As Altas Famílias estavam lá - os Russos, os Gambinos. Todos sabiam quem eu era. Eles sussurravam atrás das mãos, seus olhos dardejando de Dante para mim como abutres circulando uma carcaça.
"Olhe para a filha do traidor", uma mulher sussurrou alto o suficiente para eu ouvir.
"Como ele a deixa viver?"
"Ele está brincando com a comida", respondeu o marido dela, rindo sombriamente.
Dante estava no centro da sala, Sofia agarrada ao seu braço como um parasita. Ela estava usando o *meu* vestido. O Sandro Barros personalizado que eu havia desenhado para o meu casamento.
Ficava solto em sua estrutura esguia, mas ela o usava com um orgulho presunçoso e possessivo.
"Atenção a todos", a voz de Dante trovejou, silenciando instantaneamente a sala.
Ele se virou para Sofia, sua expressão suavizando-se em uma máscara de adoração. "À minha salvadora. A mulher que me deu um coração quando o meu estava falhando."
Aplausos ecoaram ao meu redor. Parecia um golpe físico no peito. *Eu* lhe dei a vida. *Eu* fiquei naquela cama de hospital por meses enquanto ele se recuperava. E agora, ele estava agradecendo à ladra.
"Eu tenho um presente", disse Dante. Ele estalou os dedos.
Um guarda trouxe uma caixa de veludo. Dante a abriu. Dentro estava a Esmeralda da Sicília - um colar que estava na família Vitiello por gerações.
Ele o havia prendido em volta do meu pescoço dois anos atrás, jurando por sua vida que nunca me deixaria.
"Sofia", disse ele, prendendo-o em volta do pescoço dela. "Finalmente repousa em um pescoço digno dele."
Sofia tocou as gemas, seus olhos brilhando de cobiça. Ela olhou para mim do outro lado da sala e sorriu. Ela me chamou.
Caminhei em direção a eles, minhas pernas pesadas como chumbo.
"Elena", Sofia arrulhou, dedilhando a grande esmeralda central. "Não está lindo?"
"Sim", eu disse, minha voz oca.
"Sabe", disse Sofia, alto o suficiente para o círculo ao nosso redor ouvir. "Ouvi dizer que você tem um tipo sanguíneo compatível com o de Dante. Como meu coração ainda está tão... frágil por causa do transplante, talvez você devesse doar o seu para mim. É o mínimo que você poderia fazer."
A sala ficou em silêncio.
Dante olhou para mim. Por um segundo, vi um lampejo de algo - confusão? - em seus olhos. Mas desapareceu tão rápido quanto apareceu.
"Dar a ela seu coração, Elena?", ele ponderou, seu tom se tornando cruel. "Mas você não tem um para dar, não é? Você não tem coração. Assim como seu pai."
Eu olhei para ele. Eu queria rasgar minha camisa, mostrar-lhe as cicatrizes, mostrar-lhe a máquina que me mantinha viva. Mas qual era o sentido? Ele havia escolhido sua verdade.
"Não tenho mais nada para te dar, Dante", eu disse suavemente. "Você pegou tudo."
Sofia zombou, enrugando o nariz. "Eca, saia de perto de mim. Você cheira a antisséptico e desespero."
Ela me empurrou.
Estávamos perto das portas francesas abertas que davam para o terraço, com vista para o lago da propriedade. Eu cambaleei para trás, perdendo o equilíbrio. Meu calcanhar prendeu na soleira de pedra irregular.
Eu caí.
A água estava preta e gelada. Atingi a superfície com um respingo que silenciou a festa.
A água fria invadiu meu nariz, minha boca. A pesada bateria do meu DAV me puxou para baixo como uma âncora. Eu afundei.
Acima de mim, as luzes do salão de festas brilhavam como estrelas distorcidas.
Eu não nadei.
Por que eu nadaria? A água estava quieta. Não havia dor aqui. Nem Dante. Nem traição.
Deixei o ar sair dos meus pulmões em uma torrente de bolhas. Fechei os olhos e, pela primeira vez em cinco dias, senti paz.