Capítulo 6 Médico

Um médico apareceu na porta, me chamando com as mãos. Me levantei a contragosto, antes de me despedir de minha mãe. Os olhos dele pareciam temerosos, quando viu o meu estado.

Eu não estava no meu melhor momento, e ficar frágil diante de um desconhecido era, no mínimo, humilhante. Cumprimentei com um aceno de cabeça, esperando pacientemente ele me dizer o que precisava.

- O editor-chefe aceitou a proposta. - Meu coração se aliviou naquele momento. Parecia que um peso gigantesco tinha saído de minhas costas. - Mas...

Eu odiava aquela palavra, com todas as minhas forças. Não que eu tivesse muita. Era horrível se sentir bem e depois uma enxurrada de sentimentos negativos transpassar por todos os seus poros.

- Diga. - Murmurei, apertando minhas mãos, sem motivo algum ao olhar de quem me via assim.

- Só poderá ser feito isso durante três dias. - O olhar dele foi de pena, quando me viu abalada. - Sinto muito. Queria poder fazer mais.

Eu não o conhecia, mas agradeci a empatia dele por mim. Provavelmente, Mei tinha contado sobre a história minha e da minha mãe. Fiquei em completo silêncio, parada no mesmo lugar, observando ele virar as costas e fazer o caminho de volta, provavelmente indo trabalhar.

Me encostei na vidraça, e fitei minha mãe com os olhos marejados. Eu já tinha chegado até ali, não era o momento de desistir. Eu esperava ansiosamente, ela acordar do coma e me olhar com aqueles olhos calorosos, que mostravam todo o amor que ela sentia por mim.

Eu sentia saudade de seus abraços, de sua voz me acalmando ou me chamando atenção. De seus conselhos sábios, e seu sorriso iluminado. A presença dela estava fraca, como se estivesse parando de lutar por si mesma, coisa que ela sempre dizia para não desistir, quando eu era mais nova.

Eu não iria desistir dela. Nem que eu morresse por ela. Minha mãe merecia o melhor, e eu, sua única filha, seria a pessoa que continuaria tendo esperança até os últimos segundos de vida. Eu tinha plena consciência de que minha mãe poderia muito bem não acordar, como eu esperava.

Mas eu continuaria tendo esperanças, mesmo que durasse anos, eu continuaria naquela luta. Os dias eram corridos e tensos, aquilo consumia muita energia. Principalmente, quando eu precisava de trabalho.

Aquela tormenta tinha acabado, mas o peso das minhas responsabilidades, não. Depois de sair do hospital, fui direto para o apartamento. Agnes provavelmente estaria com suas coisas organizadas para viajar.

Mesmo morando juntas, tínhamos nosso espaço pessoal. Eu mal entrava no quarto dela, a não quando ela mesma pedia para pegar algo e vice-versa. Gostamos da nossa privacidade.

Entrei no apartamento indo direto para meu quarto. Precisava escolher as roupas que iria amanhã, antes que Agnes matasse. Eu nunca fui muito ligada à moda, principalmente depois que minha vida pareceu não fazer sentido desde que minha mãe entrou em coma. Então, minhas roupas eram básicas, e eu praticamente me desprendi desse mundo.

Fiquei horas ali, montando looks para a manhã seguinte, e pela primeira vez, consegui combinar roupas dignas de uma secretária de um CEO. Com certeza deixaria muitas pessoas surpresas com minha escolha.

Sentei na minha escrivaninha, pesquisando em meu notebook vídeos de administração e como se especializar em áreas daquele tipo. Eu entraria em contato com várias empresas, não quero prejudicar a empresa do senhor Muller, principalmente porque preciso desse emprego.

Os vídeos eram bons e objetivos. Consegui assistir vários, enquanto fazia anotações do que achava importante. Eu era boa em gestão financeira, e aquilo iria me ajudar muito caso meu chefe precisasse de algo do tipo de última hora.

Me deitei era mais de meia-noite, ouvindo Agnes chorando no quarto ao lado. Eu não tive forças pra ir lá me despedir, então, fiz na moda antiga. Escrevi uma carta e preparei um café da manhã digno de uma despedida.

Era quase cinco horas da manhã quando deixei a bandeja ao lado da cômoda do quarto de Agnes, e sai para trabalhar. Eu estava deprimida, não pude nem aproveitar o final da noite com ela.

Sabia que ela iria entender, mas não deixava de ser dolorido. Cheguei às cinco em ponto na frente da entrada da empresa, vendo que ainda não tinham aberto. Fiquei embaixo da tapagem cruzando meus braços, para tentar diminuir o frio.

Fiquei observando as ruas enquanto nenhum funcionário aparecia. Pelo visto, era realmente difícil ter pessoas que chegam sempre no horário.

Sorri levemente, quando observei o homem fardado correndo desesperado enquanto fitava o relógio em seu pulso. Provavelmente ele era o responsável por abrir a empresa hoje, e seu dia não havia começado bem.

- Bom dia. - Desejei, vendo ele pegando as chaves com pressa.

- Bom dia, moça. - Apressado, ele tentava achar as chaves certas. - Desculpe meu atraso, minha filha passou mal a noite toda e estava tentando deixá-la com minha mãe. Espero que o chefe não saiba disso.

- Melhoras para sua pequena. - Desejei com um leve sorriso, observando ele abrir a porta com rapidez. - E se depender de mim, o senhor Muller não vai saber.

- Você é a nova secretária? - Indagou, arregalando levemente os olhos. Parecia surpreso em me ver ali.

- Sou sim. - Murmurei, me sentindo envergonhada com a análise que ele fez de mim, me olhando de baixo pra cima. - Eu gosto de chegar cedo.

- Percebi. - Sorriu levemente. - Bom, lhe desejo um ótimo dia de trabalho.

- Obrigada. - Sorri, antes de dar as costas indo em direção ao elevador. - Digo o mesmo ao senhor.

As luzes foram se acendendo como um filme. Já havia seguranças dentro da empresa, mas estes faziam as rondas da noite, e não eram responsáveis por abrir a empresa.

Quando o elevador abriu no quinto andar, eu suspirei ajeitando minha postura antes de sair do mesmo. Os homens pararam os seus trabalhos e me fitaram com o cenho franzido, antes de olharem para o relógio na parede.

Pelo visto não era normal outros funcionários chegarem tão cedo.

- Bom dia. - Dei a volta na bancada, colocando minha bolsa em cima da mesa e me sentando, sentindo o nervosismo começar a corromper cada poro da minha pele.

- Bom dia. - Cumprimentaram de volta, ainda curiosos com o fato de minha chegada tão cedo. - A senhorita precisa de algo?

- Não, obrigada. - Sorri gentilmente, antes de ligar o computador e checar os e-mails. Eu sabia que a informação da nova secretária chegar cedo iria parar no ouvido do chefão, e ia render fofoca entre as mulheres que queriam o meu posto.

Apenas suspirei e comecei a ler e-mail por e-mail, vendo que Agnes não conseguia dar conta de tudo sozinha. Haviam mais de trezentos e-mail não lidos, e pareciam bem importante para a empresa.

Não sei quanto tempo eu fiquei lendo-os e anotando o que eu achava relevante em passar ao senhor Muller, mas quando me deparei, já eram sete da manhã e a silhueta máscula parou diante de mim.

Levantei meus olhos com o cenho franzido. Com certeza eu teria várias rugas antes dos trinta, e já estava conformada com aquilo.

O todo poderoso me observava de cima sem expressão alguma, tentando achar algo em mim que respondesse suas perguntas internas. Acenei com a cabeça antes de o cumprimentar formalmente.

            
            

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