Eu havia enviado dois pacotes. Um foi para Júlia, contendo a escritura da minha pequena conta poupança e meu testamento final. O outro foi para Dante, contendo os papéis do divórcio que eu havia assinado com uma mão notavelmente firme.
Voltei para o carro. Minhas pernas pareciam pesadas, arrastando-se como se puxadas por pesos de chumbo. A explosão de energia - aquela lucidez terminal sobre a qual os médicos sempre sussurravam - estava desaparecendo rápido.
Meu celular vibrou contra meu quadril.
Era Lorena. Claro que era.
Ela havia enviado uma foto. Era um close íntimo de Dante dormindo. Seu rosto estava relaxado, sua guarda completamente baixa.
A legenda dizia: "Ele sonha com nosso filho. Com o que você sonha, Helena?"
Olhei para a tela. Não senti a familiar pontada de ciúme. Não senti a vontade de gritar. Apenas senti um esgotamento avassalador.
Apaguei a conversa.
Dirigi de volta para a mansão. Os portões de ferro forjado se abriram automaticamente, reconhecendo o carro de um fantasma.
Saí para o jardim. Estava frio demais para estar do lado de fora, mas a casa parecia um túmulo. Sentei-me no banco de pedra frio onde Dante uma vez me pediu em casamento.
Peguei da minha bolsa o velho diário de couro que encontrei enquanto limpava o closet.
As páginas estavam amareladas com o tempo. A caligrafia no início era floreada e animada.
Anotação 1: Conheci um garoto hoje. Ele tem sangue nos nós dos dedos e tristeza nos olhos. Acho que o amo.
Folheei os anos. As anotações se tornaram mais curtas, mais afiadas. A tinta ficou mais escura.
Anotação 400: Ele não veio para casa de novo.
Anotação 650: Estou sozinha em uma casa cheia de gente.
Peguei uma caneta do meu bolso. Minha mão tremia agora. A dor no meu abdômen era uma besta gritando, me rasgando por dentro.
Escrevi uma última linha.
Estou com dor. Quero ir. Eu queria nunca ter conhecido Dante Costello.
Fechei o livro.
O sol estava se pondo, pintando o céu com hematomas de roxo e vermelho.
Tirei o frasco de morfina do meu bolso. Não me preocupei em contar os comprimidos. Apenas os engoli. Todos eles.
Deitei-me no banco de pedra congelante.
Lentamente, a dor começou a recuar. Foi substituída por um cobertor quente e felpudo de nada.
Meus olhos ficaram pesados.
Vi uma figura caminhando em minha direção pelo jardim. Ele usava uma jaqueta de couro que era dois tamanhos maior. Ele tinha um lábio cortado e um sorriso tímido e juvenil.
Era Dante. Mas não o Chefe. Não o monstro.
Era o garoto do conjugado. O garoto que me prometeu a lua.
- Helena - ele disse, estendendo a mão. - Vamos para casa.
Eu sorri.
Peguei sua mão.
E então, só havia o branco.