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Capítulo 9 Frio

Quando nós chegamos, um garçom nos acompanhou até uma mesa com quatro cadeiras ao ar livre.

Eu estava sentada ao lado do Gustavo. O que não ajudou muito o suor em minhas mãos e não fez acalmar as espécies estranhas de borboletas sobre o meu estômago.

Paloma e Matheus sentaram de frente a nós. E de vez em quando eu a via sorrir pra mim e chutar meus pés pra avisar que Gustavo me olhava.

E em meia hora que estávamos ali, ela chutou bastante o meu pé.

Gustavo olhava demais pra mim. Não sabia bem o motivo, mas um sorriso teimava não deixar o meu rosto quando eu também olhava pra ele. E ele desviava o olhar rapidamente.

Tímido. E lindo.

Pra falar a verdade, acho que o motivo era ele.

- Amor, podemos? - Paloma disse, depois de alguns minutos de conversa banais sobre a nossa semana. - É o seguin... - ela parou quando o garçom se aproximou com a nossa pizza e nos desejou bom apetite. Então continuou: - Já sabemos quem será o par de vocês no nosso casamento.

É, eu também sabia, pensei em acrescentar.

- E? - ao contrário disso, a incentivei para continuar.

- Você e o Gustavo. - Matheus disse sem tanta cerimônia, pegando uma fatia de pizza. - Tipo, casal, tá ligada? Vocês dois já parecem um mesmo.

É o quê?

Gustavo e eu éramos apenas amigos e...

Como assim ele falou aquilo com tanta suavidade?

Por que meu coração não age normal quando olho aqueles olhos e imagino ficar ao lado dele em um altar?

Tipo, casal, como Matheus indicou.

Gustavo também não ficou surpreso. No entanto, ele sorria. E quando olhei pra ele, os olhos dele já estavam em mim.

Eles diziam tanta coisa que não soube decifrar. Apenas observei cada detalhe daquele rosto perfeito. Observei a maneira que eu me sentia quando olhava pra ele.

Será que Matheus estava certo? Será que nós parecíamos mesmo um casal?

Gustavo sorriu. E eu franzi a testa, tendo uma leve impressão de dejavu.

Uma leve impressão de que já tive momentos assim com ele - seja em meus sonhos sem fundamentos ou em qualquer outra coisa.

- Melissa, tá tudo bem? - a voz de Paloma finalmente me trouxe de volta pra aquela pizzaria.

- É... Sim. - minha cabeça começou a doer. - Preciso ir ao banheiro.

Eu precisava ir pra qualquer lugar em que eu pudesse ficar sozinha.

Sem arranjos. Sem coração batendo forte. Sem expectativas destruídas.

- Espera, também vou.

Então andamos juntas para o banheiro daquele ambiente. Poucas mulheres estavam lá. Algumas se olhavam no espelho e outras só conversavam.

Ignorei tudo aquilo. Procurando uma pia, abri a torneira e molhei meu rosto.

A água fria fez um pouco de meus sentidos se acalmarem.

Meu Deus, o que estava acontecendo comigo?

- Ah, eu sei, minha amiga. - a voz de Paloma chegou em meus ouvidos, ecoando meus pensamentos.

- Sabe o quê? De quê? - perguntei na defensiva enquanto observava ela abrir a bolsa e tirar um brilho labial.

- O que está acontecendo aí dentro. - ela tocou em meu peito, no lugar que ficava meu coração.

- Tem nada acontecendo aqui. - mas eu fiquei nervosa. - Meu coração só está batendo como o de todo mundo. - me afastei e cuidei de enxugar meu rosto.

- Todo mundo que olha para o Gustavo. - acrescentou. E eu lhe encarei. - As meninas que estavam na mesa do nosso lado também não paravam de olhar para ele. E você também, mesmo de lado. - ela sorriu para o próprio reflexo no espelho.

Que meninas? Meu cérebro automaticamente fez essa pergunta.

Mas não viria ao caso. Aquilo era apenas...

- Mas... - parei assim que me vi sem argumentos.

Eu sabia da bagunça que estava localizada dentro de mim. Mas eu não podia admitir. Eu não podia deixar nada daquilo crescer, sabendo que só estava crescendo em mim.

Que inferno!

Toda minha vida estava tão tranquila. Meus últimos anos foram resumidos em noites casuais.

E então agora...

Minha garganta se apertou. Eu preferi retocar o meu batom.

Antes que a Paloma fechasse o assunto com as suas frases de efeitos por causa do meu silêncio, duas meninas entraram no banheiro.

Uma delas, eu conhecia. Era a Letícia do meu trabalho. A outra, não. Ela era loira dos olhos claros. Muito bonita.

E então a Paloma sussurrou em meu ouvido:

- Foram essas que não pararam de olhar para o Gustavo.

Ah...

Estreitei os olhos e as examinei. Examinei tudo que elas tinham que talvez eu não tivesse. Imaginei algo que fizesse com que Gustavo também as olhasse.

Mas não encontrei.

Letícia, além de bonita, era uma pessoa feia por dentro. Capaz de destruir relacionamentos alheios - como ela tentou com Paloma e Matheus.

Paloma parecia calma o suficiente com a presença dela ali, levando em consideração o tamanho do ódio ao qual sentira. Mas eu notei que Paloma queria que eu mesma percebesse o quão cega eu estava.

Ela queria que eu ouvisse o que Letícia falava:

- Você viu aquele gato que estava ao lado da nossa mesa? - ela falava com a garota ao seu lado, mas pelo seu tom era pra que eu pudesse ouvir. - Ele é filho do meu chefe. E uma das minhas metas é conseguir ficar com ele também.

O quê?

Sei que não deveria ter virado sobre os calcanhares e nem ter vontade de quebrar o espelho e com os cacos escrever em sua testa: "Vadia".

Mas cacete, eu estava com raiva.

Tipo, muita raiva.

Não sabia o motivo. Não tinha razão pra isso. Ou preferia acreditar que não.

Será que ela não deveria ao menos ter uma noção de que talvez Gustavo e eu estivéssemos juntos?

Mas no fundo, eu sabia que ela pensara. Ela só queria me deixar pra baixo. Me deixar ainda mais confusa.

E eu já não tinha tanta paciência pra esses assuntos.

Paloma lançou um sorriso que significava "eu te avisei".

Então eu bufei alto o suficiente para que as duas garotas se virassem pra nós e ficassem "surpresas" por estarmos ali.

- Melissa. - Letícia direcionou a palavra pra mim. - Você que estava sentada ao lado daquele cara lá, o filho do seu Marcelo... Sabe dizer se ele é solteiro? - seu rosto estava dentro de uma farsa quase angelical.

Cínica era o seu sobrenome.

Mas antes que eu respondesse qualquer coisa - que seria um: "acho que é solteiro sim" - Paloma se pôs em minha frente e com a raiva guardada disse:

- Não. - sua voz estava séria. - Melissa e ele estão se conhecendo. E não vai ser você que vai tirar a chance da minha amiga ser feliz de verdade. Então, antes que você coloque essas suas asinhas para cima dele, lembre-se que geralmente as pessoas gostam de outras pessoas que se dão valor. Então, sinto informar que ninguém gostará de você, nada além de uma noite de transa em um motel barato.

Paloma então começou a andar rapidamente para fora.

Olhei o rosto de Letícia, que parecia ter sido pega de surpresa com tudo que Paloma falou. Mas simplesmente deixei ela ali e segui a minha amiga.

Que, apesar de tudo, falou apenas verdades.

- Por que fez isso? - eu perguntei assim que cheguei perto da Paloma no corredor de saída do banheiro.

Relaxamos o nosso passo. Ela já estava sorridente.

- Porque eu a odeio por motivos suficientes. E não falei nada além de verdades.

Sorri comigo mesma ao relembrar o que Letícia fizera há alguns anos atrás: enviar para o Matheus uma mensagem dizendo que o amava e minha amiga o traía.

Desde então, Paloma se esquenta com ela sempre que ela fica com papos baixos para caras comprometidos.

Mas o Gustavo não é comprometido. Não que eu saiba.

- Mas por que falou tudo aquilo? - insisti no assunto ao relembrar que ela havia falado num suposto "conhecer" que estávamos tendo.

- Aquilo o quê? A verdade? - ela deu de ombros. - Como já disse, tudo verdade, minha amiga. Só seja menos cega.

- Mas você falou que... - deixei esse assunto pra lá.

Nunca havia me sentido tão lenta e perdida como naquela noite.

Mas quando voltamos pra nossa mesa e Gustavo sorriu...

Eu me senti melhor.

Apesar de eu ter percebido que Gustavo e Matheus planejavam algo.

- Por que demoraram tanto? - Matheus quis saber quando Paloma lhe deu um beijo no rosto.

- Nada demais. - ela piscou os olhos conspiradores pra mim.

Eu apenas revirei os meus.

Matheus falou algo no ouvido da Paloma - coisa que eu não estava nem a fim de saber - enquanto eu pegava uma fatia de pizza e mordia.

- Você está bem? - Gustavo falou comigo.

A pizza ficou solta no ar enquanto eu olhava pra ele ainda de boca aberta.

Ele sorriu.

- Sim. - me recuperei e engoli o resto da pizza com a ajuda da Coca-Cola.

- Melissa. - Paloma chamou. - Como você vai pra casa de seus pais segunda-feira, deixa a chave do seu apartamento comigo? Caso eu precise pegar alguma coisa.

Apenas assenti pra ela.

Depois começamos a conversar entre si. Até que vi Letícia e sua amiga voltarem do banheiro.

A segui com o olhar no mesmo instante em que Letícia deu uma piscadela de olho para o Gustavo.

Ele rapidamente virou a cabeça, ignorando.

E eu amei.

Ri baixinho. Bem diferente da minha amiga, que gargalhou alto.

E sua risada foi contagiante. Esse era um dos motivos pelo qual eu amava a Paloma.

Gustavo parecia meio perdido no meio daquela história. Mas ele carregava durante todo tempo um sorriso calmo no rosto.

Acho que o horário voou. Senti quando um vento muito suave soprou em nossa direção.

E, como previ: frio pra cacete.

- Acho que já vou. - me ouvi falando e passando minhas próprias mãos pelos braços.

- Já? - a voz de Gustavo saiu dentro de um sussurro. Só eu consegui ouvir.

- Frio. - sussurrei de volta.

E sorrimos.

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