Lara Shert
Eu já não sei se quero socar uma parede ou socar o próprio Marlon. O silêncio dele é como uma tortura psicológica, um veneno que se espalha devagar pelas minhas veias. Quanto mais ele cala, mais sinto o fogo da raiva me consumir.
Eu estou de pé, no meio do quarto dele, ainda com a seda da camisola colada ao meu corpo, e aquele homem simplesmente me olha. Me olha como se fosse um estranho diante de mim. E, de certo modo, é.
- Fala, Marlon! Esbravejo, apontando para ele com o dedo trêmulo de fúria.
- Fala agora! Quem é ela? Amante? Ex-namorada? Uma lunática qualquer? Eu quero saber!
Ele respira fundo, lentamente, como se buscasse forças para se controlar. Levanta-se devagar, a postura ereta, firme, mas o olhar...
Ah, o olhar está carregado de algo que não consigo decifrar.
- Lara... não é o momento.
Aquilo é como jogar gasolina no fogo que já arde dentro de mim. Eu gargalho, sarcástica, amarga, cuspindo a revolta como veneno.
- Não é o momento?
Rio, com a voz ecoando pelo quarto.
- Você só pode estar brincando comigo! Quer dizer que eu devo fazer o quê? Voltar para o meu quarto como uma boa menininha, deitar na cama, dormir tranquila, sabendo que uma mulher entrou aqui, gritou na minha cara, e você... você mal abriu a boca para me defender?
Ele dá um passo em minha direção, mas ergo a mão no ar, ameaçadora.
- Não dê um passo! Aviso, os olhos faiscando.
- Não ouse se aproximar sem me dar uma resposta.
O olhar dele endurece, como aço.
- Lara...
- Não, Marlon!
Interrompo, cuspindo as palavras como se fossem facas.
- Eu não vou ser uma dessas esposinhas submissas que abaixam a cabeça, fingem que está tudo bem e esperam o marido chegar com o cheiro da outra no corpo. Eu não sou idiota! Eu sou filha de quem sou, fui criada para ser forte, e se alguém ousar tentar me passar para trás, eu arranco a máscara, destruo, e ainda faço questão de pisar nos cacos.
Meu peito sobe e desce com a fúria. Sinto minhas veias pulsando de tanta raiva. Não estou apenas com ódio daquela mulher. Estou com ódio dele. Porque o silêncio dele fala mais alto do que qualquer explicação.
Marlon avança de novo, mas desta vez com um passo lento, estudado, como se quisesse me acalmar. Só que os olhos dele... não tentam mais me acalmar. Não. Ele olha para mim como se fosse me devorar. O olhar desce pelo meu corpo, percorre cada curva marcada pela seda transparente, e eu percebo. Ele não disfarça. Está hipnotizado.
E eu gosto.
Uma onda de satisfação percorre o meu corpo. Se ele acha que vai me enlouquecer com o silêncio, eu posso enlouquecê-lo de outra forma. Eu sei exatamente como.
Sento na poltrona de frente para ele, cruzo as pernas devagar, deixando a camisola deslizar e revelar mais pele do que esconder. Faço questão de jogar os cabelos para o lado, expondo o pescoço. O olhar dele se escurece ainda mais, e quase posso ouvir sua respiração pesar.
Sorrio de canto.
- O que foi, Marlon? Perdeu a voz agora?
Ele não responde. Apenas me olha. E isso só me dá mais combustível. Levanto-me devagar, caminho até a janela e viro de costas para ele. Abro as cortinas e me inclino um pouco, empinando a bunda de propósito. A seda cola ao meu corpo, denunciando cada curva, cada detalhe.
- Lara... a voz dele soa rouca, quase um grito contido.
- Você está praticamente nua!
- E daí? Pergunto, sem me virar, minha voz carregada de desafio.
- Vai me mandar para o quarto?
Ele bufa, passando a mão pelos cabelos.
- Esse casamento foi um contrato. A voz dele sai grave, dura.
- Eu te respeito, mas também sou um homem. E se você continuar desse jeito... vai ter que colaborar.
Viro-me devagar, vitoriosa, com o sorriso mais provocante que já dei na vida. Caminho até ele, parada a poucos centímetros, olhando nos olhos dele sem piscar.
- Colaborar? Sussurro, com sarcasmo.
- É isso que você quer? Que eu colabore?
Ele abre a boca para responder, mas eu o calo com um gesto ousado. Lentamente, abaixo a mão até a barra da calcinha fio dental por baixo da camisola. Sem tirar os olhos dele, puxo a peça e a deslizo pelas pernas. Faço questão de abaixar devagar, como se cada segundo fosse um convite ao pecado.
A seda transparente deixa evidente que não uso mais nada por baixo. Seguro a calcinha nas mãos, levanto-a diante dele e sorrio, maliciosa.
Marlon arregala os olhos, o corpo inteiro dele fica tenso, como se estivesse em guerra com a própria vontade.
Dou um passo para trás, viro-me em direção à porta. Caminho lentamente, sentindo o peso do olhar dele queimando em cada centímetro do meu corpo. Paro na porta, olho por cima do ombro e jogo a calcinha nele.
- Boa noite, marido!
Minha voz sai baixa, aveludada, quase um cochicho, carregado de veneno agridoce.
E saio, deixando-o sozinho com o próprio desejo.
Mas enquanto caminho pelo corredor de volta ao meu quarto, uma pergunta lateja em minha mente, tão alta quanto o meu coração descompassado.
Até onde Marlon consegue manter esse silêncio antes que exploda... e me revele a verdade sobre aquela mulher?