Dei um passo para trás quando ela estendeu a mão para mim, seu toque de repente repulsivo. Minha voz era uma coisa baixa e fria. "Não."
Eu não senti nada. Nem raiva, nem ciúme. Apenas um vazio vasto e oco. A parte de mim que podia sentir dor por ela se foi, esculpida por uma década de traições. Quantas vezes ela trouxe homens para cá? Para a nossa cama?
"Vou dormir no escritório", eu disse, minha voz tremendo levemente, o único sinal da tempestade que rugia dentro de mim. "Eu fiz sopa para você. Está no fogão."
Virei-me e me afastei, sem lhe dar chance de responder. Fechei a porta do escritório atrás de mim, o clique da trava um som final e definitivo.
Ela não me seguiu. Ouvi-a sussurrando com Caio, depois a porta da frente se fechando. Caí no pequeno sofá, exausto demais para sentir qualquer coisa.
Em algum momento no meio da noite, a porta do escritório rangeu ao se abrir. Isabela entrou, envolvendo-me com os braços por trás.
"Bruno, me desculpe", ela sussurrou, sua voz carregada de uma culpa que parecia ensaiada. "Eu prometo, nunca mais vai acontecer."
Meu corpo estava rígido em seus braços. Eu não respondi.
"Eu comi a sopa", ela disse, tentando parecer alegre. "Estava deliciosa. Obrigada."
Eu apenas fechei os olhos. "Acabou, Isabela."
O aniversário dela havia passado. Nosso tempo tinha acabado.
Nos dias que se seguiram, ela se tornou grudenta, desesperada. Ela me seguia pelo apartamento, usava as roupas que eu gostava, sugeriu que fôssemos ao casamento de um amigo naquele fim de semana. Era tudo uma performance, uma tentativa frenética de voltar no tempo.
No casamento, ela insistiu que usássemos roupas combinando. Ela segurou minha mão, sorrindo para as câmeras, interpretando o papel da namorada dedicada.
"Vocês dois são perfeitos juntos", disse um velho amigo da faculdade, batendo nas minhas costas. "De namorados de colégio a casal poderoso. Quando é o grande dia?"
"Em breve", disse Isabela, radiante, apertando minha mão. "Estou planejando o casamento mais incrível."
Eu apenas sorri, um gesto oco e sem sentido.
Então, um alvoroço na entrada. Uma onda de sussurros percorreu a multidão.
Eu o vi. Caio Rocha. Ele era primo do noivo. O "grande amor do passado" de Isabela, aquele que ela supostamente nunca superou. O homem cuja foto ela usou como papel de parede do celular no primeiro ano em que estivemos juntos, alegando que era apenas um crush de celebridade.
Olhei para Isabela. Seus olhos estavam fixos nele, brilhando com uma intensidade que eu não via há anos. Ela havia esquecido que eu estava ali.
Durante a recepção, ela não me dirigiu uma palavra. Seu olhar seguia Caio por onde quer que ele fosse. Quando alguém lhe ofereceu uma taça de vinho, Caio interceptou suavemente, entregando-lhe um copo de suco de laranja. "Você sabe que não aguenta bebida", ele disse, sua voz um murmúrio baixo e íntimo.
Ela o olhou com pura adoração. O mesmo olhar que ela me deu uma vez, uma vida atrás.
Eu apenas fiquei lá, comendo minha comida metodicamente, o gosto da traição como cinzas na minha boca.
"Por que você não pegou isso para mim?", ela sibilou para mim mais tarde, seu bom humor azedado.
"Porque eu não posso beber", eu queria dizer. "Porque acabei de ter um tumor cancerígeno arrancado do meu corpo enquanto você dormia com ele."
Mas não disse nada.
Depois da recepção, enquanto esperávamos o motorista, ela checou o celular, um pequeno sorriso brincando em seus lábios.
"Bruno, eu... surgiu um imprevisto", ela disse, sem me olhar. "Vá para casa sem mim."
"Você está mentindo para mim de novo, Isabela?", perguntei, minha voz perigosamente baixa.
Ela recuou, seus olhos arregalados. Ela me agarrou, seus braços envolvendo-me em um abraço feroz e desesperado. "Não, claro que não. É uma emergência. Prometo, vou direto para casa depois."
Ela me soltou, e nesse exato momento, o carro de Caio parou. Ela nem hesitou. Entrou, acenando um adeus alegre enquanto eles partiam em alta velocidade.
Fiquei na calçada, observando as luzes traseiras desaparecerem.
"Não haverá uma próxima vez", sussurrei para a rua vazia.
Esta foi a última vez.