Marlon Shert
O sol ainda não desponta por completo quando acordo. Os lençóis estão revirados, como se refletissem a batalha que travei dentro de mim durante toda a noite. Meus olhos pesam, meu corpo reclama do cansaço, mas a mente não descansa um segundo sequer. As lembranças chegam como uma maré violenta, o olhar de Lara, a calcinha jogada contra mim, a forma como sucumbi no banheiro ao desejo que jurava não sentir.
- Maldição... murmuro, sentado na beira da cama, esfregando o rosto com as mãos.
Sinto-me covarde. E, acima de tudo, traidor. Não por ter tocado nela de fato, mas porque minha mente, minha carne, minha vontade se renderam. James confiou em mim. Confiou a filha dele, seu maior tesouro, acreditando que eu seria muralha, não predador à espreita.
Levanto-me pesado, cada passo atravessa areia movediça. Vou ao banheiro, ligo a torneira, jogo água fria no rosto. A sensação gelada me traz ao presente, mas não apaga a vergonha estampada nos meus olhos.
Encaro-me no espelho e sinto repulsa por mim mesmo.
Decido sair cedo. Antes que ela acorde, antes de cruzar com ela nos corredores da casa. Visto-me apressado, camisa social escura, gravata mal ajustada, blazer sobre os ombros. Pego as chaves e saio sem café. O silêncio da mansão parece zombar de mim, mas é melhor assim. Preciso de distância.
O carro desliza pelas ruas úmidas da madrugada. O motor ronca, mas minha mente está presa no quarto, na noite anterior. Quando chego à empresa, o relógio mal marca sete horas. O prédio se ergue imponente, e por um instante agradeço o peso dos papéis, reuniões e números, tudo parece mais fácil que lidar com uma mulher vinte anos mais nova, que me desafia apenas com um olhar.
Estou instalado na minha sala quando a porta se abre de repente. Reconheço o passo firme, a presença forte de James. Amigo de longa data, irmão que a vida me deu. Sinto o estômago revirar.
- Você chegou cedo hoje, diz James, entrando sem cerimônia, como sempre.
Forço um sorriso, tentando disfarçar o desconforto.
- Trabalho acumulado, respondo, voz mais grave do que pretendia.
- Melhor começar o dia cedo.
James assente, mas seus olhos atentos não deixam escapar nada. Sentado à minha frente, braços cruzados, encara-me com seriedade que mistura confiança e autoridade.
- Preciso falar com você sobre algo importante, diz sem rodeios.
- Sobre a Lara.
O coração dispara, como se fosse pego em flagrante. Engulo em seco, tentando manter a expressão neutra.
- O que houve? Pergunto, voz mais baixa do que quero.
James se inclina, apoia os braços sobre a mesa.
- Você sabe tão bem quanto eu que, se aquela víbora da Danuza se aproximar da minha filha, será a terceira guerra mundial.
O nome soa como soco. Danuza. Passado que ainda ronda, ameaçador, como sombra que não desaparece. Desvio o olhar, passo a mão pelos cabelos, gesto automático quando não quero revelar o que sinto.
- Sei, respondo rapidamente.
- Confie em mim, não permitirei que isso aconteça.
James assente com firmeza, mas continua:
- Preciso que entenda uma coisa, Marlon. Lara não é mais aquela garotinha que conheceu. Não é mais a menina que se escondia atrás das saias da Joana ou ria correndo pelo jardim. Minha filha é mulher agora. Forte, temperamental e intensa.
Cada palavra martela na minha mente. Ergo os olhos e encontro os do amigo. Sinto o peso da confiança que deposita em mim, transformando-se em culpa.
"Ah, se eu sei, meu amigo", penso em silêncio, lábios comprimidos. "Se eu sei..."
Porque eu vi. Senti. A força dela em cada provocação, o temperamento ardente em cada palavra, a intensidade em cada gesto. E, pior, sucumbi a tudo na solidão da própria fraqueza.
- Você é o único em quem confio para protegê-la, conclui James, voz grave. - Sabe bem o motivo desse casamento ter acontecido tão rápido.
Assinto, incapaz de dizer mais. Passo a mão pelos cabelos de novo, tentando esconder o peso da culpa. Se ele pudesse ler minha mente agora, talvez me matasse aqui mesmo.
O dia segue arrastado.
Reuniões, documentos, ligações, tudo se dissolve em névoa pesada. Cada vez que o nome de Lara surge, tento focar em números, contratos, qualquer coisa que não seja a lembrança da noite anterior. Mas é inútil. Ela está impregnada em mim.
Quando o expediente termina, o céu já se tinge de tons alaranjados. Sei que devo voltar, enfrentar minha consciência e a presença dela. Mas meu coração acelera só de imaginar cruzar com Lara no corredor, sentir seu perfume, ouvir o tom de voz carregado de desafio. Não estou pronto, não ainda.
Pego o carro e sigo por outra rota, deixando a mansão para depois. As luzes da cidade brilham quando estaciono diante de um pub discreto, lugar que oferece sombras e esquecimento temporário.
Entro sem olhar para os lados, caminho até o balcão e peço um uísque duplo, sem gelo. O líquido âmbar queima a garganta, mas não apaga o fogo que arde dentro. Peço outro. E outro.
Sentado ali, rodeado por vozes anônimas, cheiro de bebida e fumaça, afundo na própria vergonha. Cada gole tenta calar a lembrança, silenciar a voz que ecoa dentro de mim.
- Ela é minha esposa, repito mentalmente, como mantra. - Meu dever é protegê-la. Nada além disso.
Mas o coração, traiçoeiro, responde em descompasso. Sei que estou apenas adiando o inevitável.
Naquela noite, o pub é meu refúgio, o copo, meu confessionário. A culpa é minha única companhia fiel.
- Droga... não posso fugir para sempre.
Levanto, tiro a carteira do paletó, deposito umas notas sobre a mesa e saio. Sei que não será fácil lidar com Lara, mas preciso me manter forte mais uma vez.