Eu colei um sorriso no rosto. Parecia tenso, quebradiço como argila seca.
"Eu *estou* sorrindo, Dante."
Ele apertou minha cintura - mais forte. Um beliscão de aviso.
Nós nos movemos pela multidão. Homens beijavam seu anel; mulheres me olhavam com uma mistura de inveja e pena. Elas sabiam. Todos sabiam sobre o iate. Todos sabiam sobre Sofia.
Eu era o Canário Engaiolado: bonita de se ver, mas incapaz de voar.
Marco, um soldado do círculo íntimo de Dante, aproximou-se de nós, segurando uma caixa de metal enferrujada.
"Chefe", ele sorriu, seus dentes manchados de vinho tinto. "Nós a encontramos. A cápsula do tempo da iniciação dos Jovens Capos. Cinco anos atrás."
Os homens ao nosso redor riram. Era uma tradição - prova de que antes de se tornarem monstros, eram apenas garotos com sonhos.
"Abra!", alguém gritou.
Dante parecia entediado, mas assentiu.
Marco forçou a tampa e começou a tirar itens: um canivete, uma garrafa de uísque barato, uma polaroid de um rival morto. E cartas.
"Aqui tem uma da Sofia!", Marco gritou, bêbado com a atmosfera.
A sala ficou em silêncio. Até o nome dela comandava atenção.
"Ela quer ser uma estrela de Hollywood", Marco leu, rindo. "Ela quer uma mansão no Morumbi e um marido que não carregue uma arma."
Uma onda de riso desconfortável percorreu a sala. Todos nós sabíamos que ela acabou com um Capo que morreu em uma sarjeta, e agora estava se agarrando ao Don.
"E aqui tem uma da... Sra. Moretti!", Marco tirou um pedaço de papel de carta cor de creme.
Eu congelei. Lembrei-me de ter escrito aquele bilhete. Eu tinha dezoito anos. Noiva de Dante. Ingênua. Estúpida.
"Leia!", o Don russo gritou.
Marco desdobrou o papel. Ele pigarreou.
"Eu espero", ele leu, "que quando isto for aberto, Dante me olhe da mesma forma que olha para o nascer do sol. Espero não ser apenas um dever, mas o seu lar."
O silêncio foi absoluto.
Foi humilhante. Foi uma vulnerabilidade crua e nua em uma sala cheia de tubarões.
Senti o calor subir pelo meu pescoço. Encarei o chão, incapaz de encontrar os olhos de ninguém.
Dante ficou imóvel ao meu lado. Eu podia sentir a tensão irradiando dele.
Ele pegou o papel da mão de Marco e olhou para ele - minha caligrafia, arredondada e feminina.
Ele olhou para mim. Pela primeira vez em meses, ele realmente *me viu*. Havia choque em seus olhos. Talvez até uma rachadura no gelo.
"Helena", ele começou, sua voz baixa.
Então, seu celular tocou.
O som quebrou o momento como vidro.
Dante não o ignorou. Ele nunca o ignorava.
Ele o tirou. "Sofia", ele atendeu.
Ele ouviu por dois segundos. Seu rosto endureceu como pedra.
"Onde?", ele latiu.
Ele desligou e se virou para Marco.
"Reúna os homens. Os Genovese a pegaram. Eles estão com a Sofia no armazém da Rua 4."
A sala explodiu em movimento. Soldados corriam, puxando armas de coldres escondidos.
Dante se virou para segui-los.
"Dante", sussurrei.
Ele parou. Ele olhou para trás, para mim.
"Por favor", eu disse. "Fique."
Foi um apelo. Um apelo desesperado e patético. Eu estava pedindo para ele me escolher. Apenas uma vez. Em vez dela.
Ele olhou para a porta. Depois olhou para mim.
"Ela está em perigo, Helena."
*Eu estou morrendo aqui*, pensei.
"Fique aqui", ele ordenou. "Não se mova. A segurança vai te vigiar."
Ele verificou a câmara de sua arma. "Eu tenho que ir."
Ele se virou e correu para fora do salão de baile.
Eu o vi partir. Eu o vi correr em direção à morte para salvá-la.
Ele me deixou parada no meio do salão, cercada por olhares fixos. A esposa que esperava por amor. O marido que corria para sua amante.
Eu estava desprotegida. Eu não era amada.
Caminhei até a mesa onde ele havia deixado meu bilhete. Eu o peguei.
Fui para a varanda. O ar da noite estava congelante.
Peguei um isqueiro de uma bandeja de prata na mesa de um garçom que passava.
Acendi a chama. Segurei o canto do papel no fogo.
Observei as palavras se enrolarem em cinzas. *Dante... nascer do sol... lar.*
Tudo isso, queimando.
Deixei o papel em chamas cair em um cinzeiro de cristal.
"Adeus, Dante", sussurrei para a fumaça.
Eu não chorei. Lágrimas eram para pessoas que tinham esperança.
Eu não tinha mais nada além da verdade fria e dura.