Movi-me com eficiência fria. Não embalei roupas. Não embalei joias. Embalei apenas o essencial - as coisas que eram minhas antes de me tornar um fantasma nesta casa.
Meu celular vibrou novamente.
Uma mensagem do número de Dante.
Abri e encontrei um vídeo.
Dante estava dormindo em uma cadeira de hospital, a cabeça inclinada para trás, a boca ligeiramente aberta de exaustão.
A legenda abaixo dizia: *Ele dorme tão pacificamente quando sabe que estou segura.*
Sofia havia enviado. Ela estava com o celular dele.
A raiva deveria ter me queimado viva, mas não senti nada. Eu estava esvaziada, uma concha movendo-se no piloto automático.
Caminhei até a lareira. Acima do manto pendia nosso retrato de casamento. Tinha quase dois metros de altura - uma pintura a óleo de uma bela mentira.
Agarrei a moldura pesada. Puxei.
Com um estrondo ensurdecedor, ela caiu no chão, a tela rasgando sob a tensão.
Eu não parei. Pegando o pesado abridor de cartas de latão da escrivaninha, cravei-o na tela. Rasguei o rosto dele. Depois rasguei o meu.
Arranquei as tiras arruinadas e as alimentei para a lareira. Acendi um fósforo.
A tinta a óleo pegou fogo rapidamente, enviando uma fumaça preta e espessa pela chaminé como um sinal sombrio.
Virando-me para o armário, puxei os ternos de Dante. Seus ternos de seda italiana feitos sob medida.
Peguei um rolo de sacos de lixo pretos.
Enfiei a seda no plástico, socando-os sem qualquer consideração pelo tecido. Não os dobrei; eu os amassei.
Arrastei os sacos para a porta.
Meu celular vibrou.
Outra foto de Sofia.
Um anel de diamante amarelo em seu dedo.
*Ele me deu o sol*, o texto provocava.
Olhei para minha mão esquerda. A aliança de platina pesava em meu dedo. O anel da família Moretti. Não era uma joia; era uma algema.
Eu o tirei.
Meu dedo ficou leve. Nu. Livre.
Coloquei o anel na mesa de cabeceira, deixando o metal clicar contra a madeira.
Indo para a gaveta da minha cabeceira, puxei meu diário. Dez anos de anotações. Dez anos amando um homem que não existia.
Voltei para a lareira.
Joguei o livro nas chamas.
Observei as páginas se enrolarem e enegrecerem, observando a tinta do meu passado desaparecer em cinzas.
"Sra. Moretti?"
A governanta estava na porta, seus olhos arregalados de choque. Ela olhou do quadro rasgado para os sacos de lixo e, finalmente, para o fogo.
Arrastei os sacos em direção a ela.
"Aqui", eu disse, minha voz plana. "Leve estes para a calçada."
"Mas... estas são as roupas do Sr. Moretti."
"O Sr. Moretti não mora mais aqui", eu disse.
Ela me encarou, confusa e assustada.
Peguei minha mochila de fuga.
Passei por ela, sem quebrar o passo.
Na porta, parei. Olhei para trás uma última vez.
O quarto cheirava a fumaça e ruína. A cama estava vazia. O anel brilhava na mesa de cabeceira, frio e abandonado.
Meu celular vibrou.
Sofia novamente. Uma foto dos pais de Dante sorrindo ao lado de sua cama de hospital.
Eu nem abri a imagem. Apaguei a conversa inteira.
Então fiz a última coisa.
Naveguei até meus contatos. Selecionei *Dante*.
Apagar Contato.
A confirmação piscou para mim.
Sim.
Saí de casa e entrei no Uber que me esperava.
Não olhei para trás, para as janelas. Não derramei uma lágrima.
Eu já tinha partido.