Baixa. Controlada. Segura de um jeito que irrita.
O tipo de homem que não pede.
Define.
O tipo de homem que acha que tudo pode ser organizado, comprado, encaixado dentro de limites claros.
O tipo de homem que nunca encontrou alguém que não cabe.
Eu solto o ar devagar.
E o pior?
Eu aceitei.
Não o contrato.
Não ainda.
Mas o jogo.
E isso já é perigoso o suficiente.
A porta do elevador se abre com um som suave demais para o que está acontecendo dentro de mim.
Eu saio.
Passos firmes.
Cabeça erguida.
Como se nada tivesse mudado.
Mas tudo mudou.
O ar da noite me atinge assim que atravesso a porta do prédio. Frio, leve, real. Diferente daquele ambiente controlado lá em cima.
Aqui, as coisas não fingem tanto.
Aqui, o caos é honesto.
Respiro fundo.
Uma vez.
Duas.
Não ajuda.
Porque o problema não está no ambiente.
Está na memória do toque que não aconteceu.
No espaço que ficou pequeno demais entre nós.
Na forma como ele me olhou...
Como se estivesse tentando me entender.
E ao mesmo tempo... me reduzir a algo que ele pudesse controlar.
Meu salto ecoa na calçada enquanto caminho sem destino definido. Só preciso de movimento. Preciso sair daquele ponto onde tudo começou a sair do controle.
- Você está com aquela cara de quem fez alguma besteira.
A voz vem antes do toque.
Clara.
Familiar.
Luiza.
Eu paro.
Demoro meio segundo antes de virar.
Tempo suficiente para reorganizar a expressão.
Ou tentar.
- Sempre otimista - respondo, seca.
Ela cruza os braços, me analisando de cima a baixo com aquela precisão irritante de quem me conhece há tempo demais.
- Não. Só realista. - inclina a cabeça - Quem foi?
Direta.
Como sempre.
Eu poderia mentir.
Seria mais fácil.
Mas não consigo.
Porque não é só sobre contar.
É sobre tentar entender o que acabou de acontecer.
- Ele não é... normal.
Luiza solta um riso curto.
- Isso definitivamente não responde a pergunta.
Eu passo a mão pelo cabelo, puxando levemente os fios para trás.
- Ele não olha como os outros.
Ela arqueia a sobrancelha.
- Isso é bom ou ruim?
Penso.
De verdade.
E isso já é um problema.
- Perigoso.
Ela se aproxima um pouco mais, curiosidade evidente.
- Nome.
Hesito.
Droga.
Hesitar nunca foi o meu padrão.
- Yan.
O nome parece diferente quando sai da minha boca.
Mais pesado.
Mais... presente.
Luiza observa a reação.
Claro que observa.
- E o que ele fez pra você estar assim?
A pergunta fica no ar.
Eu poderia dizer: nada.
Porque tecnicamente... ele não fez.
Ele não tocou.
Não insistiu.
Não ultrapassou.
E ainda assim-
- Ele tentou me comprar.
A frase sai seca.
Fria.
Do jeito que deveria soar.
Luiza pisca.
Uma vez.
- E você?
Silêncio.
Ela percebe.
- Você não mandou ele ir pro inferno.
Não é pergunta.
É constatação.
Eu cruzo os braços.
Agora sim, defensiva.
- Não foi tão simples.
Ela dá um passo mais perto.
- Nunca é.
Os olhos dela me seguram.
Esperando.
Eu desvio.
Olho para a rua, para os carros passando, para qualquer coisa que não seja a verdade que está batendo na minha garganta.
- Ele acha que todo mundo tem um preço.
- E você?
A pergunta volta.
Mais baixa.
Mais séria.
Eu fecho os olhos de novo.
Mas dessa vez... não ajuda.
Porque a resposta já está formada.
- Eu disse que não seria pelo dinheiro.
Luiza fica em silêncio.
E isso é pior do que qualquer reação.
- Carolina...
Eu balanço a cabeça.
- Eu sei.
- Não, você não sabe.
Viro para ela.
- Eu sei exatamente o que estou fazendo.
Mentira.
E nós duas sabemos.
Ela suspira, passando a mão pelo rosto.
- Você está entrando num jogo onde ele define as regras.
- Então eu mudo o jogo.
A resposta sai rápida.
Instintiva.
Mas não vazia.
Ela me encara.
Longo.
Profundo.
- E se ele for melhor nisso do que você?
Silêncio.
Denso.
Incômodo.
Porque a resposta...
Não é óbvia.
Eu engulo seco.
- Então eu aprendo rápido.
Luiza solta um ar pesado.
- Isso não é só um jogo, Carol.
Eu sei.
Claro que sei.
Mas dizer isso em voz alta daria peso demais à situação.
E peso... torna tudo mais real.
- Relaxa - forço um meio sorriso - É só um jantar.
Ela ri.
Sem humor.
- Não. Não é.
E ela está certa.
Droga.
Ela está completamente certa.
Porque o problema não é o jantar.
Não é o contrato.
Não é o dinheiro.
É o jeito que ele me olhou.
Como se estivesse tentando desmontar tudo o que eu sou.
E ao mesmo tempo...
Como se quisesse ficar.
Eu me afasto um passo.
Preciso de espaço.
Mesmo que seja simbólico.
- Eu tenho controle.
Luiza não responde imediatamente.
E quando responde...
A voz vem mais suave.
Mais perigosa.
- Você tinha.
Aquilo bate.
Mais forte do que deveria.
Eu sustento o olhar dela.
Porque recuar agora seria admitir.
E eu ainda não estou pronta para isso.
- Eu ainda tenho.
Ela inclina levemente a cabeça.
- Então prova.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
Eu respiro fundo.
E tomo a decisão no mesmo instante.
- Eu vou.
- Eu sei que vai.
Claro que sabe.
Ela sempre sabe.
- Mas dessa vez - ela continua - não entra achando que está no comando.
Um sorriso lento toca o canto da minha boca.
Agora sim... mais verdadeiro.
- Eu nunca entro achando.
Dou um passo para trás.
O suficiente para encerrar.
- Eu entro sabendo.
Viro antes que ela responda.
Porque se eu ficar mais um segundo, talvez ela veja o que eu ainda estou tentando esconder até de mim mesma.
Caminho até o carro.
Entro.
Fecho a porta.
O silêncio volta.
Mas agora é diferente.
Não é vazio.
É cheio demais.
Encosto a cabeça no banco e fecho os olhos.
E ele volta.
Claro que volta.
A voz.
O olhar.
A forma como disse meu nome.
A forma como me segurou...
Sem realmente segurar.
Como se soubesse exatamente o quanto podia ir.
E ainda assim...
Quisesse ir além.
Eu aperto os dedos no tecido do vestido.
Leve.
Mas firme.
- Idiota... - murmuro.
Não sei se estou falando dele.
Ou de mim.
O celular vibra no banco ao lado.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
Mas eu já sei.
Antes mesmo de abrir.
Claro que sei.
Respiro fundo.
Abro.
"Amanhã. 20h. Esteja pronta."
Sem pergunta.
Sem espaço.
Sem escolha.
Um comando.
Eu encaro a tela por alguns segundos.
E então...
Sorrio.
Lento.
Perigoso.
- Você não me conhece, Yan...
Minha voz sai baixa no silêncio do carro.
Quase um segredo.
Quase uma promessa.
Digito.
Sem pensar demais.
Sem revisar.
Sem suavizar.
"Eu nunca estou pronta.
E mesmo assim... você não vai conseguir me controlar."
Envio.
O coração bate diferente agora.
Mais rápido.
Mais vivo.
Mais... errado.
A resposta vem em segundos.
Claro que vem.
"Eu não preciso te controlar.
Só preciso que você não consiga sair."
O ar prende.
Por um segundo.
Só um.
Mas é o suficiente.
Porque alguma coisa dentro de mim reconhece.
Não a ameaça.
Não o jogo.
Mas o perigo real.
E mesmo assim-
Eu não recuo.
Pelo contrário.
Inclino a cabeça para trás, olhando o teto do carro, um sorriso escapando sem permissão.
- Então tenta.
Sussurro.
E no fundo...
Eu sei.
Isso não termina bem.
Mas também sei outra coisa.
Eu não quero que termine.
Ainda não.