Saio do prédio dele com a sensação incômoda de que atravessei uma linha invisível - e não existe caminho de volta que não envolva alguma perda.
O ar da noite está frio, mas não o suficiente para cortar o calor que ainda percorre meu corpo.
Droga.
Isso não era pra ser assim.
Não era pra mexer.
Era pra ser simples.
Um acordo.
Um jogo.
Uma troca.
Mas não é isso que está acontecendo.
Porque o problema não é o contrato.
É ele.
O jeito que ele me olha como se estivesse tentando me entender e me reduzir ao mesmo tempo.
O jeito que ele fala como se já tivesse decidido por mim.
E o pior...
o jeito que meu corpo responde como se quisesse provar o contrário.
Eu paro na calçada por um segundo.
Respiro.
Mas o ar não entra direito.
Porque a memória volta.
Rápida.
Precisa.
O toque dele no meu queixo.
Leve.
Mas firme.
Como se não precisasse de força pra me parar.
Como se soubesse que eu não iria fugir.
E eu não fugi.
Erro.
Eu deveria ter recuado.
Deveria ter rido.
Deveria ter quebrado o ritmo.
Mas não fiz nada disso.
Eu fiquei.
E isso muda tudo.
- Você sempre fica assim depois de tomar decisões ruins?
A voz vem de trás, puxando meu corpo de volta pro presente antes mesmo de eu virar.
Luiza.
Claro.
Ela encosta no carro ao meu lado, braços cruzados, aquele olhar afiado que enxerga tudo que eu tento esconder.
- Define ruim.
Ela solta um riso curto.
- Você saiu de lá com cara de quem entrou num incêndio... e decidiu ficar.
Eu apoio as mãos no teto do carro por um segundo, inclinando o corpo pra frente.
- Eu assinei.
Silêncio.
Pesado.
- Você... o quê?
Viro o rosto devagar.
- Eu assinei.
Ela me encara como se estivesse esperando a continuação.
Uma explicação.
Uma justificativa.
Algo que faça sentido.
Mas eu não tenho.
- Carolina... - a voz dela baixa - você nem faz ideia do que isso significa.
Eu sorrio de canto.
Sem humor.
- Faço.
Mentira.
Ela percebe.
Claro que percebe.
- Não, você não faz.
Eu me viro completamente agora, cruzando os braços.
- Ele acha que me comprou.
- E você deixou ele achar.
Direta.
Sem suavizar.
Eu seguro o olhar dela.
- Eu deixei ele acreditar no que precisa.
- E você precisa do quê?
Silêncio.
Essa pergunta...
essa eu não respondo fácil.
Porque a resposta não é limpa.
Não é simples.
Não é segura.
- Eu preciso entender ele.
Ela franze a testa.
- Você não "entende" um homem como esse entrando no jogo dele.
- Então eu mudo as regras.
A resposta sai rápida.
Instintiva.
Mas a verdade?
Eu não sei se consigo.
E isso...
é o que mais incomoda.
Luiza se afasta do carro, dando um passo mais perto de mim.
- Você acha que está no controle.
- Eu estou.
Ela ri.
Baixo.
Quase triste.
- Não. Você estava.
Aquilo bate.
Direto.
Mas eu não deixo aparecer.
- Ainda estou.
Sustento.
Mesmo sem ter certeza.
Ela me observa por um segundo longo demais.
Como se estivesse decidindo até onde pode insistir.
- Ele é perigoso, Carol.
Eu sorrio.
Dessa vez mais lento.
Mais verdadeiro.
- Eu sei.
- Então por que-
- Porque eu quero.
Corto.
Antes que ela termine.
Antes que eu pense demais.
Silêncio.
Ela respira fundo.
Passa a mão pelo rosto.
- Você sempre faz isso.
- Isso o quê?
- Se joga no que pode te quebrar... como se fosse a única coisa que te faz sentir.
Aquilo...
não é justo.
Mas também não é mentira.
Eu desvio o olhar por um segundo.
Só um.
O suficiente pra não responder.
- Isso não é sobre sentimento - digo, voltando pra ela.
- Não?
- É sobre escolha.
Ela cruza os braços.
- Escolher o perigo ainda é escolha errada.
Eu me aproximo um pouco.
Inclino a cabeça.
- Errada pra quem?
Ela abre a boca pra responder.
Fecha.
Porque sabe.
Não existe resposta simples.
Eu me afasto, abrindo a porta do carro.
- Relaxa.
- Eu não vou relaxar.
- Vai sim.
Entro.
Mas antes de fechar a porta, olho pra ela uma última vez.
- Eu sei exatamente o que estou fazendo.
Ela segura meu olhar.
Firme.
- É isso que mais me preocupa.
Fecho a porta.
O silêncio volta.
Mas diferente de antes...
agora ele pulsa.
Como um lembrete constante de que alguma coisa já saiu do lugar.
Encosto a cabeça no banco e fecho os olhos.
E lá está ele.
De novo.
Yan.
O jeito que ele se aproximou.
Sem pressa.
Sem dúvida.
Como se cada movimento fosse inevitável.
Como se eu fosse inevitável.
Eu aperto os lábios.
- Arrogante...
Murmuro.
Mas o problema não é a arrogância.
É o efeito.
Porque ele não tenta impressionar.
Não tenta convencer.
Ele simplesmente... assume.
E isso-
isso mexe.
Meu celular vibra.
Eu nem preciso olhar.
Sei.
Abro a mensagem.
"Amanhã. 20h. Sem atrasos."
Claro.
Sem "por favor".
Sem espaço.
Sem escolha.
Eu sorrio.
Lento.
Inclino a cabeça pro lado.
- Você realmente acha que manda em mim...
Sussurro.
Digito.
Sem pensar demais.
"Você gosta de dar ordens. Eu gosto de ignorar."
Envio.
O coração acelera.
Não de medo.
De expectativa.
A resposta vem rápido demais.
Como se ele já estivesse esperando.
"Você não vai ignorar."
Meu sorriso aumenta.
- Convencido...
Digito de novo.
"Quer apostar?"
Alguns segundos.
E então-
"Eu não aposto. Eu garanto."
O ar muda.
Só com isso.
Só com palavras.
Droga.
Eu aperto o celular com mais força do que deveria.
- Você não garante nada.
Mas a minha voz...
não está tão firme quanto deveria.
E isso me irrita.
Muito.
Fecho os olhos.
Respiro fundo.
Mas o efeito não passa.
Porque a verdade é simples.
E perigosa.
As regras estão escritas.
O contrato está assinado.
Mas os limites?
Os limites já começaram a falhar.
E o pior...
Eu não tenho certeza se quero impedir.