"Como você sabe o que ela queria?", perguntei, minha voz soando como se viesse de quilômetros debaixo d'água. Eu não conseguia desviar o olhar das mãos de Elena. As unhas estavam quebradas. A pele estava marcada de onde Sofia as esmagara sob o salto.
"Eu apenas sei", disse Sofia, verificando o relógio de diamantes em seu pulso. "O crematório fecha em uma hora. Eu já liguei para eles. Eles podem nos encaixar."
Virei-me lentamente para olhá-la. "Você ligou para eles?"
"Para te ajudar", disse ela rapidamente, seus olhos se arregalando em falsa inocência. "Para cuidar da logística. Você está de luto pela... pela perda de sua vingança. Eu entendo."
"Espere", disse o médico legista.
Era o Dr. Aris, um homem idoso que servira a família Vitiello por trinta anos. Ele estava cortando cuidadosamente a camisa de Elena para remover os dispositivos médicos presos ao seu tronco.
Ele parou, seu bisturi pairando no ar.
"O que foi?", perguntei, o ar de repente rarefeito em meus pulmões.
"Chefe", disse o Dr. Aris, franzindo a testa. Ele apontou para a cicatriz no peito de Elena. Era uma linha longa e irregular em zíper descendo seu esterno. "Esta cicatriz é antiga. Três anos, talvez mais."
"Ela teve insuficiência cardíaca", eu disse impacientemente, minha paciência se esgotando. "Ela precisava de um transplante, mas nunca conseguiu."
"Não", disse o Dr. Aris. Ele gentilmente afastou a pele para revelar a verdade.
Eu recuei.
"Ela não precisava de um transplante", disse o Dr. Aris, sua voz tremendo ligeiramente. "Ela *fez* um transplante. Mas não para receber um coração."
Ele apontou para a cavidade. "Ela teve um DAV implantado porque seu coração foi danificado. Mas olhe para as cicatrizes nos rins."
"Rins?" Aproximei-me, o frio da sala se infiltrando em meus ossos.
"Ela tem apenas um rim", disse o Dr. Aris. "E o tecido cicatricial... corresponde à linha do tempo da sua cirurgia, Dante."
A sala parou de girar. Não apenas parou; solidificou-se em uma clareza aterrorizante.
Três anos atrás. Fui baleado. Meus rins falharam. Eu precisava de um transplante imediatamente. Fiquei em coma. Quando acordei, Sofia estava lá. Ela me disse que me deu seu rim. Ela me mostrou uma cicatriz tênue em seu lado.
"Examine Sofia", eu disse, minha voz mortalmente calma.
"O quê?", Sofia gritou. "Dante, você está louco? Meu coração! Estou me sentindo fraca!"
Ela agarrou o peito e desabou contra o batente da porta, uma performance que eu já vira mil vezes. "Está acontecendo de novo! Meu coração está falhando!"
O Dr. Aris caminhou até ela. Ele não ofereceu conforto. Ele agarrou seu pulso com desapego clínico. Ele colocou um estetoscópio em seu peito.
Sofia lamentou: "Preciso de um médico! Fique longe de mim!"
O Dr. Aris ouviu por dez segundos. Então ele se endireitou, removendo os fones de ouvido. Ele me olhou com uma expressão grave.
"O coração dela está forte como um cavalo, Dante", disse o Dr. Aris. "E não vejo cicatrizes cirúrgicas em seu flanco consistentes com uma nefrectomia. A pele dela é impecável."
Olhei para Sofia. Ela parou de lamentar instantaneamente. Seu rosto ficou pálido, não de doença, mas de terror primitivo.
Olhei de volta para o corpo na mesa. A mulher com um rim. A mulher que arruinou o próprio coração para sobreviver à cirurgia para me salvar. A mulher que eu torturei por semanas. A mulher que chamei de traidora.
A mulher que salvou minha vida.
"Verifique o DNA", sussurrei, minha voz quebrando sob o peso da verdade. "Compare o rim dentro de mim com o corpo na mesa."
"Posso fazer isso agora mesmo", disse o Dr. Aris em voz baixa. "Mas Dante... não preciso de um teste para te dizer o que você já sabe."
Caminhei até Elena. Toquei a cicatriz fria em seu peito. Traçando o mapa de seu sacrifício.
A percepção foi uma agonia física. Parecia que alguém havia enfiado a mão no meu peito e arrancado o órgão que ela havia salvado.
Eu a matei.
Passei cinco anos odiando a única pessoa que já me amou de verdade. E passei cinco anos adorando a rata que roubou seu crédito.
Virei-me para Sofia.
Ela estava recuando em direção à porta, as mãos tremendo. "Dante, espere. Deixe-me explicar. É complicado..."
"Tranquem a porta", eu disse aos guardas do lado de fora.
A fechadura clicou com a finalidade de um tiro.
Caminhei em direção a Sofia. Não corri. Caminhei com passos lentos e pesados. Os passos de um homem caminhando para o inferno.
"Você queria um coração, Sofia?", perguntei suavemente.
"Dante, por favor!" Ela caiu de joelhos, arranhando os azulejos do chão.
"Você queria ser a vítima?" Estendi a mão e a agarrei pela garganta, sentindo seu pulso vibrar contra minha palma. "Parabéns. Você conseguiu o papel."