Ponto de Vista de Dante Moretti
Eu devo ter quebrado todos os limites de velocidade do estado de São Paulo.
Meu SUV blindado subiu rasgando a entrada da propriedade. A impaciência me corroía; não esperei o portão abrir completamente, raspando a pintura do veículo nas barras de ferro com um rangido doentio.
Bati a alavanca de câmbio em "estacionar" e corri para a porta da frente.
"Helena!", gritei.
O hall de entrada ecoou meu desespero de volta para mim. Estava vazio.
"Helena!"
Silêncio.
Corri escada acima, subindo de dois em dois degraus.
Entrei de rompante no quarto principal.
Estava frio. A janela estava aberta, convidando o ar úmido para dentro.
O cheiro acre de fumaça me atingiu.
Meu olhar se fixou na lareira. Lá, em meio às brasas, jaziam as cinzas de uma pintura e os restos carbonizados de um livro.
Olhei para a cama. Estava feita. Perfeitamente lisa. Como se ninguém jamais tivesse dormido ali.
Então olhei para a mesa de cabeceira.
Estava lá.
O anel de platina.
Caminhei até ele, minhas pernas parecendo chumbo.
Eu o peguei. Estava gelado.
Ela nunca o tirava. Nem para tomar banho. Nem para dormir.
"Ela se foi, Dante", disse uma voz.
Minha mãe estava no quarto atrás de mim. Ela deve ter me seguido.
Virei-me para ela. "Para onde? Para onde ela foi?"
Minha mãe simplesmente balançou a cabeça. Ela me entregou uma caixa de veludo.
Eu a abri.
As Esmeraldas Moretti. O colar destinado à Rainha da família.
"Você demorou demais para dar isso a ela", disse minha mãe suavemente.
Peguei meu celular e disquei para Helena.
*O número para o qual você ligou não está mais em serviço.*
Encarei a tela.
Desconectado.
"Giovanni!", rugi.
O mordomo apareceu na porta instantaneamente. Ele parecia pálido.
"Onde ela está?", exigi. "Rastreie o carro dela. Rastreie o celular dela."
"O sinal dela está morto, Senhor", disse Giovanni, sua voz tremendo. "Os cartões de crédito dela estão inativos. Ela... ela pegou o dinheiro do cofre."
Joguei o celular contra a parede. Ele se estilhaçou em fragmentos de plástico.
"Fechem Guarulhos", ordenei. "Fechem Congonhas. Ninguém sai desta cidade."
"Já se passaram duas horas, Senhor", sussurrou Giovanni. "Ela pode estar em qualquer lugar."
Olhei para o anel em minha mão. Apertei-o até o metal cravar em minha palma.
"Ela não pode ir embora. Ela me pertence."
"Vou queimar esta cidade para encontrá-la", jurei.
Minha mãe olhou para além de mim, em direção às cinzas na lareira.
"Você já queimou sua casa, meu filho. Agora você está apenas de pé na fuligem."
Eu a ignorei. Peguei um celular novo da gaveta.
Disquei para Luca.
"Encontre-a", rosnei. "Encontre-a, ou eu matarei todos que a ajudaram."
Caminhei até a janela. A chuva havia parado. O mundo estava lavado de cinza.
Ela se foi.
E pela primeira vez na minha vida, eu estava com medo.