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Entre Heranças e Silêncios
img img Entre Heranças e Silêncios img Capítulo 2 A Distância Entre Dois Mundos
2 Capítulo
Capítulo 10 A Noite do Baile img
Capítulo 11 O Silêncio das Heranças img
Capítulo 12 Helena Aprende a Escutar as Portas img
Capítulo 13 O Homem que Volta para Cobrar img
Capítulo 14 Três Linhas de Fogo img
Capítulo 15 Quando o Sangue Reconhece Antes do Nome img
Capítulo 16 O Que Se Constrói Sem Promessa img
Capítulo 17 O Erro Que Não Foi Amor img
Capítulo 18 Os Termos Não Negociáveis img
Capítulo 19 Os fios conectados por Hyunwoo Saito img
Capítulo 20 Antes do Nome img
Capítulo 21 A Mulher Que Quebrou o Clã img
Capítulo 22 O Filho Que Ficou img
Capítulo 23 O jovem Que Aprendeu a Ficar Sozinho img
Capítulo 24 O Homem Que Ficou img
Capítulo 25 O AMOR SOB ATAQUE - O Primeiro Golpe Não Deixa Marcas img
Capítulo 26 A Criança Que Não Cabia no Medo img
Capítulo 27 A Herdeira Que Escolheu o Amor img
Capítulo 28 O Sangue Não Negocia em Silêncio img
Capítulo 29 Quando um Império Ataca à Luz do Dia img
Capítulo 30 A Queda Tem Nome e o Amor Vira Arma img
Capítulo 31 Na Família Saito, Nenhuma Criança Fica Sozinha img
Capítulo 32 Quando o Portão se Fecha, a Guerra Começa img
Capítulo 33 O Nome Dito em Voz Alta img
Capítulo 34 O Perdão Que Veio Pelo Mar img
Capítulo 35 Quando a Verdade Atravessa Oceanos img
Capítulo 36 O Que Permanece img
Capítulo 37 A Segunda Vez do Amor img
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Capítulo 2 A Distância Entre Dois Mundos

Meire passou o resto do dia tentando convencer o próprio coração de que nada havia acontecido.

Nada além de um olhar prolongado. Nada além de uma voz que não soara como julgamento. Nada além de um nome - Otávio - que insistia em ecoar dentro dela como se tivesse sido gravado a fogo.

No refeitório, sentou-se na mesa mais afastada, onde as bolsistas costumavam se agrupar em silêncio. O cheiro da comida era o mesmo de sempre, mas o gosto parecia outro. Não conseguia comer. Sentia-se exposta, como se alguém tivesse acendido uma luz sobre tudo o que ela tentava esconder.

- Ele falou com você, né? - sussurrou uma das meninas, sem levantar o rosto.

Meire fingiu não ouvir.

- Falou sim. Eu vi - insistiu a outra, com um meio sorriso carregado de aviso.

- Não foi nada - respondeu, rápido demais.

Mas no Instituto Santo Antônio Além do Carmo, nada nunca era só nada.

Do outro lado do salão, Otávio almoçava cercado. Risos, comentários sobre viagens, carros, festas. Ele respondia no automático, mas sua atenção estava distante. Em intervalos quase imperceptíveis, seus olhos buscavam a última mesa perto da parede.

E sempre a encontrava.

Meire comia devagar, os ombros levemente curvados, como quem pede desculpas por ocupar espaço. Aquilo o incomodava mais do que deveria. Havia algo de profundamente errado naquele gesto - alguém tão jovem já saber desaparecer.

Quando as aulas da tarde começaram, o clima mudou.

- Trabalho em dupla - anunciou a professora de Literatura. - Tema livre, mas quero profundidade. Entrega em duas semanas.

O burburinho foi imediato. Cadeiras arrastadas, combinações rápidas, afinidades óbvias.

Meire abaixou a cabeça. Já sabia como aquilo terminaria.

- Meire - chamou a professora, consultando a lista. - Você pode fazer com seu colega Saito.

O silêncio caiu pesado sobre a sala.

Ela ergueu os olhos devagar, incrédula. Otávio também pareceu surpreso, mas se recompôs rápido.

- Claro - disse ele, antes mesmo que Meire pudesse reagir.

Os cochichos começaram imediatamente.

- Ela?

- Que absurdo...

- Aposto que foi ideia dela.

Meire sentiu o estômago revirar. Aquilo era perigoso. Muito perigoso.

No final da aula, tentou sair antes, mas foi alcançada no corredor.

- Ei - disse Otávio, sem tocá-la. Nunca tocava sem permissão. - Se quiser trocar de dupla, eu entendo.

Ela parou.

- Não - respondeu, com firmeza surpreendente até para si mesma. - Posso fazer.

Ele sorriu de leve. Não um sorriso de vitória, mas de respeito.

- Biblioteca, depois da última aula? - sugeriu.

- Pode ser.

A biblioteca ficava no prédio antigo, afastada do fluxo principal. Poucos alunos iam até lá. Era silenciosa, cheirava a papel envelhecido e tinha janelas altas que deixavam a luz entrar em faixas douradas.

Meire chegou primeiro. Sentou-se em uma mesa próxima à estante de autores brasileiros. Quando Otávio apareceu, o coração dela acelerou sem pedir permissão.

- Pensei em trabalhar Machado - ele disse, puxando a cadeira em frente a ela. - Mas não o óbvio.

- Dom Casmurro? - arriscou.

- Ciúme narrado por quem tem poder - completou ele. - Sempre achei suspeito.

Ela o olhou, surpresa.

- Ninguém fala isso aqui.

- É por isso que eu falo.

Houve um silêncio confortável. Raro. Bom.

Enquanto discutiam ideias, os cotovelos quase se tocavam. Às vezes, os dedos roçavam sem querer ao virar uma página. Pequenos acidentes que faziam o ar mudar de densidade.

- Você esconde muita coisa - disse Otávio, de repente.

Meire congelou.

- Como assim?

- Sua inteligência. Sua leitura. Seu jeito de observar antes de falar. - Ele baixou o tom. - Aqui, isso incomoda as pessoas erradas.

Ela fechou o livro devagar.

- Você não entende - respondeu. - Se eu chamar atenção, eu perco tudo.

- Tudo o quê?

- Esse lugar. Essa chance. - Seus olhos brilharam, mas ela não chorou. - Você pode errar. Eu não.

Otávio sentiu algo apertar no peito. Aquilo não lhe fora ensinado nos livros, nem no seu pequeno círculo familiar. Era uma verdade nua, impossível de ignorar.

- Eu não vou deixar ninguém te prejudicar - disse, sem pensar.

Ela sorriu triste.

- Você não pode prometer isso.

- Posso tentar.

Os olhos deles se encontraram. Pela primeira vez, não havia pressa em desviar.

Ali, naquele espaço esquecido do colégio, algo perigoso começava a nascer: confiança.

E confiança, quando atravessa muros de classe, costuma cobrar um preço alto.

Quando saíram da biblioteca, o céu já escurecia. No portão, Meire se despediu rápido.

- Até amanhã - disse, antes de ir.

Otávio ficou observando enquanto ela se afastava pela rua de pedras, entre os casarões antigos.

Ele sabia. Sentia no corpo, no instinto, no silêncio que ficou depois dela partir. Aquela aproximação não era apenas um risco para Meire. Era uma ameaça direta ao império que o esperava. E, ainda assim, ele não recuou.

Porque algumas histórias começam exatamente onde não deveriam.

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