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Entre Heranças e Silêncios
img img Entre Heranças e Silêncios img Capítulo 9 A Última Mentira
9 Capítulo
Capítulo 10 A Noite do Baile img
Capítulo 11 O Silêncio das Heranças img
Capítulo 12 Helena Aprende a Escutar as Portas img
Capítulo 13 O Homem que Volta para Cobrar img
Capítulo 14 Três Linhas de Fogo img
Capítulo 15 Quando o Sangue Reconhece Antes do Nome img
Capítulo 16 O Que Se Constrói Sem Promessa img
Capítulo 17 O Erro Que Não Foi Amor img
Capítulo 18 Os Termos Não Negociáveis img
Capítulo 19 Os fios conectados por Hyunwoo Saito img
Capítulo 20 Antes do Nome img
Capítulo 21 A Mulher Que Quebrou o Clã img
Capítulo 22 O Filho Que Ficou img
Capítulo 23 O jovem Que Aprendeu a Ficar Sozinho img
Capítulo 24 O Homem Que Ficou img
Capítulo 25 O AMOR SOB ATAQUE - O Primeiro Golpe Não Deixa Marcas img
Capítulo 26 A Criança Que Não Cabia no Medo img
Capítulo 27 A Herdeira Que Escolheu o Amor img
Capítulo 28 O Sangue Não Negocia em Silêncio img
Capítulo 29 Quando um Império Ataca à Luz do Dia img
Capítulo 30 A Queda Tem Nome e o Amor Vira Arma img
Capítulo 31 Na Família Saito, Nenhuma Criança Fica Sozinha img
Capítulo 32 Quando o Portão se Fecha, a Guerra Começa img
Capítulo 33 O Nome Dito em Voz Alta img
Capítulo 34 O Perdão Que Veio Pelo Mar img
Capítulo 35 Quando a Verdade Atravessa Oceanos img
Capítulo 36 O Que Permanece img
Capítulo 37 A Segunda Vez do Amor img
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Capítulo 9 A Última Mentira

Rebeca Becker nunca perdeu bem.

Ela aceitava a derrota apenas quando podia reescrevê-la a seu favor - nem que para isso precisasse destruir alguém pelo caminho.

Sentada no quarto impecavelmente organizado, ela observava a tela do celular com um sorriso frio. As imagens estavam prontas havia dias. Ajustadas, recortadas, manipuladas com o cuidado de quem entende que a verdade importa menos do que a aparência.

Meire Souza não voltara à escola.

Para Rebeca, aquilo não era recuo.

Era provocação.

- Ela acha que ganhou - murmurou para si mesma.

E Rebeca jamais permitia vencedores que não fossem ela.

Meire passou o semestre na casa da madrinha, e voltou a Salvador para o encerramento do ano letivo, como foi proposto pelo conselho, e no período afastada ela faria as atividades complementares, através do ambiente virtual.

Naquela mesma manhã, enquanto Meire ajudava a mãe a separar roupas para lavar, sentiu o celular vibrar repetidas vezes. Ignorou. Trabalho vinha antes de qualquer curiosidade.

Até que a vizinha, com o olhar constrangido, chamou da porta.

- Meire... você viu o que estão dizendo de você?

O estômago dela gelou.

Pegou o celular.

Mensagens.

Prints.

Links.

Seu nome circulava em grupos da escola, em perfis anônimos, em comentários sussurrados que agora ganhavam forma pública.

Uma nova versão da mentira.

Diziam que o afastamento não fora por investigação. Diziam que ela havia sido retirada por conduta imprópria. Que existia algo mais. Que Otávio a defendera por vergonha. Que ela se aproveitara da própria condição para se aproximar dele.

Meire sentiu o chão desaparecer.

- Isso não é verdade... - sussurrou, mais para si do que para qualquer um.

A mãe, percebendo o silêncio estranho, aproximou-se.

- Filha?

Meire não mostrou a tela. Não suportaria ver aquele olhar adoecer ainda mais.

- Só fofoca de adolescente - mentiu.

Mas por dentro, algo se partia.

Otávio chegou à escola pouco depois do intervalo e percebeu imediatamente o clima. Olhares desviados. Cochichos. Riso contido.

Rodrigo foi direto.

- Cara... soltaram outra coisa sobre a Meire.

Otávio não esperou terminar.

Entrou na diretoria como um furacão.

- Quem autorizou isso? - exigiu, jogando o celular sobre a mesa. - Isso é perseguição!

Dom Abelardo, que assumiu a direção substituindo a antiga diretora afastada, após a denúncia, manteve a postura rígida.

- Jovem Otávio, recomendo-

- Recomendo eu que o senhor faça alguma coisa! - interrompeu. - Ou essa escola vai declarar falência.

O bispo estreitou os olhos.

- Você está ultrapassando limites.

- Eu estou criando limites - respondeu Otávio, com a voz controlada demais para alguém tão jovem.

Saiu dali decidido.

Foi até a casa de Rebeca naquela tarde.

Ela o recebeu com um sorriso ensaiado, vestida como se fosse apenas mais um dia comum.

- Otávio... que surpresa.

- Para de fingir - disse ele. - Eu sei que foi você novamente.

Rebeca riu baixo.

- Você sempre foi inteligente. Pena que demorou.

- Por quê? - perguntou, a voz carregada de decepção. - Por que fazer isso com ela?

Ela deu de ombros.

- Porque você olhou pra ela - respondeu. - E nunca olhou assim pra mim.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

- Apaga tudo - exigiu ele.

- Não posso - mentiu. - A internet tem vida própria.

Otávio se aproximou, o olhar firme.

- Se algo mais acontecer com ela, eu destruo tudo o que você construiu. Nome, reputação, futuro. Tudo. Vou te colocar numa situação tão deplorável, que você jamais se recuperará, e vou começar derrubando seu pai!

Pela primeira vez, Rebeca sentiu medo.

Mas não recuou.

- Você não vai escolher uma ninguém no lugar do seu mundo - provocou. - Isso não acaba bem.

Ele virou-se sem responder.

Naquela noite, Meire recebeu uma ligação inesperada.

- Meire? - era Dom Abelardo, seu padrinho. - Precisamos conversar. Surgiram novos comentários... te proteger está além das minhas forças, não sei se essa situação se resolverá até o final do ano, o conselho está uma bagunça, talvez seja melhor, para sua segurança, você não comparecer à cerimônia de formatura.

A frase caiu como sentença.

Depois que desligou, Meire sentou no chão da cozinha e chorou em silêncio.

Tudo o que havia sonhado parecia ter sido arrancado.

Horas depois, Otávio apareceu.

Sem avisar.

Sem discurso.

Apenas a presença.

Ela abriu a porta e não disse nada. Ele também não.

O abraço aconteceu como se fosse inevitável.

- Eu sinto muito - murmurou ele, contra o cabelo dela.

- Não é sua culpa - respondeu, embora parte dela soubesse que era.

Ficaram assim por longos minutos.

- Eu vou embora depois da formatura, já havia comprado a passagem - disse Meire, enfim. - Vou para longe.

Otávio fechou os olhos.

- Então fica comigo essa noite.

Ela o encarou, surpresa.

- Não desse jeito - explicou. - Só... fica.

Meire hesitou. Sabia que aquela escolha teria consequências. Mas também sabia que estava cansada de perder tudo sozinha.

- Eu fico.

Naquela noite, enquanto Salvador adormecia, duas pessoas decidiram se agarrar ao pouco que ainda lhes restava.

Sem saber que aquele seria o último momento de inocência.

E que a mentira de Rebeca ainda cobraria um preço alto demais, mas ela não imaginava que também seria atingida.

Na manhã seguinte o castelo de Rebeca Becker começa a ser desmontado, notícia do Jornal Aqui e Agora trás na capa: "Policia Federal acessa celulares de Luís Becker, desembargador preso, o magistrado vinha atuando muito mais como um articulador político do que como relator do processo contra o ex-deputado João das Neves, preso nesta semana sob acusação de obstruir investigações sobre a ramificação do Bonde do Maluco na Assembleia Legislativa da Bahia".

A princesa dormiu rica e acordou com as contas da família e com os bens bloqueados. Afinal, o mundo não gira ele capota!

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