E Rebeca jamais permitia vencedores que não fossem ela.
Meire passou o semestre na casa da madrinha, e voltou a Salvador para o encerramento do ano letivo, como foi proposto pelo conselho, e no período afastada ela faria as atividades complementares, através do ambiente virtual.
Naquela mesma manhã, enquanto Meire ajudava a mãe a separar roupas para lavar, sentiu o celular vibrar repetidas vezes. Ignorou. Trabalho vinha antes de qualquer curiosidade.
Até que a vizinha, com o olhar constrangido, chamou da porta.
- Meire... você viu o que estão dizendo de você?
O estômago dela gelou.
Pegou o celular.
Mensagens.
Prints.
Links.
Seu nome circulava em grupos da escola, em perfis anônimos, em comentários sussurrados que agora ganhavam forma pública.
Uma nova versão da mentira.
Diziam que o afastamento não fora por investigação. Diziam que ela havia sido retirada por conduta imprópria. Que existia algo mais. Que Otávio a defendera por vergonha. Que ela se aproveitara da própria condição para se aproximar dele.
Meire sentiu o chão desaparecer.
- Isso não é verdade... - sussurrou, mais para si do que para qualquer um.
A mãe, percebendo o silêncio estranho, aproximou-se.
- Filha?
Meire não mostrou a tela. Não suportaria ver aquele olhar adoecer ainda mais.
- Só fofoca de adolescente - mentiu.
Mas por dentro, algo se partia.
Otávio chegou à escola pouco depois do intervalo e percebeu imediatamente o clima. Olhares desviados. Cochichos. Riso contido.
Rodrigo foi direto.
- Cara... soltaram outra coisa sobre a Meire.
Otávio não esperou terminar.
Entrou na diretoria como um furacão.
- Quem autorizou isso? - exigiu, jogando o celular sobre a mesa. - Isso é perseguição!
Dom Abelardo, que assumiu a direção substituindo a antiga diretora afastada, após a denúncia, manteve a postura rígida.
- Jovem Otávio, recomendo-
- Recomendo eu que o senhor faça alguma coisa! - interrompeu. - Ou essa escola vai declarar falência.
O bispo estreitou os olhos.
- Você está ultrapassando limites.
- Eu estou criando limites - respondeu Otávio, com a voz controlada demais para alguém tão jovem.
Saiu dali decidido.
Foi até a casa de Rebeca naquela tarde.
Ela o recebeu com um sorriso ensaiado, vestida como se fosse apenas mais um dia comum.
- Otávio... que surpresa.
- Para de fingir - disse ele. - Eu sei que foi você novamente.
Rebeca riu baixo.
- Você sempre foi inteligente. Pena que demorou.
- Por quê? - perguntou, a voz carregada de decepção. - Por que fazer isso com ela?
Ela deu de ombros.
- Porque você olhou pra ela - respondeu. - E nunca olhou assim pra mim.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
- Apaga tudo - exigiu ele.
- Não posso - mentiu. - A internet tem vida própria.
Otávio se aproximou, o olhar firme.
- Se algo mais acontecer com ela, eu destruo tudo o que você construiu. Nome, reputação, futuro. Tudo. Vou te colocar numa situação tão deplorável, que você jamais se recuperará, e vou começar derrubando seu pai!
Pela primeira vez, Rebeca sentiu medo.
Mas não recuou.
- Você não vai escolher uma ninguém no lugar do seu mundo - provocou. - Isso não acaba bem.
Ele virou-se sem responder.
Naquela noite, Meire recebeu uma ligação inesperada.
- Meire? - era Dom Abelardo, seu padrinho. - Precisamos conversar. Surgiram novos comentários... te proteger está além das minhas forças, não sei se essa situação se resolverá até o final do ano, o conselho está uma bagunça, talvez seja melhor, para sua segurança, você não comparecer à cerimônia de formatura.
A frase caiu como sentença.
Depois que desligou, Meire sentou no chão da cozinha e chorou em silêncio.
Tudo o que havia sonhado parecia ter sido arrancado.
Horas depois, Otávio apareceu.
Sem avisar.
Sem discurso.
Apenas a presença.
Ela abriu a porta e não disse nada. Ele também não.
O abraço aconteceu como se fosse inevitável.
- Eu sinto muito - murmurou ele, contra o cabelo dela.
- Não é sua culpa - respondeu, embora parte dela soubesse que era.
Ficaram assim por longos minutos.
- Eu vou embora depois da formatura, já havia comprado a passagem - disse Meire, enfim. - Vou para longe.
Otávio fechou os olhos.
- Então fica comigo essa noite.
Ela o encarou, surpresa.
- Não desse jeito - explicou. - Só... fica.
Meire hesitou. Sabia que aquela escolha teria consequências. Mas também sabia que estava cansada de perder tudo sozinha.
- Eu fico.
Naquela noite, enquanto Salvador adormecia, duas pessoas decidiram se agarrar ao pouco que ainda lhes restava.
Sem saber que aquele seria o último momento de inocência.
E que a mentira de Rebeca ainda cobraria um preço alto demais, mas ela não imaginava que também seria atingida.
Na manhã seguinte o castelo de Rebeca Becker começa a ser desmontado, notícia do Jornal Aqui e Agora trás na capa: "Policia Federal acessa celulares de Luís Becker, desembargador preso, o magistrado vinha atuando muito mais como um articulador político do que como relator do processo contra o ex-deputado João das Neves, preso nesta semana sob acusação de obstruir investigações sobre a ramificação do Bonde do Maluco na Assembleia Legislativa da Bahia".
A princesa dormiu rica e acordou com as contas da família e com os bens bloqueados. Afinal, o mundo não gira ele capota!