- Tenho! Aceitarei as consequências se houver! Respondeu rapidamente Otávio. Chame sua mãe, vamos gravar defronte ao instituto. Enquanto Meire entrou para convencer Dona Maria das Dores, Otávio ligou para Dr. Cortez seu tutor e pediu para que esse entrasse em contato com as redes de TV de Salvador, marcando para em dez minutos chegarem a porta do Instituto Santo Antônio Além do Carmo.
Cortêz, já imaginava a bomba que Otávio estavas prestes a explodir, mas entendia que era preciso Otávio mostrar a seu pai, que mesmo com sua ausência ele tornou-se um homem que entende que o poder não deve ser usado para menosprezar os mais fracos. Depois, de um minuto em silêncio, ele disse faça Revolução e deixe o restante comigo, vou investigar o desembargador Luís Augusto Becker, tentar cavar algum desvio de conduta para vingar você, a ligação foi encerrada, e cada um foi dar conta da sua parte.
Otávio estacionou o carro na esquina do Instituto já tomada por vans das empresas de telecomunicações mais influentes de Salvador, conduziu Meire e sua mãe até a frente de todos. Pediu um minuto de silêncio se apresentou, e fez um pequeno resumo da situação, frizando bem que o que estava acontecendo dentro do muro do Instituto era racismo ambiental e estrutural, uma aluna bolsista, estava sendo acuada pela filha do Desembargador Luís Augusto Becker, que acha que a menina não tem méritos para estudar na instituição, e a instituição estava sendo conivente com a situação, ao invés de enfrentar e fazer justiça.
- Estão tentando transformar o direito da minha filha em suspeita - disse Meire. - Isso tem nome: perseguição institucional.
Os jornalistas anotavam.
- Não peço favores - continuou. - Exijo transparência. E aviso: qualquer nova tentativa de intimidação será tratada publicamente.
Meire pediu a fala.
O silêncio foi imediato.
- Eu só quero aprender - disse. - E quero aprender sem medo. Se isso incomoda alguém, o problema não sou eu.
A frase correu rápido.
Redes.
Grupos.
Mensagens privadas.
O ataque perdera o terreno do segredo.
A notícia de capa dos jornais impressos, traziam Herdeiro do Grupo Educacional Janguiê declara guerra contra a administração do Instituto Santo Antônio Além do Carmo.
No resumo da notícia: O Jovem Otávio Janguiê Saito, filho de um dos acionistas do Instituto Santo Antônio Além do Carmo, estaria abrindo uma ação de difamação contra a aluna Rebeca Becker por manipulação de imagens, incitação de ódio e bullying, e ao Instituto por perseguição e discriminação e omissão. Nessa hora ele mostrou a todos imagens obtidas com a funcionária da limpeza que horrorizada saiu aos gritos do banheiro, e a foto era uma prova clara do racismo que a aluna estava sendo submetida, na foto estava a imagem do espelho do banheiro escrito de batom "Volta para seu mundo MACACA".
E esse foi o início da derrocada do Instituto Santo Antônio Além do Carmo, uma das escolas de maior prestígio de Salvador, sendo a mais antiga e localizada na area do Mosteiro de Santo Antônio Além do Carmo, uma instituição público-privada, que tinha seu sistema de bolsas como contrapartida social, mas; que servia apenas para os filhos das famílias nobres praticarem racismo recreativo.
Meire passou a noite em claro, de tempo em tempo, olhava a repercussão da entrevista, nos comentários muitas mensagens de apoio, e outras que pareciam de robôs pagos por alguém para insultar ela e mãe, cansada deixou as redes sociais de mão e começou a refletir vendo o céu clarear aos poucos pelas gretas da janela.
O teto do quarto parecia mais baixo, como se o mundo estivesse se fechando lentamente sobre ela. A decisão da audiência ecoava em sua cabeça com a mesma frieza com que fora anunciada - administrativa, impessoal, definitiva.
A bolsa não estava perdida ainda.
Mas o aviso estava dado, permanecer ali não era opção.
Ela sentou-se na beira da cama antes do amanhecer, observando a mãe dormir na cadeira ao lado.
O rosto cansado, as mãos marcadas pelo trabalho, a respiração irregular. Tudo aquilo existia porque Meire insistira em acreditar que merecia estar onde nunca a quiseram.
Sentiu culpa.
Sentiu raiva.
Sentiu medo.
Quando o dia clareou, tomou uma decisão silenciosa.
Arrumou a mochila devagar. Tirou os livros do Instituto. Guardou apenas os cadernos. Dobrou o uniforme e colocou no fundo da gaveta, como quem enterra algo sem cerimônia.
Não pisaria mais lá.
Otávio tentou ligar três vezes naquela manhã. Ela não atendeu. Não por frieza, mas por proteção.
Se falasse com ele, poderia desistir. E desistir agora seria se despedaçar em público.
No fim da tarde, porém, ele apareceu.
Parado do outro lado da rua, encostado no carro, o rosto tenso demais para alguém da idade dele.
Meire o viu pela janela antes que ele tocasse a campainha.
O coração traiu o plano.
Ela saiu.
- Você não foi hoje - disse ele, sem rodeios.
- Não vou mais - respondeu.
A simplicidade da frase doeu mais do que qualquer discussão.
- Eles não podem fazer isso - insistiu. - A opinião pública está a seu favor-
- Não - ela interrompeu. - Eles já fizeram, eu sei que voltar, será pior.
Otávio respirou fundo, tentando conter a frustração.
- Então você vai embora assim? - perguntou. - Vai deixar que eles te apaguem?
Meire deu um passo à frente.
- Eles não me apagaram - disse, firme. - Eles me expulsaram. É diferente.
O silêncio caiu entre eles como um muro recém-erguido.
- Eu não posso mais te ver - continuou ela, com a voz baixa. - Cada vez que me ligam a você, eu perco um pouco do que ainda tenho.
Otávio sentiu como se tivesse levado um golpe no peito.
- Isso é o que você quer?
Ela hesitou. Só um segundo. Mas ele percebeu.
- Não - confessou. - Mas é o que eu preciso.
O vento passou entre eles, carregando o cheiro do mar distante. Salvador continuava ali, indiferente àquela ruptura.
- Eu não sei ser metade - disse ele. - Não sei fingir que você não importa.
Meire engoliu em seco.
- Eu sei - respondeu. - Aprendi cedo.
Ele se aproximou um pouco mais. Parou antes de tocar.
- Me diz que isso é só um tempo.
Ela fechou os olhos.
- Me diz você que vai sobreviver se eu disser que talvez não.
Otávio não respondeu.
Os olhos deles se encontraram pela última vez naquele dia. Havia desejo ali. Havia promessa.
Havia uma pergunta sem resposta.
Ele se inclinou levemente, como se fosse dizer algo mais - ou fazer algo que ambos sabiam ser perigoso demais; mas, parou.
- Eu vou te encontrar de novo - disse. Não como pedido. Como certeza. A ação foi impetrada, Dr. Cortez conseguiu um advogado que vai lutar por uma indenização e reparação pública, sei que não resolve, mas caso você não queira voltar ao Instituto vai garantir que você estude em outro lugar sem se preocupar.
Meire sentiu o peito apertar.
- Talvez - respondeu. - Mas não agora.
Virou-se antes que ele pudesse ver as lágrimas.
Otávio ficou ali, parado, enquanto ela desaparecia para dentro de casa. Pela primeira vez, entendeu que amar alguém fora do próprio mundo exigia mais do que coragem. Exigia perder.
Naquela noite, Meire escreveu uma carta que nunca entregaria. Falava de sonhos interrompidos, de dignidade, de amor que não cabia em silêncio.
Dobrou o papel e guardou no fundo da mochila.
Dias depois, pegou um ônibus até o Ferry Boat deixando Salvador para trás, rumo a casa de sua madrinha na Ilha de Itaparica .
Durante o trajeto, Meire percebeu que aprendera da pior forma possível que ficar também pode ser uma forma de se destruir.
E, do outro lado da cidade, um herdeiro começava a entender que o império que o esperava havia sido construído sobre ausências.
Nada estava encerrado.
Apenas separado pelo tempo.