"Limpe isso", ordenou Dante. Ele estava sentado na cabeceira da ilha, lendo um jornal, sem nem mesmo olhar para a queimadura que deixava minha pele vermelha e empolada.
Eu me ajoelhei.
Minha bolsa do DAV bateu no meu quadril, a bateria pesada arrastando o cós do uniforme de empregada que eu fora forçada a vestir.
*Zumbido-clique-zumbido.*
Era o único som na sala, além do raspar dos cacos de cerâmica.
"Faltou um pedaço", disse Sofia.
Ela se levantou, seu salto alto descendo com força na minha mão.
Eu arquejei, mordendo o lábio até o gosto de cobre encher minha boca. Ela moeu o salto nas minhas juntas, torcendo-o para causar o máximo de dor.
"Dante", ela choramingou, virando-se para ele com olhos grandes e inocentes. "Ela está me olhando como se quisesse me matar."
Dante ergueu os olhos bruscamente. Ele viu sua noiva - a mulher que ele acreditava ter salvado sua vida - sendo encarada pela filha do assassino de seu pai.
Ele se levantou, cruzou a distância em duas passadas predatórias e enterrou a bota nas minhas costelas.
O ar saiu dos meus pulmões em uma golfada violenta. Eu me encolhi em uma bola, agarrando meu lado onde o tubo entrava no meu abdômen. A agonia explodiu, branca e ofuscante.
"Nunca mais olhe para ela com desrespeito", rosnou Dante.
Ele me agarrou pelos cabelos, me arrastando pelo chão. "Você precisa se acalmar."
Ele me arrastou pelos corredores, passando pelos olhares julgadores dos retratos de seus ancestrais, até o porão. Ele chutou a pesada porta de aço da câmara frigorífica industrial - A Câmara Fria.
Ele me atirou para dentro.
Eu deslizei pelo chão de metal congelado, batendo em uma carcaça de boi pendurada. O frio me atingiu instantaneamente. Não era apenas frio; era uma agressão física. Minha circulação já era ruim por causa da bomba. O frio era perigoso. Engrossava o sangue. Fazia a máquina trabalhar mais.
"Dante", eu bati os dentes, que se chocavam. "A bateria... o frio a descarrega..."
"Ótimo", disse ele, com a mão na maçaneta. "Pense no seu pai enquanto congela."
A porta bateu. A escuridão me engoliu.
Eu me encolhi no canto, puxando os joelhos contra o peito em uma tentativa fútil de conservar o calor. O frio mordia meus ossos.
À medida que a hipotermia se instalava, a realidade se turvava. Vi Dante de três anos atrás, sentado ao lado da minha cama de hospital, segurando minha mão, prometendo-me o para sempre.
*"Eu queimaria o mundo por você, Elena."*
Agora, ele era o fogo, e eu era a bruxa queimando na fogueira.
O tempo perdeu o sentido. Meus dedos ficaram azuis. O *zumbido-clique-zumbido* da bomba do meu coração começou a desacelerar, o ritmo lutando contra o sangue que engrossava.
*Bip. Bip. Bip.*
O alarme de bateria fraca.
Fechei os olhos, acolhendo o silêncio.
De repente, a porta foi escancarada. Uma luz forte inundou o local. Um guarda estava lá, parecendo apavorado.
"O chefe mandou trazê-la para cima. Sofia cortou o dedo. Ela precisa de um curativo."
Ele me arrastou para fora. Eu não conseguia andar; minhas pernas eram blocos de gelo. Ele me largou no corredor.
Dante estava lá, enrolando cuidadosamente um pequeno band-aid no dedo indicador de Sofia, e depois beijando a ponta com ternura.
Ele olhou para mim, tremendo violentamente no chão, meus lábios azuis, minha pele cinza.
"Ela está viva?", ele perguntou ao guarda, parecendo desapontado.
"Por pouco, chefe."
Dante se virou de volta para Sofia. "Vamos para o hospital só por segurança, *amore*. Um corte pode infeccionar."
Ele passou por cima de mim.
Fiquei ali no chão frio, observando suas costas se afastarem. Tirei meu celular do bolso com os dedos rígidos e trêmulos. A tela se acendeu no corredor escuro.
Seis dias restantes.