Attikus não ouviu nada além de 'sorvete' e 'pode comer'. Pegou a chave do apartamento e correu escada acima, animado.
Lauryn respirou fundo e caminhou na direção do Bentley.
Um homem estava sentado no banco de trás e, de onde ela estava, conseguia ver apenas o perfil dele. Nariz reto, mandíbula marcada e os lábios apertados em uma linha fina, embora ela soubesse que eram levemente carnudos. De repente, a porta do carro se abriu e alguém desceu.
A pessoa não era Benson, mas sim seu assistente, o senhor Dixon.
"Olá, Srta. Hanson. Sou o assistente do Sr. Wingrave, Patrick Dixon," ele disse em um tom educado e profissional. Ela apenas assentiu, lançando um olhar involuntário para Benson dentro do carro, que olhava fixamente para frente, evitando o rosto dela.
Ela sentiu o coração doer, como se estivesse sendo apertado. Não era de se estranhar que um homem em uma posição tão alta como ele não quisesse falar com alguém como ela, que foi usada para subir na cama dele. Ele deixaria o assistente se encarregar de tudo.
"Sr. Dixon, você veio falar comigo por causa do meu filho?" Lauryn perguntou diretamente.
"Sim, Srta. Hanson. O Presidente Wingrave já descobriu que a criança é filho dele. Por isso, agora ele quer levar o menino de volta para sua família, onde pertence. Afinal, ele é carne e osso da família Wingrave. Espero que possa entender, Srta. Hanson."
Embora já esperasse por aquilo, quando o Sr. Dixon pronunciou aquelas palavras, o coração de Lauryn foi golpeado como por uma lâmina cega. Attikus, a criança que ela criou sozinha durante os últimos quatro anos, para quem ela era tudo... agora alguém simplesmente decidia que ele deveria ser tirado dela? A dor que se instaurou no peito dela foi muito intensa, ao ponto de ela colocar a mão ali e buscar por ar.
Talvez, se o que aconteceu naquele dia não tivesse ocorrido, ela teria se recusado sem hesitar - mesmo sabendo que não tinha poder algum para enfrentar a família Wingrave. Ela lutaria até o fim para ficar com o filho. Mas agora...
Ela conhecia todas as mágoas de Attikus, e as crianças no jardim de infância o ridicularizavam por não ter pai. Ela tinha visto a arrogância dos Reeves. Se não fosse pela aparição de Benson, nem conseguia imaginar o que poderia ter acontecido.
Além disso, quando Attikus viu o carro do pai, a admiração e o desejo nos olhos do menino fizeram Lauryn admitir algo que estava tentando evitar: por mais que ela fizesse, por mais que se sacrificasse, não era suficiente. Sempre havia algo faltando para Attikus, mesmo que ele não vivesse falando ou cobrando.
Lauryn conteve a dor no coração, baixou os olhos e assentiu.
"Eu concordo com o pedido." ela disse com a voz baixa, embargada.
O Sr. Dixon então se aproximou da janela e se inclinou discretamente.
"Sr. Wingrave, a Srta. Hanson concorda que o senhor leve a criança para a Família." Ele disse com grande respeito.
A expressão de Benson não mudou, já que tudo ocorria exatamente como ele esperava. Para uma mulher que subira na cama de um homem em troca de benefícios, dar à luz a uma criança não passava de moeda de troca.
"A Srta. Hanson deve acompanhar o jovem mestre, já que ele não está acostumado com a Família e será um lugar totalmente novo para ele. Será melhor para o menino ter a mãe ao lado."
Isso pegou Lauryn de surpresa. Não era que ela não quisesse ficar com o menino, claro que queria! Porém, pensar em pisar na Mansão Wingrave lhe dava calafrios.
"Não... não podemos ficar aqui e... e o Sr. Wingrave visitá-lo? Quer dizer... Attikus pode passar um fim de semana, ou dois, com o Sr. Wingrave."
Dentro do veículo, Benson ouviu aquilo e fez sinal com a mão para que o assistente se aproximasse e lhe falou algo, bem baixo. O Sr. Dixon voltou-se para Lauryn.
"Não será possível. O menino não ficará mais longe da família a qual pertence. Então, a senhorita tem duas opções: ou vai com ele para a Mansão quando o levarmos, ou pode se despedir dele aqui mesmo."
Lauryn apertou os dedos em punhos, as unhas mesmo curtas, perfurando de leve a pele da palma. Ela não ficaria longe do filho!
"Muito bem. Eu vou," ela disse e suspirou.
Benson não disse, mas ficou confuso inicialmente: ela realmente não queria aproveitar aquela chance para viver bem na Mansão? Porém, logo em seguida, ele se deu conta de que o objetivo dela devia ser esse, parecer frágil e tê-lo ali na casa dela, até conseguir, sem a segurança da Mansão, drogá-lo de novo, talvez. E aí, ele não teria outra saída a não ser tomar responsabilidade. Uma vez, era uma coisa, mas duas vezes? Impossível chamar de 'erro'.
Quando o Bentley sumiu de vista, Lauryn soltou um longo suspiro. Ela sabia que, a partir dali, a vida dela mudaria absurdamente. Ela foi muito tola ao imaginar que poderia se ver livre dos Wingrave para sempre. Vinha se esforçando para conseguir uma promoção e uma transferência no trabalho. Ou arrumar outro emprego, em outra cidade. Seria o mais seguro. Infelizmente, ela não foi rápida o suficiente.
No dia seguinte, o Sr. Dixon levou mãe e filho até a Mansão. Na noite anterior, Lauryn conversou com Attikus sobre encontrar o pai, e o menino ficou todo animado, mas suspeitou que a mãe estivesse inventando aquilo só para deixá-lo feliz.
Ele só acreditou de verdade quando o Sr. Dixon apareceu para buscá-los. Ele não conseguia conter a felicidade, porque a partir daquele dia teria um pai. Finalmente teria um pai! Ele tinha tantas perguntas, tinha tantas coisas para fazer com aquele que ficou longe por tanto tempo!
Benson estava na Mansão e, quando Attikus o viu, ficou completamente boquiaberto. Agarrou a mão da mãe.
"Mamãe, ele não é o tio bonito que você chamou para brincar ontem?"
Lauryn se agachou, com um sorriso gentil, embora a voz estivesse longe do normal. Ela tentava esconder a dor em seu coração.
"Querido, ele é o seu pai. De verdade. Não foi uma brincadeira. E a partir de agora, você vai morar com ele," ela esperava que o filho ficasse chocado e começasse a fazer um milhão de perguntas, como sempre, mas, para sua surpresa, ele não fez.
"Então, mamãe... posso... posso chamar ele de 'papai'? Eu nunca chamei ninguém de papai antes." O menino sussurrou, e Lauryn quase chorou ali mesmo. Ela sentiu o quanto o filho precisava e esperava por um pai.
"Claro."
Depois de ouvir isso, Attikus engoliu seco e caminhou até Benson. Então, com a voz infantil, cheia de cuidado, perguntou:
"Tio, você é mesmo meu papai?"