Dante entrou furiosamente.
Ele parecia destruído.
Sua camisa de smoking estava rasgada. Seu peito subia e descia. E ele estava coberto de sangue.
Tanto sangue. Encharcava suas calças, suas mãos, seu pescoço.
Eu me sentei, o instinto de cuidar dele surgindo antes que eu pudesse reprimi-lo.
"Dante?"
Ele olhou para mim, seus olhos selvagens, as pupilas dilatadas pela adrenalina.
"Ela está segura", ele sussurrou. "Era uma armadilha. Eles a usaram como isca."
*Claro que está*, pensei amargamente. *Ela é a sobrevivente. Nós somos as baixas.*
Ele tirou a camisa, jogando-a no chão com um baque úmido.
"Vire-se", ele comandou.
Eu vi então. Um corte longo e irregular em suas costas. Não era fundo o suficiente para matar, mas era feio. A pele estava aberta, vertendo vermelho.
"Pegue o kit", ele disse.
Ele entrou no banheiro e apoiou as mãos na pia, baixando a cabeça.
Eu saí da cama. Peguei o kit de sutura do armário. Ser esposa de mafioso significava saber costurar carne tão bem quanto seda.
Entrei no banheiro. O cheiro de cobre e suor preenchia o pequeno espaço.
Umedeci um pano e comecei a limpar a ferida.
Ele sibilou quando o álcool tocou os nervos expostos.
De repente, meu celular acendeu no balcão. Uma notificação brilhou na tela de bloqueio.
*Latam Airlines: Confirmação #HK982L. FLN.*
Ele agarrou o celular antes que eu pudesse ler mais. Ele me encarou no espelho.
"O que é isso?", ele exigiu. "Por que você está olhando voos para Florianópolis?"
Meu coração parou. Eu tinha sido descuidada.
"Eu... estou procurando arte", menti. Minha voz estava firme. A prática leva à perfeição. "Sua mãe quer uma peça nova para a galeria. Há um leilão em Florianópolis."
Ele estudou meu rosto no reflexo. Ele era um detector de mentiras humano. Mas esta noite, ele estava chapado de violência e dor. Ele piscou, aceitando a mentira.
Ele acreditava que me possuía completamente. A ideia de que eu o deixaria era impossível para ele.
"Apenas costure", ele resmungou.
Passei a linha na agulha. Minhas mãos estavam firmes.
Perfurei sua pele. Ele não se encolheu.
"Você escreveu aquele bilhete", ele disse de repente. "Aquele no clube."
Puxei a linha com força.
"Eu era uma criança, Dante."
"Você estava falando sério?", ele perguntou. Sua voz era áspera. "Você me amava?"
Eu parei. A agulha pairou sobre sua pele.
"Aquilo era o sonho de uma criança", eu disse. "Os sonhos acabam quando acordamos."
Terminei o ponto. Dei o nó e cortei a linha.
"Pronto."
Dante se virou. Ele se recostou na pia, pairando sobre mim. A adrenalina ainda corria por ele, tornando-o vibrante, perigoso.
Ele estendeu a mão. Sua mão segurou meu queixo. Seu polegar roçou meu lábio.
Ele se inclinou, seus olhos caindo para minha boca. Ele queria me beijar. Ele queria me reivindicar. Ele tinha acabado de matar homens, e agora queria sentir a vida.
Eu virei a cabeça.
Seus lábios roçaram minha mandíbula.
Eu senti o cheiro. Por baixo do sangue e do suor.
Ela.
Fumaça e baunilha.
Eu recuei. Dei um passo para trás, afastando sua mão.
"Não."
Dante pareceu ofendido. Sua testa se franziu.
"Eu sangrei esta noite, Helena. Eu preciso de conforto."
Eu olhei para ele, realmente olhei para ele. O direito. A arrogância.
"Isso é manutenção, Dante", eu disse, gesticulando para suas costas. "Não conforto."
Saí do banheiro. Subi na cama e virei de costas para ele.
Ele me seguiu. O colchão afundou sob seu peso.
Ele me alcançou. Seu braço passou pela minha cintura, puxando-me para um abraço de conchinha. Ele me prendeu contra seu corpo duro e quente.
Eu fiquei rígida.
"Um dia", sussurrei na escuridão. "Um dia, você vai me procurar e encontrar apenas o ar."
Ele resmungou, enterrando o rosto no meu pescoço. "Você é minha, Helena. Você não vai a lugar nenhum."
Ele adormeceu em minutos, sua respiração pesada e regular.
Eu fiquei acordada, encarando a parede.
*Abrace o fantasma enquanto pode, Dante.*
*Porque a mulher já se foi.*