Virei a esquina em direção ao quarto de Sofia.
Um homem estava saindo de sua porta. Ele usava uniforme hospitalar, mas não se movia como um curador. Ele se movia com a graça predatória de um soldado.
Ele virou a cabeça.
Vi a tatuagem em seu pescoço. Uma cobra enrolada.
O brasão dos Genovese.
Parei abruptamente. Meu sangue gelou.
Ele desapareceu na escada antes que eu pudesse sequer processar a ameaça para reagir.
Entrei no quarto, meus sentidos em alerta máximo.
Sofia estava radiante. Ela parecia vibrante - vibrante demais para alguém supostamente sofrendo de uma concussão grave.
"Dante! Você voltou! Trouxe café para mim?"
Eu a encarei, procurando a verdade em seus olhos.
"Quem era aquele homem?", perguntei, minha voz baixa.
Sofia piscou, a imagem da inocência. "Que homem?"
"O homem que acabou de sair."
"Ah." Ela riu, mas foi um som frágil e nervoso. "Era o iFood. Ele me trouxe um pão na chapa."
"Entregadores do iFood usam uniformes cirúrgicos agora?"
O sorriso de Sofia vacilou. "Você está sendo paranoico, querido. Venha sentar."
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu atrás de mim.
Meus pais entraram.
Minha mãe, a Matriarca, entrou como uma tempestade se formando, enquanto meu pai a seguia, parecendo cansado.
Sofia ofegou, fingindo deleite. "Sr. e Sra. Moretti! Estou tão honrada que vieram."
Ela estendeu a mão para mim.
Eu me afastei como se estivesse queimado.
Minha mãe não falou. Ela bateu um pesado álbum de couro na mesa de apoio. Ele atingiu com um baque estrondoso que fez a jarra de água tremer.
"O que é isso?", Sofia perguntou, sua voz tremendo ligeiramente.
"Olhe", minha mãe cuspiu.
Eu abri o álbum.
Era um catálogo de negligência. Fotos de Helena.
Helena no baile de caridade. Sozinha.
Helena na missa de Natal. Sentada sozinha.
Helena no batismo do meu sobrinho. Comemorando sozinha.
"Ela tem sido a esposa perfeita por três anos, Dante", disse minha mãe, sua voz cortante como vidro. "Enquanto você bancava o enfermeiro para essa... criatura."
O rosto de Sofia se desfez. "Isso não é justo! Eu precisava dele!"
Minha mãe a ignorou e pegou um tablet.
"Imagens de segurança", ela anunciou. "Da câmera do corredor. Duas horas atrás."
Ela apertou o play.
Eu assisti em silêncio.
Assisti ao homem com a tatuagem de cobra entrar no quarto. Assisti ele ficar por quarenta minutos. Assisti ele sair, rindo como se compartilhasse uma piada particular.
Olhei para Sofia.
Seu batom estava borrado. Seus olhos não eram mais suaves; eram calculistas, mudando com o pânico.
"Você está sendo enganado por uma viúva-negra", disse minha mãe. "Os Genovese não a sequestraram. Ela os convidou."
A percepção me atingiu como um golpe físico no peito.
A armadilha. O armazém. O súbito "perigo".
Era tudo um jogo. Uma performance coreografada para me fazer deixar o baile. Um jogo para me fazer deixar Helena.
E eu caí.
Sofia me alcançou novamente, o desespero arranhando suas feições. "Dante, por favor. Eles estão mentindo."
Eu olhei para ela. Realmente olhei para ela.
Não vi mais a viúva trágica. Vi uma traidora barata e gananciosa.
"Leve-me para casa", ela implorou, as lágrimas escorrendo.
Dei um passo para trás, colocando distância entre nós.
"Eu não sou seu motorista", eu disse, minha voz se tornando gelo. "Eu sou o Don."
Minha mãe deu um passo à frente, sua expressão sombria.
"Vá encontrar sua esposa, Dante. Antes que você não tenha mais esposa para encontrar."
Virei-me sem outra palavra.
"Dante!", Sofia gritou atrás de mim.
Eu saí. Andei mais rápido. Então, comecei a correr.
O pavor se acumulou em meu estômago, pesado e escuro como piche.
O rosto de Helena quando ela bateu na parede. O sangue em seus dedos. A forma vazia como ela disse: "Eu vou."
Eu precisava chegar em casa.