A resposta era simples: porque ele parou de olhar para mim há muito tempo.
Vesti um vestido preto. Apliquei maquiagem para esconder o tom amarelado da minha pele. Eu tinha coisas a fazer.
Saí pela porta lateral. Os guardas me deixaram passar; eles não se importavam para onde a esposa estéril ia, desde que eu não estivesse no caminho.
Fui a um estúdio de fotografia no centro. Eu precisava de um retrato. Uma imagem final para o funeral, para que as pessoas se lembrassem de Helena, não do fantasma em que eu me tornara.
O fotógrafo foi gentil. Ele me disse para sorrir. Eu tentei, mas a expressão não chegou aos meus olhos.
Enquanto eu pegava as provas uma hora depois, o sino acima da porta tocou.
Dante entrou. Ele segurava a mão de Lorena.
Eles congelaram. Eu congelei.
De todos os lugares da cidade, o destino tinha que escolher este, pensei amargamente.
- Você está nos seguindo? - Dante perguntou. Sua voz era baixa, perigosa. - Estamos aqui para um ensaio de maternidade.
Apertei o envelope grande contra o peito. - Não. Estou de saída.
Lorena deu um passo à frente. Ela parecia radiante. Grávida. Vitoriosa. Ela viu o logotipo no meu envelope.
- Fotos de modelo, Helena? - Ela riu. - Meio tarde para mudar de carreira, não acha? Você parece... cansada.
Ela estendeu a mão e arrancou o envelope antes que eu pudesse reagir.
- Devolva - eu disse, o pânico subindo na minha garganta.
Dante se interpôs entre nós, me bloqueando. - O que é isso? Evidência? Você está nos documentando?
Ele agarrou meu pulso. Seu aperto era de ferro. Doeu.
- Mostre-me - ele exigiu.
Lorena rasgou o envelope. Ela tirou a foto 20x25.
Era em preto e branco. Eu, em um vestido preto, parecendo serena e final. Era inconfundivelmente um retrato memorial.
O sorriso de Lorena vacilou por um segundo, depois se torceu em algo cruel.
- Oh, meu Deus - ela disse, fingindo choque. - Isso é uma ameaça de suicídio? Dante, olhe. Ela está planejando algo para arruinar a chegada do bebê. Ela quer atenção.
Dante olhou para a foto, depois para mim. Ele parecia perturbado, até assombrado, mas rapidamente mascarou isso com raiva.
- É essa a sua chantagem? - ele perguntou. - Você ameaça se matar? Acha que isso vai me fazer voltar?
Arranquei a foto de volta. A moldura se estilhaçou no chão. Vidro se espalhou por toda parte.
- Eu só quero ver você se arrepender disso - sussurrei.
Dante zombou. Ele chutou um pedaço da moldura quebrada para longe.
- Se quer morrer, Helena, então morra. Pare de ameaçar. É patético.
Ele me deu as costas. - Venha, Lorena. Vamos encontrar outro estúdio. Este aqui cheira a desespero.
Eu os vi sair. Minhas pernas cederam. Caí no chão, em meio ao vidro quebrado e ao rosto em preto e branco de uma mulher que já se fora.
Uma estranha, uma mulher esperando por suas fotos de passaporte, correu para me ajudar.
- Ele não te ama mais, querida - ela sussurrou, me ajudando a levantar.
Eu a empurrei. Não precisava de uma estranha para me dar a notícia.
Saí para a rua. Estava chovendo. Não abri meu guarda-chuva. Apenas andei.
Tirei dois analgésicos da minha bolsa e os engoli secos.
Dante costumava implorar para que eu tomasse uma aspirina quando tinha dor de cabeça. Ele costumava beijar minha testa e me trazer água.
Agora ele me mandava apressar e morrer.