade, apertando a mão do CEO de uma empresa de capital de risco rival.
"A oferta é generosa", eu disse, olhando para o contrato.
"Nós conhecemos o seu valor, Sr. Johnson", respondeu o CEO, um homem perspicaz chamado Mendes. "Isabela Soares pode ter construído a marca, mas você construiu o império. Queremos isso para nós."
Assinei o acordo sem hesitar. Um novo emprego. Uma nova vida.
Quando eu estava saindo, a assistente de Mendes, uma jovem simpática, caminhou comigo até o elevador.
"A Isabela vai enlouquecer quando descobrir", ela disse com um sorriso.
"Eu não me importo", eu disse, e pela primeira vez, percebi que era verdade.
Meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem de Isabela.
Onde você está? A assistente do Mendes acabou de postar uma foto com você. Você está me traindo, Bruno?
Outra vibração.
Depois de tudo que eu fiz por você? Como você pôde?
As acusações eram tão previsíveis, tão perfeitamente Isabela. Não me dei ao trabalho de responder.