Ela acreditou em mim. Simples assim. A arrogância era de tirar o fôlego. Ela não conseguia conceber um mundo onde eu realmente a deixaria.
Só tome cuidado, Bruno. Você ainda é meu namorado. Não faça nada para me envergonhar.
Soltei uma risada curta e amarga. Meu namorado. Um título que ela só parecia lembrar quando lhe convinha. Sua possessividade, seu descaso casual pela verdade – tudo era tão familiar. Ela estava tão acostumada à minha devoção que pensava que uma simples mentira poderia resolver qualquer coisa.
Uma semana depois, a InovaTech organizou um evento de lançamento para uma nova linha de produtos. Como parte da minha transição, eu ainda estava participando de grandes eventos. Perto da entrada, meus olhos foram atraídos por um carro-conceito em exibição, uma fera prateada e elegante com linhas agressivas.
Eu o reconheci instantaneamente. Na lateral, quase escondido, havia um pequeno logotipo estilizado de uma onda quebrando. Meu design. Eu o havia esboçado para ela anos atrás, em um guardanapo em uma lanchonete barata. Era um símbolo do nosso sonho compartilhado – poderoso, imparável, quebrando contra a costa.
Parei, meus pés grudados no chão. O carro era um fantasma de um passado do qual eu estava tentando escapar.
"Você gostou?", a voz de Isabela estava de repente ao meu lado. Ela havia surgido da multidão, seus olhos brilhando.
"Eu compro para você", ela disse, sua voz cheia de uma generosidade grandiosa. "Um presente de aniversário atrasado."
Ela mencionou nosso aniversário, aquele que deveríamos ter tido, como se nada tivesse acontecido. Como se ela não tivesse passado aquela noite com outra pessoa.
"Podemos personalizá-lo", ela continuou, alheia à turbulência dentro de mim. "Talvez mudar a cor. Não tenho certeza se gosto do prata."
Ela havia esquecido. Ela não se lembrava do guardanapo, da lanchonete, do significado por trás da onda. Era apenas mais um brinquedo caro para ela agora.
"Não, obrigado", eu disse, minha voz oca.
Ela acenou para o designer-chefe, um homem bonito com um sorriso encantador. Observei seus olhos se iluminarem quando ele se aproximou. Ele era exatamente o tipo dela – confiante, bem-sucedido, com um toque de perigo.
Eu conhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar que ela dera a uma dúzia de outros homens ao longo dos anos.
Ela imediatamente se envolveu em uma conversa com ele, perguntando sobre as especificações do motor, o design aerodinâmico. Ela estava fingindo interesse nos detalhes, mas eu sabia no que ela estava realmente interessada.
Baixei os olhos, a dor uma pulsação familiar e surda no meu peito. Lembrei-me de quando eu tinha dezoito anos, e ela me olhava com aquela mesma adoração. O amor dela parecia tão real então, tão abrangente. Agora, aos vinte e oito, era apenas uma performance, um eco oco do que já fomos.
Lembrei-me da primeira vez que encontrei uma mensagem no celular dela de outro homem. Ela jurou que era um mal-entendido, que eu era o único para ela. Eu acreditei nela. Fui a um bar, fiquei bêbado e me convenci de que o que tínhamos valia a pena lutar. Meus amigos a chamavam de "aproveitadora", "narcisista". Eu a defendi, dizendo que eles não entendiam nosso amor. Eu tinha sido um tolo.
"Bruno?", a voz de Isabela era afiada, impaciente. Ela havia se virado para mim, seu momento com o designer aparentemente terminado. "Você está me ouvindo?"
Olhei para ela e, pela primeira vez, não vi a garota por quem me apaixonei. Vi uma estranha, seus olhos cheios de uma irritação que ela não se preocupava em esconder. Meus anos de devoção, minha lealdade inabalável – tudo parecia tão ridículo agora.
"Sim, Sra. Soares", eu disse, minha voz fria e profissional. A mudança no tratamento a fez recuar.
"Vou para casa agora", ela disse, seu tom seco. Ela jogou o casaco e a bolsa para mim. "Não me espere."
Eu os peguei, um reflexo nascido de anos de serviço. Observei-a se afastar, sua atenção já se voltando para o designer. Eles começaram a andar juntos, rindo, e se afastaram.
Eu não fui para casa. Fui ao escritório para empacotar o resto dos meus arquivos pessoais. Depois, dirigi para meu novo e vazio apartamento.
Na manhã seguinte, havia uma reunião crítica do conselho. Isabela não estava lá.
Liguei para o celular dela. Tocou várias vezes antes que ela atendesse.
"Alô?", sua voz estava grossa de sono, rouca.
"Isabela, a reunião começa em trinta minutos."
Antes que ela pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo. A voz de um homem.
"Amor, quem é?", era Caio Rocha, o designer da noite anterior. Sua voz era íntima, possessiva.
O mundo ficou em silêncio.