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Capítulo 4 Enquanto há tempo

E assim passou a quarta-feira e quinta-feira numa rotina bem entediante.

Trabalho, casa, trabalho, casa. Comida congelada. Banho. Cama. Repeat.

Na quarta, eu até tentei ler um pouco do meu romance favorito antes de dormir. Mas os olhos fechavam sozinhos. Nem as páginas do livro conseguiam me arrancar daquele cansaço que parecia grudado nos meus ossos.

Na quinta, a única coisa diferente foi Letícia ter derrubado café na minha mesa. Ela nem pediu desculpas direito.

Normal.

Mas na noite da quinta, assim que saí do trabalho, passei no apartamento da Paloma.

Precisava de um pouco de vida. Um pouco de cor. Nem que fosse só para ver minha amiga sorrindo com aquela ansiedade gostosa de quem está prestes a casar.

Quando minha amiga atendeu a porta e entrei, avistei o Matheus e...

Gustavo.

Ele estava lá. Sentado no chão, apoiado no sofá, com aquele jeito calmo e os olhos verdes que pareciam brilhar até na luz fraca da sala.

Meu coração deu um pulo.

Por que ele está aqui? E por que isso me deixou... feliz?

- Eu não sabia que o Matheus era tão amigo assim desse cara. - Sussurrei pra Paloma.

Quase indaguei um: "Por que só me apresentou ele agora?" Mas me segurei. Não queria parecer interessada demais.

Porque eu não estava. Claro que não.

- Eles se conhecem há alguns anos, mas o Gustavo estudava fora. Então eles não tinham tanto contato um com o outro. - Paloma saiu do sussurro e falou em um tom alto demais. - Agora, vem. Vamos terminar de ver esse filme conosco.

Eu não teria escolha.

Então sentei-me no sofá com minha amiga. Gustavo e Matheus estavam sentados no chão em um tapete preto à nossa frente.

O filme era uma comédia romântica.

Claro que era.

Em alguns minutos, eu pude ouvir a risada de Gustavo. Uma risada solta, genuína, que ecoou pela sala e fez algo estranho dentro de mim.

Estranhamente, aquela risada me fez sorrir.

E me acalmou em um breve instante.

Como ele conseguia isso sem nem tentar?

Tentei prestar atenção no filme. De verdade. Mas os meus olhos, traidores, escorregavam para o lado dele a cada cena engraçada. Ele inclinava a cabeça, passava a mão no cabelo de vez em quando, ria sem medo de parecer bobo.

E eu percebi que queria ouvir aquela risada de novo.

Assim que terminou o filme, Paloma e eu fomos para a cozinha. Aproveitei para tomar um copo d'água e disfarçar o calor que insistia em subir pelo meu pescoço.

- E aí? Os preparativos como estão? - perguntei, apoiada na bancada.

- Ah, Melissa, estou tão nervosa. - Paloma colocou as mãos no rosto. - Sabe aquela tensão pré-casamento? - Ela pausou e me olhou de lado. - Claro que não sabe.

Dói um pouco ouvir isso, mesmo sendo verdade.

Ela continuou, sem perceber minha expressão.

- Não penso em mais nada fora isso. Quero você mais presente comigo esses dias. Preciso da minha melhor amiga por perto.

- Assim que puder, passarei aqui. - Dei um sorriso pequeno. - Mas agora tenho que ir. - O cansaço estava me tomando pouco a pouco. - Amanhã quem vai no lugar do Marcelo é o filho dele. Tomara que seja legal. - Dei de ombros.

Paloma não pareceu nada surpresa.

Ao contrário disso, ela deu uma risada sarcástica.

Fiquei sem entender. Mas estava com preguiça até de falar. Então só ignorei.

Voltei até a sala. Me despedi do Matheus e do Gustavo.

Pelo que percebi, Matheus também estava ansioso com o casamento. Ele mexia nas mãos o tempo todo e vivia olhando para a aliança no dedo.

- Tchau, Matheus! Tchau, Gustavo! - Eu disse, indo até a porta.

Paloma me acompanhou. Mas o Gustavo nos interrompeu antes que ela abrisse a porta.

- Melissa, você se incomoda se eu te acompanhar novamente? - Ele falou rápido, como se precisasse tirar aquilo do peito antes que a coragem sumisse. - É que eu já estava indo. Amanhã tenho um dos primeiros dias de trabalho e não quero chegar atrasado na empresa.

Ele concluiu meio sem graça e sem ar.

Eu ri da sua cara.

Matheus prendia o riso nas costas dele.

Gustavo me fazia sorrir involuntariamente. Principalmente quando ele queria falar alguma coisa, mas a timidez só o deixava dar um sorriso torto.

Um sorriso que eu já estava começando a gostar de ver.

- Claro. - Respondi. - Vamos?

Ele se despediu de Matheus e desceu comigo.

Fomos caminhando em silêncio pelo nosso trajeto. As luzes da rua iluminavam o asfalto molhado de uma chuva fina que tinha caído mais cedo. O vento balançava as árvores. O barulho dos carros lá longe.

Por que o silêncio com ele não era desconfortável?

Quando ele resolveu quebrá-lo:

- Sabe, Melissa, você é muito diferente de todas as garotas que já conheci. - Ele sorriu meio sem graça. - Mesmo sendo tão fechada assim. Sei que você tem um lado fantástico. E eu adoraria conhecê-lo.

Ele... ele estava flertando comigo?

Senti minha pele queimar. Enfiei as mãos no bolso da calça.

- Eu não sei o que responder. - Sorri meio boba. Continuei: - Você também é um cara muito legal. Bem diferente dos que eu já conheci. Também gostaria de conhecê-lo melhor.

Espera aí.

Eu estava flertando com ele também?

Meu Deus, no que eu estava pensando?

Eu só sabia o nome dele. Ao contrário dele, que parecia saber mais de mim. Graças a Paloma e Matheus, imagino.

- Espero que isso seja bom. - Ele sorriu, me encarando dos pés à cabeça. - Bem, acho que você já está entregue. - Ele brincou e olhou para o prédio atrás de si.

Só então notei que já estava em frente ao meu edifício.

Quando a gente andou tudo isso? Pareceu tão rápido...

- Pois é. Até qualquer dia por aí, então. - Me despedi sorrindo.

Mas não consegui sair do canto.

Meus pés não obedeciam.

- Será que a gente pode sair algum dia? - Ele me surpreendeu perguntando. Aqueles olhos de esmeraldas brilhantes estavam bastante ansiosos pela resposta.

Ele realmente queria me ver de novo.

- Por que não? - eu perguntei. Porém, mais pra mim mesma. - Me passa teu telefone? - pedi.

É. Por que não?

Eu gostaria muito de sair com ele. Isso não quer dizer que viveríamos um romance. Mas que poderíamos nos divertir futuramente.

Era isso que ele esperava também, não era?

Trocamos nossos telefones. Tentei passar por ele em direção ao prédio.

Mas então nossos braços se roçaram levemente.

E eu não sei como, mas surpreendentemente, eu me vi dentro do seu abraço.

Um abraço apertado. Quente. Firme.

Que me aqueceu inteira.

Pude sentir a definição e cada traço do seu corpo. O perfume dele - algo entre madeira e mar - invadiu meus sentidos.

E estranhamente, eu não queria soltá-lo.

O que está acontecendo comigo?

- Então, até mais. - Ele sorriu ao me soltar.

Seguiu seu caminho radiante.

- Até mais. - Sussurrei sorrindo quando ele já se afastava. Mesmo que ele não pudesse ouvir.

Fiquei ali parada por alguns segundos. Só observando.

Senti um arrepio por completo no meu corpo no momento em que ele sorriu daquele jeito e na maneira que sua silhueta se afastava de mim.

Entre no prédio, Melissa.

Enquanto ainda dá tempo.

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