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Sempre foi Você
img img Sempre foi Você img Capítulo 1 Prólogo – A Flor e a Lâmina
1 Capítulo
Capítulo 6 A Marca Que Nunca Irá Sumir img
Capítulo 7 O Lugar Onde Nada é Silencioso img
Capítulo 8 Onde a Sombra Aprende a Andar à Luz img
Capítulo 9 Entre a Máscara e o Sangue img
Capítulo 10 A Sombra que Sempre Esperei img
Capítulo 11 A Sombra que Me Encontrou img
Capítulo 12 Do Outro Lado da Porta img
Capítulo 13 O Homem Que Não Podia Desejar img
Capítulo 14 A Manhã em que Quase Fui Normal img
Capítulo 15 O Homem do Corredor img
Capítulo 16 O Vizinho Que Sorriu Primeiro img
Capítulo 17 Linhas que Não Devem Ser Cruzadas img
Capítulo 18 O Ponto Fraco img
Capítulo 19 O Que Ela Nunca Deve Ver img
Capítulo 20 A Confissão Que Não Deveria Ser Feita img
Capítulo 21 Quando o Corpo Reconhece Antes da Razão img
Capítulo 22 O Homem Que Não Está Aqui Para Ensinar img
Capítulo 23 Entre o Anjo e a Sombra img
Capítulo 24 O Primeiro Olhar img
Capítulo 25 Antes da Colisão img
Capítulo 26 Os Olhos Que Eu Nunca Esqueci img
Capítulo 27 O Controle Entre as Palavras img
Capítulo 28 O Peso de Ser Observada img
Capítulo 29 O nome que me Incomoda img
Capítulo 30 Disciplina é Sobrevivência img
Capítulo 31 O Limite do Controle img
Capítulo 32 O Nome Que Me Desarmou img
Capítulo 33 O Limite Que Não Foi Pedido img
Capítulo 34 O Homem Que Não Pode Avançar img
Capítulo 35 O Que Minha Razão Não Consegue Nomear img
Capítulo 36 O Nome Que Quase Foi Dito img
Capítulo 37 O Peso do Nome Que Não Se Pronuncia img
Capítulo 38 A Lâmina Que Escolheu Amar img
Capítulo 39 A Pergunta Que Não Deveria Ser Feita img
Capítulo 40 A Lealdade Que Me Aprisiona img
Capítulo 41 Onde o Corpo Aprende a Trair img
Capítulo 42 O Que Não Se Pode Ignorar img
Capítulo 43 Quando o Olhar Ganha Voz img
Capítulo 44 A Arma Que Não Foi Feita Para Sentir img
Capítulo 45 O Peso do Desejo Vivo img
Capítulo 46 O Corpo que Não Obedece img
Capítulo 47 O Desejo que Não Aceita Trocas img
Capítulo 48 O Corpo Que Trai img
Capítulo 49 A Promessa Que Fere img
Capítulo 50 Entre Confissões e Desejos img
Capítulo 51 O Desejo que Não se Diz em Voz Alta img
Capítulo 52 A Forma Como Homens Medem Território img
Capítulo 53 Antes Que a Luz Dissesse Não img
Capítulo 54 Entre o desejo e a culpa, nasce a verdade. img
Capítulo 55 Coisas que o Corpo Conta Antes da Mente img
Capítulo 56 Onde a Vergonha Aprende o Idioma da Raiva img
Capítulo 57 Quando o Olhar Fala por Mim img
Capítulo 58 O Tipo de Jogo que Irrita o Predador img
Capítulo 59 Onde o Proibido Aprende a Falar em Voz Alta img
Capítulo 60 Onde a Liberdade Vem com Sobrenome img
Capítulo 61 Sombras Não Decidem img
Capítulo 62 O Ronin Não Pede Permissão img
Capítulo 63 Não Há Ordem Para um Ronin img
Capítulo 64 O Ceifador Não Caminha em Vão img
Capítulo 65 Quando o Nome Dela Acorda o Demônio img
Capítulo 66 Antes de Ser Vista img
Capítulo 67 O Risco Que Eu Escolhi img
Capítulo 68 Aquilo Que Nem o Sangue Resolve img
Capítulo 69 Antes Que a Noite Escolha img
Capítulo 70 Onde o Olhar Antecede o Ataque img
Capítulo 71 O Momento Antes do Erro img
Capítulo 72 O Erro Que Aprendeu a Esperar img
Capítulo 73 Onde a Humanidade se Torna Fraqueza img
Capítulo 74 O Idioma Que Apenas o Medo Entende img
Capítulo 75 O Que Meu Corpo Lembrou Primeiro img
Capítulo 76 Onde a Certeza Começa a Doer img
Capítulo 77 Comprovando... img
Capítulo 78 Onde o Silêncio Aprende a Sangrar img
Capítulo 79 Onde o Desejo Aprende a Falar Alto img
Capítulo 80 Decisões img
Capítulo 81 Onde o Destino Já Escolheu img
Capítulo 82 Onde o Corpo Aprende a Lembrar img
Capítulo 83 Onde o Predador Reconhece o Território img
Capítulo 84 Onde o Predador Escolhe o Que é Seu img
Capítulo 85 Onde o Corpo Se Recusa a Esquecer img
Capítulo 86 Onde o Coração Não Reconhece Fronteiras img
Capítulo 87 O Nome Que Desarma o Ceifador img
Capítulo 88 Verdade ou Cerveja img
Capítulo 89 Onde a Cerveja Aprende a Mentir img
Capítulo 90 Onde o Olhar Deixa de Ser Inocente img
Capítulo 91 Onde o Prazer Não Resolve img
Capítulo 92 Onde o Corpo Denuncia img
Capítulo 93 Onde o Desejo Aprende a Falar Alto img
Capítulo 94 A Decisão Substitui o Instinto img
Capítulo 95 Onde o Sangue Volta a Chamar img
Capítulo 96 Onde a Sombra Vem de Dentro img
Capítulo 97 O Preço de estar Sozinha img
Capítulo 98 Os Fantasmas saem a Luz img
Capítulo 99 A Verdadeira Face da Morte img
Capítulo 100 O Passado Me Alcança img
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Sempre foi Você

Autor: Krys Torres
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Capítulo 1 Prólogo – A Flor e a Lâmina

O Ceifador

O templo diante de mim não era feito apenas de pedra, pois carregava em cada coluna antiga o peso de séculos de silêncio, de sangue e de segredos que jamais seriam ditos em voz alta, enquanto o céu cinzento pairava sobre nós como um presságio inevitável de que nada do que começasse ali sairia ileso.

Kenshi Takayama e Hanna Takayama.

Os nomes ecoavam dentro de mim com a precisão fria de uma lâmina sendo puxada lentamente da bainha, despertando não apenas lembranças, mas tudo aquilo que eu havia me tornado por causa deles.

Meu mestre e minha quase mãe.

As duas pessoas que encontraram um garoto quebrado, vazio e sem propósito, e decidiram moldá-lo, não em um homem, mas em algo útil, algo funcional, algo que pudesse servir.

Agora, tudo o que restava deles eram urnas.

Cinzas repousando sobre seda vermelha, como se a honra pudesse ser preservada mesmo depois de reduzida a pó, e ainda assim, apesar do cenário que exigia luto, meu peito permanecia rígido, incapaz de ceder ao que seria esperado de qualquer outro.

Eu deveria chorar, porque um homem comum choraria, um filho se permitiria desabar diante da perda, mas eu havia deixado de ser qualquer uma dessas coisas no dia em que encontrei os corpos dos meus pais abandonados em uma viela escura, mutilados de uma forma que o mundo nunca deveria permitir, enquanto o cheiro metálico do sangue se impregnava na minha garganta e o medo se tornava algo físico, quase palpável.

E foi naquele mesmo dia que deixei de ser filho, porque quando Kenshi me encontrou, ele não enxergou uma criança ferida, nem um menino que precisava ser salvo, mas sim uma ferramenta em potencial, algo que poderia ser lapidado, endurecido e, acima de tudo, utilizado.

Ele me deu abrigo, alimento, disciplina e propósito, mas em troca, arrancou de mim qualquer traço de fragilidade que pudesse comprometer aquilo que ele estava construindo.

E, inevitavelmente, o coração entrou nessa conta.

A voz do general ecoou pelo pátio com uma firmeza que não permitia interrupções, cortando o ar como uma sentença irrevogável, enquanto ele proclamava que aqueles nomes deveriam ser lembrados com honra, e suas palavras atravessavam o espaço não como consolo, mas como decretos que precisavam ser aceitos sem questionamento.

Ao redor, os anciãos permaneciam ajoelhados, os jovens guerreiros alinhados em silêncio absoluto, com os punhos cerrados e os olhos baixos, porque naquele lugar a dor não era demonstrada, ela era contida, transformada em disciplina, convertida em juramento.

Ninguém chorava, ninguém tremia, ninguém ousava perder o controle, porque naquela família a fraqueza não era tolerada, e quem desabava não era acolhido, era enterrado junto.

Eu permaneci imóvel entre eles, com a yukata negra absorvendo a pouca luz que insistia em atravessar aquele ambiente pesado, sem qualquer símbolo bordado no tecido, sem brasão que me identificasse, porque eu não precisava disso.

Meu reconhecimento não vinha de insígnias, mas do silêncio que me cercava, da ausência de necessidade de afirmação, porque quando alguém não precisa exibir poder, geralmente é porque já aprendeu a dominar tudo ao redor.

E, ainda assim, havia uma ironia silenciosa nisso, pois eu não dominava absolutamente nada, apenas havia aprendido a parecer como alguém que dominava.

Meus cabelos loiros, destoando completamente daquele mundo, estavam presos com precisão em um coque firme, lembrando-me constantemente de que eu não pertencia àquele lugar, nem pelo sangue, nem pela cultura, nem pela história, e mesmo assim, de alguma forma cruel, minhas raízes ali se tornaram mais profundas do que as de muitos que nasceram dentro daquele clã.

O som do sino de bronze rompeu o silêncio com uma lentidão quase ritualística, pesado e definitivo, reverberando nas pedras, nos corpos e, principalmente, na mente, como se cada badalada estivesse selando mais um fragmento do destino que eu jamais escolhi.

O general ergueu os olhos em direção às urnas e declarou, com a mesma autoridade imutável, que aquela linhagem jamais deveria ser apagada, e que a herdeira deveria ser protegida, custasse o que custasse.

A escolha de palavras não passou despercebida.

Porque enquanto todos ao redor assentiam em aceitação silenciosa, curvando a cabeça em respeito e submissão àquela ordem, eu permanecia imóvel, não por discordar, mas porque compreendia algo que não precisava ser dito.

Eu já era o custo.

Se Kenshi exigisse sangue, era o meu que corria.

Se precisasse de silêncio, era em mim que os segredos eram enterrados.

Se quisesse vingança, era o meu nome que surgia nos sussurros.

O Ceifador.

Um título que não me foi dado gratuitamente, mas conquistado a cada corpo deixado para trás, a cada missão cumprida sem hesitação, a cada parte de mim que precisei abandonar para me tornar aquilo que esperavam.

Por isso, quando se falou em proteger a herdeira, ninguém precisou olhar na minha direção, porque todos sabiam exatamente qual seria o preço daquela promessa.

Foi então que algo mudou.

Não de forma brusca, mas sutil o suficiente para ser percebido apenas por quem estava acostumado a sobreviver em silêncio, como se o próprio ar tivesse se deslocado, como se uma linha invisível tivesse sido puxada dentro daquele espaço.

E então vieram os passos. Leves, controlados, determinados de uma forma que não combinava com alguém tão pequeno.

Eu não precisei olhar.

Eu já sabia.

Yuna.

A última Takayama.

Ela surgiu do fundo do templo, onde antes permanecia ajoelhada sobre um tatame branco, e caminhava agora com uma calma que não era natural para uma criança, vestida em um quimono branco que parecia grande demais para seu corpo, com as mangas longas quase tocando o chão, criando a imagem de algo puro demais atravessando um ambiente que jamais permitiria pureza.

Seus cabelos negros caíam pelos ombros como tinta viva, adornados com pequenas flores delicadas, e seus olhos - azuis - carregavam uma estranheza que não pertencia àquele clã, uma herança silenciosa de escolhas que nunca deveriam ter sido feitas.

Ainda assim, havia algo mais profundo ali.

Algo antigo.

Algo consciente demais.

Ela caminhou pelo corredor de pedras sem hesitar, ignorando os olhares que a seguiam, sem buscar aprovação, sem demonstrar medo, como se já tivesse aceitado tudo aquilo que ninguém deveria aceitar.

Eu permaneci imóvel.

Um Ceifador não recua. Mas quando seus dedos tocaram o tecido escuro da minha roupa, algo dentro de mim se quebrou de uma forma inesperada.

Não foi dor.

Não foi medo.

Foi algo muito pior.

Foi vida.

Ela ergueu uma pequena flor branca em minha direção, e quando nossos olhares se encontraram, senti pela primeira vez em muito tempo algo que não sabia nomear.

- Para quando o silêncio ficar pesado - disse ela, com uma voz suave que contrastava de forma quase cruel com o peso que carregava.

Na outra mão, ela revelou um doce de arroz.

- E isso... para quando o coração doer.

Por um breve instante, minha estrutura interna falhou, porque eu deveria permanecer distante, intocável, inabalável, mas aquela pequena rachadura que surgiu foi suficiente para se tornar perigosa.

E então, contra tudo o que eu havia sido treinado para ser, eu me ajoelhei.

Os murmúrios ao redor foram contidos, não por respeito, mas por incredulidade, porque aquela não era uma cena que deveria existir.

O Ceifador não se curva.

Mas ali estava eu diante dela. Não como guarda, nem como subordinado. Mas como algo que ainda não tinha nome.

Peguei a flor primeiro, depois o doce, com um cuidado que jamais tive ao empunhar uma arma, enquanto ela me observava com uma serenidade que não era inocência, mas aceitação.

- Eu sei quem você é - ela disse.

Minha resposta saiu baixa, áspera, carregada de tudo o que eu era.

- Sabe?

Ela sorriu de forma triste, como alguém que já havia entendido demais.

- Mamãe dizia que quando o mundo ficasse escuro... o Ceifador viria nos proteger.

Naquele momento, compreendi que Hanna sempre soube o que Kenshi havia criado em mim, e ainda assim, decidiu confiar.

E antes que qualquer pensamento pudesse me impedir, Yuna deu um passo à frente e me abraçou.

Pequena, frágil, viva.

E eu, que fui treinado para destruir, simplesmente aceitei.

Minhas mãos repousaram nas costas dela de um jeito que nunca haviam repousado em ninguém, firmes, protetoras, quase gentis, como se algo dentro de mim tivesse sido despertado sem permissão.

- Eu não quero ficar sozinha... - ela sussurrou.

Aquelas palavras não foram um pedido.

Foram uma marca.

Eu fechei os olhos, plenamente consciente de que promessas naquele lugar não eram feitas com palavras, mas com sangue.

E, ainda assim, respondi:

- Você não vai ficar.

Não era consolo.

Era um vínculo.

Ela se afastou devagar, e antes de dar mais alguns passos, voltou a me olhar.

- Posso te chamar de anjo?

Por um instante, quase me permiti sentir algo que não cabia em mim. Mas apenas respondi:

- Pode... princesa.

Ela sorriu e se afastou, enquanto eu permanecia de joelhos, segurando uma flor em uma mão e algo muito mais perigoso na outra.

Foi naquele instante que compreendi, com uma clareza brutal, que eu havia sido criado para servir, para matar e para obedecer sem questionar, moldado para ser lâmina quando necessário e sombra quando conveniente.

Mas, a partir daquele momento... viver passou a ter um nome.

Yuna.

E junto com essa verdade veio outra, ainda mais cruel.

O amor que nasce em um funeral não é uma bênção. É uma sentença.

Porque um dia, para cumprir a promessa feita ali, eu teria que quebrar tudo o que fui ensinado a proteger, tudo o que me construiu, tudo o que me define.

E quando esse dia chegasse... eu não estaria em guerra com o mundo.

Estaria em guerra comigo mesmo.

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