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Entre Heranças e Silêncios
img img Entre Heranças e Silêncios img Capítulo 1 O Instituto Santo Antônio Além do Carmo
1 Capítulo
Capítulo 10 A Noite do Baile img
Capítulo 11 O Silêncio das Heranças img
Capítulo 12 Helena Aprende a Escutar as Portas img
Capítulo 13 O Homem que Volta para Cobrar img
Capítulo 14 Três Linhas de Fogo img
Capítulo 15 Quando o Sangue Reconhece Antes do Nome img
Capítulo 16 O Que Se Constrói Sem Promessa img
Capítulo 17 O Erro Que Não Foi Amor img
Capítulo 18 Os Termos Não Negociáveis img
Capítulo 19 Os fios conectados por Hyunwoo Saito img
Capítulo 20 Antes do Nome img
Capítulo 21 A Mulher Que Quebrou o Clã img
Capítulo 22 O Filho Que Ficou img
Capítulo 23 O jovem Que Aprendeu a Ficar Sozinho img
Capítulo 24 O Homem Que Ficou img
Capítulo 25 O AMOR SOB ATAQUE - O Primeiro Golpe Não Deixa Marcas img
Capítulo 26 A Criança Que Não Cabia no Medo img
Capítulo 27 A Herdeira Que Escolheu o Amor img
Capítulo 28 O Sangue Não Negocia em Silêncio img
Capítulo 29 Quando um Império Ataca à Luz do Dia img
Capítulo 30 A Queda Tem Nome e o Amor Vira Arma img
Capítulo 31 Na Família Saito, Nenhuma Criança Fica Sozinha img
Capítulo 32 Quando o Portão se Fecha, a Guerra Começa img
Capítulo 33 O Nome Dito em Voz Alta img
Capítulo 34 O Perdão Que Veio Pelo Mar img
Capítulo 35 Quando a Verdade Atravessa Oceanos img
Capítulo 36 O Que Permanece img
Capítulo 37 A Segunda Vez do Amor img
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Entre Heranças e Silêncios

Autor: Lis Flor
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Capítulo 1 O Instituto Santo Antônio Além do Carmo

O sino do Instituto Santo Antônio Além do Carmo tocava sempre dois minutos antes do horário oficial. Não era pressa - era aviso. Ali, quem chegava atrasado aprendia rápido que tempo, assim como dignidade, era privilégio de poucos.

Meire atravessou o portão de ferro segurando a alça da mochila com força. Não por peso, mas por hábito. O prédio colonial se impunha diante dela como um lembrete diário de que aquele espaço não fora feito para corpos como o seu. As paredes claras, os corredores amplos e silenciosos, os quadros de ex-diretores - todos homens brancos, todos mortos - pareciam observá-la passar.

- Bom dia - disse, quase num sussurro, ao segurança.

Ele não respondeu. Nunca respondia.

Meire caminhou pelo pátio tentando se misturar ao fluxo de estudantes. Meninas de cabelo perfeitamente alinhado, sapatos caros, mochilas importadas. Meninos com sobrenomes fortes, risadas altas e a certeza de que o mundo lhes pertencia. Ela conhecia bem aquele roteiro: passar despercebida era uma estratégia de sobrevivência.

- Olha lá a bolsista... - cochichou uma voz atrás dela.

Não virou. Nunca virava.

Desde o primeiro dia, aprendera que reagir só tornava tudo pior. O Instituto Santo Antônio Além do Carmo tinha regras não escritas, e a principal delas era clara: bolsistas não reclamam.

Meire sentou-se na última fileira da sala de aula, perto da janela. Gostava dali porque podia olhar o mar ao longe, quando a mente ameaçava fugir do corpo. Abriu o caderno, alinhou a caneta sobre a mesa e respirou fundo. Mais um dia.

A porta se abriu com um leve atraso. O murmúrio foi imediato.

Otávio Janguiê Saito entrou sem pressa, como se o mundo estivesse perfeitamente ajustado ao seu ritmo. Alto, postura impecável, uniforme usado com um desleixo calculado. Filho do maior empresário do ramo de exportações do Nordeste, sua falecida mãe herdeira do Grupo Janguiê Educacional uma holding internacional ligada ao YDUK Group, neto de um coreano rígido e temido, Otávio carregava um tipo de silêncio que impunha respeito, e com isso o alvo de toda menina de família abastada que ali estudava.

Ele não sorria muito. Também não precisava.

Passou os olhos pela sala antes de se sentar, gesto automático, quase entediado. Foi quando seus olhos cruzaram, por um segundo, os de Meire. Ela desviou imediatamente. Otávio, não.

Algo naquela menina - talvez o jeito de desaparecer - chamou sua atenção. Não era beleza óbvia, não era o tipo que fazia os outros comentarem. Era outra coisa. Um cansaço precoce. Uma dignidade ferida, mas ainda em pé.

Na mesma hora, Otávio lembrou do trecho da música de Gilberto Gil :

" Toda menina baiana tem um santo que Deus dá,

Toda menina baiana tem o encanto que Deus dá

Toda menina baiana tem um jeito que Deus dá

Toda menina baiana tem defeito também ... que Deus dá"

Seus pensamentos foram interrompidos pelo anúncio do professor de inglês...

- Abram o livro na página 42

Meire obedeceu rápido. Inglês era sua melhor matéria, apesar de fingir dificuldade. Aprendera cedo que se destacar demais era perigoso. Ser boa demais era quase um insulto naquele lugar.

- Senhorita Meire, poderia ler o primeiro parágrafo?

O coração dela disparou. Levantou o olhar devagar, consciente dos cochichos que se espalhavam como veneno.

- I... I think... - começou, propositalmente hesitante.

- Pode ler, querida - insistiu o professor, já impaciente.

Ela leu. Com erros calculados, sotaque disfarçado, olhos baixos.

Otávio observava em silêncio.

Algo não se encaixava. Ele conhecia inglês suficiente para perceber: aquela leitura era ensaiada demais para ser ruim de verdade.

Quando a aula terminou, Meire recolheu suas coisas rapidamente. Não queria cruzar com ninguém. Mas ao sair, esbarrou em um corpo firme.

- Desculpa - murmurou, sem levantar o rosto.

- Tudo bem.

A voz era calma. Masculina. Diferente.

Ela ergueu os olhos.

Otávio.

Por um instante, o mundo pareceu suspenso.

- Você fala inglês melhor do que deixou parecer - ele disse, sem acusação. Apenas constatação.

Meire sentiu o rosto queimar.

- Eu... preciso ir.

Tentou passar, mas ele se afastou o suficiente para deixá-la ir, sem pressionar.

- Meu nome é Otávio - disse, antes que ela se afastasse de vez. - Caso precise de ajuda com... qualquer coisa.

Ela assentiu, sem saber o que responder, e saiu quase correndo pelo corredor.

Otávio ficou parado, observando-a desaparecer entre os arcos do prédio.

Naquele momento, sem saber explicar por quê, ele teve certeza de uma coisa:

aquela menina invisível carregava uma história que ninguém ali estava preparado para enfrentar.

E, pela primeira vez, ele sentiu vontade de desobedecer às regras do seu mundo.

            
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