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7 Capítulo
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Capítulo 11 Aproximação controlada img
Capítulo 12 O primeiro quase img
Capítulo 13 Ele observa demais img
Capítulo 14 Amiga alerta img
Capítulo 15 O jogo começa img
Capítulo 16 Distância perigosa img
Capítulo 17 Ciúme inicial img
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Capítulo 7 Primeira provocação

Carolina

A chuva começa fina, quase elegante, riscando os vidros do carro como unhas lentas demais para serem um acidente.

A cidade passa em borrões dourados do lado de fora, luzes dissolvidas na água, prédios altos parecendo mais distantes do que realmente estão. Tudo lá fora tem aquele ar de filme bonito demais para ser verdadeiro. Tudo aqui dentro parece preso entre uma respiração e outra.

Meu celular vibra no banco ao lado.

Não preciso olhar para saber.

Yan.

De novo.

Como se o nome dele já tivesse aprendido o caminho da minha pulsação.

Eu viro o rosto devagar, encarando a tela acesa por alguns segundos antes de tocar nela. Não abro imediatamente. Só observo o reflexo do meu próprio rosto sobre a mensagem ainda fechada e me odeio um pouco pelo jeito como meu corpo responde antes da minha razão.

Não é medo.

Seria mais fácil se fosse.

É expectativa.

E expectativa, em homens como ele, é sempre o primeiro erro.

Abro.

"O carro chega em dez minutos."

Sem boa noite.

Sem pergunta.

Sem espaço.

Meu polegar paira sobre a tela. O canto da minha boca se ergue num sorriso que não tem nada de gentil.

Claro.

Ele não convida. Ele convoca.

Como se o mundo inteiro fosse uma extensão da vontade dele. Como se tudo estivesse sempre pronto para obedecer. Como se eu fosse só mais uma coisa organizada dentro do dia impecável dele.

Arrogante.

Controlador.

Perigoso.

Meu tipo de problema favorito.

Digito sem pressa, deixando cada palavra amadurecer na ponta dos dedos antes de enviar.

"E se eu não entrar?"

A resposta vem tão rápido que parece que ele já estava olhando a tela, esperando minha resistência como se a tivesse programado.

"Você vai entrar."

Eu solto uma risada baixa.

- Convencido demais pra um homem que ainda não me conhece.

Mas a verdade bate por baixo da provocação: ele não respondeu como quem espera. Respondeu como quem já decidiu.

E isso me irrita justamente porque mexe.

O carro para em frente ao meu prédio. Preto. Polido. Impessoal. O tipo de veículo que não chega; ele se impõe. O motorista não buzina. Não liga. Não manda mensagem. Só espera.

Claro. Tudo nele deve funcionar assim.

Levanto do banco da portaria devagar, alisando a lateral do vestido antes de atravessar o hall. Escolhi preto porque preto não pede atenção - ele absorve. E hoje eu não quero parecer ansiosa. Quero parecer o que sempre fui: uma escolha ruim com boa postura.

O tecido abraça meu corpo sem esforço, deixando pele suficiente à mostra para ser uma afronta e não um convite. O salto faz pouco som no mármore, mas o suficiente para eu me sentir chegando.

Entro no carro.

A porta fecha com aquele clique macio de coisas caras, o tipo de som que parece dizer: agora você está dentro. O interior cheira a couro, chuva e controle. Nenhuma música. Nenhuma conversa. Nenhuma tentativa de conforto.

Perfeito.

Ele não veio.

Claro que não.

Não me buscaria pessoalmente na primeira noite. Isso implicaria interesse demais. E homens como Yan não entregam interesse; eles entregam estrutura.

Encosto a cabeça no banco e observo a cidade até que o caminho comece a mudar. Saímos do centro mais barulhento, passamos por ruas mais silenciosas, mais limpas, mais caras. O tipo de lugar onde as pessoas escondem a podridão atrás de portões altos e árvores bem cuidadas.

Quando o carro entra no estacionamento subterrâneo de um prédio espelhado, eu já sei duas coisas.

A primeira: ele quer território.

A segunda: ele quer que eu sinta.

O elevador sobe sem companhia. Sozinha naquele espelho amplo demais, eu quase pareço outra mulher. Mais fria. Mais nítida. Mais pronta. O reflexo me devolve um rosto calmo, mas eu conheço os sinais pequenos. A tensão no maxilar. A respiração contida. O brilho errado nos olhos.

Não é nervosismo.

É antecipação vestida de desafio.

As portas se abrem direto num corredor silencioso. Um homem de terno, impecável e neutro, me espera a poucos passos.

- Senhorita Carolina - ele diz, sem sorriso. - Por favor.

Eu o sigo.

O apartamento - cobertura, claro - parece uma extensão do homem que o habita: amplo, limpo, sofisticado, sem um detalhe fora do lugar. Vidro, pedra, madeira escura, arte cara escolhida por alguém que aprecia beleza desde que ela não bagunce nada.

Tudo é bonito.

Nada é quente.

Até eu vê-lo.

Yan está de costas, perto da parede de vidro, a cidade inteira aberta atrás dele como se tivesse sido colocada ali só para reforçar o quanto ele gosta de alturas. O paletó já não está. A camisa branca está dobrada até os antebraços. Ele segura um copo, mas não bebe. Observa a noite como se estivesse analisando uma planilha.

O homem neutro desaparece atrás de mim. Ouço a porta fechar.

Yan não se vira de imediato.

Porque, claro, ele quer que eu sinta isso também.

A demora.

A espera.

O cálculo.

- Você tem um talento impressionante para transformar recepção em teste - eu digo.

A voz dele vem antes do rosto.

Baixa. Segura. Irritantemente calma.

- E você tem um talento impressionante para entrar em territórios perigosos como se estivesse fazendo um favor ao lugar.

Ele se vira.

E inferno.

O problema nunca é o rosto em si. É o conjunto. A contenção. O tipo de homem que não precisa exibir nada porque já sabe exatamente o efeito que causa. O cabelo escuro ainda impecável, a barba curta desenhando dureza demais, o olhar fixo em mim com aquele silêncio de quem tira a roupa de uma situação antes mesmo de tocar nela.

Ele me observa de cima a baixo.

Sem pressa.

Sem pudor.

Sem a vulgaridade fácil dos homens acostumados a encarar uma mulher como se estivessem consumindo algo. Com Yan, não é consumo.

É posse ensaiada.

Meu corpo percebe antes de mim. Um calor discreto, traiçoeiro, desliza pela minha pele.

Eu sorrio.

Porque se ele quer guerra, eu também vim armada.

- Vai continuar olhando ou vai me dizer se estou dentro do dress code da sua coleção particular?

Um quase sorriso toca o canto da boca dele. Quase.

- Você fala demais quando está desconfortável.

- E você fica ainda mais arrogante quando está interessado.

Silêncio.

O tipo afiado.

Ele pousa o copo numa mesa lateral e começa a andar na minha direção. Um passo. Depois outro. Sem pressa. Sem tropeço. Sem nada que pareça impulsivo.

Eu permaneço no lugar.

Porque recuar seria admitir.

Porque ficar é a minha primeira provocação.

Quando ele para diante de mim, o ar muda. Literalmente. Como se a sala inteira tivesse sido desenhada para caber nesse espaço curto entre nós.

- Interessado? - ele repete, a voz mais baixa. - Você confunde observação com apetite.

Inclino a cabeça, deixando o cabelo escorregar por um ombro.

- Homens como você sempre fingem que estão estudando. É mais elegante do que admitir que querem.

Os olhos dele descem até a minha boca por um segundo. Curto demais para ser um acidente. Longo demais para ser ignorado.

- E mulheres como você sempre confundem provocação com poder.

- Não confundo. Eu uso.

Ele chega ainda mais perto.

Agora eu sinto o perfume dele. Limpo, escuro, caro. Alguma coisa entre madeira e perigo.

- Então usa comigo, Carolina. Vamos ver até onde você aguenta.

A frase bate no meio do peito com força suficiente para eu odiar o quanto gosto dela.

Meu sorriso cresce, mais lento.

- Você adoraria descobrir.

O olhar dele endurece. Não de raiva. De contenção.

- Eu não "adoraria" nada. Eu decido o que vale meu tempo.

- E mesmo assim estou aqui.

- Porque eu quis.

- Porque eu aceitei.

A correção sai afiada. Quente. Perigosa.

Ele inclina o rosto um pouco, como se estivesse me analisando por dentro da pele.

- Você acha que aceitou porque está no controle.

- E você acha que ofereceu porque está.

Os olhos dele brilham com alguma coisa mais escura, mais viva.

Pronto.

Atingi.

Esse sempre foi meu vício mais antigo: encontrar o ponto exato onde um homem deixa de parecer inabalável e começa a parecer humano. Não porque eu queira salvá-lo. Mas porque é ali que ele fica interessante.

Yan dá mais um passo.

Meu corpo inteiro percebe.

O tecido do vestido parece mais justo. O ar, mais espesso. A cidade inteira do lado de fora some. Fica só esse homem, esse silêncio, essa respiração mal comportada entre nós.

- Quer um conselho? - ele pergunta.

- Não.

- Vou dar mesmo assim.

Eu rio, baixa, quase colada na boca dele sem realmente estar.

- Você realmente não consegue evitar.

- Evitar o quê?

Levanto o queixo.

- Tentar mandar.

A mão dele sobe devagar, dois dedos tocando meu queixo. Não apertam. Não prendem. Mas o gesto é firme o bastante para incendiar tudo o que eu vinha fingindo controlar.

Meu coração bate uma vez, dura, contra as costelas.

- Eu não tento - ele diz. - Eu só não desperdiço energia fingindo que você não responde.

Respondo.

No mesmo segundo.

No mesmo lugar traiçoeiro do corpo.

Eu odeio isso.

Odeio mais ainda o modo como ele percebe.

- Talvez eu responda porque gosto de brincar com homens arrogantes - sussurro.

O polegar dele roça, quase sem intenção, a linha da minha mandíbula.

Quase.

- E talvez eu goste de mulheres que precisam me desafiar para não admitir que já querem ceder.

A frase entra quente e errada demais.

Eu puxo o rosto para trás o suficiente para quebrar o toque, mas não a tensão.

- Você fala como se me conhecesse.

- Eu conheço o tipo.

- Não. Você conhece as que se vendem fácil ao primeiro comando.

O silêncio cai entre nós como vidro.

Pronto.

Agora fui eu quem feri.

Eu vejo. No maxilar dele. Nos olhos que endurecem um grau. Na forma como a respiração se torna ainda mais controlada - e isso, nele, é sempre sinal de perigo.

Mas ele não explode.

É pior.

Ele fica calmo.

- Tome cuidado com o que assume sobre mim - ele diz, baixo.

- Você também devia.

- Eu não assumo. Eu observo.

- Então observa isso.

Dou um passo para o lado, rompendo o eixo entre nós, e caminho até o bar embutido perto da janela como se a cobertura fosse minha. Abro uma garrafa de água em vez de tocar no vinho caro alinhado perfeitamente e bebo devagar, consciente demais do olhar dele nas minhas costas.

É uma provocação pequena.

Eficiente.

Porque homens assim odeiam o que não previram. E eu acabei de ignorar deliberadamente tudo o que foi posto para seduzir.

Quando me viro, ele ainda está onde estava. Imóvel. Mas não há nada de passivo na quietude dele. É a quietude de um predador que decide se vale a pena avançar agora ou depois.

Encosto na bancada, cruzando as pernas devagar.

- Então? - pergunto. - Esse jantar faz parte do contrato ou você só precisava de uma plateia melhor para o seu ego?

O olhar dele finalmente se move. Lento. Implacável. Sobe das minhas pernas até o meu rosto e para ali.

- Você acha mesmo que eu traria alguém até aqui para alimentar ego?

- Por que não? Homens ricos sempre precisam de público.

Ele dá um riso baixo. Sem humor.

- Homens ricos não. Homens inseguros.

Inclino a cabeça.

- E você é o quê?

- Um homem que não gosta de repetição.

- Que sorte a sua. Eu sou péssima em obedecer roteiros.

Ele anda de novo, agora até a bancada. Para do outro lado, apoiando uma mão no mármore escuro.

- Você fala em obediência com insistência demais para alguém que diz não gostar.

- Talvez porque eu goste de ver como você fica quando percebe que não vai conseguir.

- Conseguir o quê?

Aproximo meu rosto do dele o suficiente para sentir o calor da respiração dele misturado à minha.

- Me dobrar.

Os olhos dele descem para minha boca outra vez. Dessa vez não se escondem.

- Todo mundo dobra.

Eu sorrio, devagar, venenoso.

- Talvez. Mas eu faria você sofrer primeiro.

A mão dele fecha no mármore. Um gesto mínimo. Um sinal enorme.

Atingi de novo.

Meu corpo inteiro se acende com a satisfação baixa e imprudente de quem pisa um pouco perto demais da borda e descobre que gosta da vista.

Ele inclina o corpo na minha direção, sem pressa, até que o espaço entre nós seja uma provocação física.

- Você quer me ver sofrer? - a voz dele roça. - Ou quer me ver perdendo o controle por sua causa?

Meu pulso erra.

Um beat.

Só um.

Mas ele vê.

Claro que vê.

- Talvez eu queira os dois.

- Cuidado com desejos mal formulados, Carolina. Às vezes eles voltam mais caros.

- E você? - devolvo. - Quanto custa quando é você quem perde?

Algo escuro, rápido, cruza os olhos dele.

Por um segundo, só um, eu tenho a sensação de que existe ali um homem muito mais perigoso do que o bilionário bem vestido que finge que tudo é cálculo. Um homem que sangra em silêncio. Um homem que aprendeu a usar controle como faca.

A curiosidade quase me trai.

Mas eu a disfarço com sarcasmo.

- Relaxa. Eu não vou arruinar sua reputação de gelo ambulante.

- Não? - ele pergunta.

- Não tão cedo.

A frase escapa antes que eu filtre.

E nós dois ouvimos o duplo sentido.

O canto da boca dele se move, dessa vez num sorriso de verdade. Pequeno. Raro. Devastador.

- Essa é sua primeira provocação real da noite - ele murmura. - Finalmente.

- Você estava esperando mais?

- Eu estava esperando honestidade.

- De mim?

- Do seu corpo.

A frase me pega desprevenida.

Quente. Direta. Quase suja sem ser vulgar.

Meu rosto não entrega, mas algo no ventre aperta forte.

- Você se acha muito bom em leitura.

- Eu sou.

- Então me lê.

Silêncio.

Ele me olha. Não para a boca. Não para o vestido. Não para a pele à mostra. Para os olhos. Direto. Longo. Como se realmente pudesse arrancar alguma coisa de mim que nem eu gosto de encarar.

Quando fala, a voz sai baixa demais.

- Você entra provocando porque tem medo do que acontece quando alguém vê além disso.

Atingiu.

O golpe é limpo.

E eu odeio a precisão.

Meu sorriso esfria.

- Agora parece um homem desesperado para parecer profundo.

- E você parece uma mulher desesperada para não parecer atingida.

Eu apoio o copo com mais força do que precisava.

- Não se ilude.

- Você acabou de prender a respiração.

Meu olhar voa para a boca dele com raiva antes de voltar aos olhos.

- Você está insuportável.

- E você ainda não foi embora.

Silêncio.

Maldito.

Porque ele tem razão.

Porque eu poderia ir.

Porque eu deveria ir.

Mas não vou.

Não ainda.

Não quando o ar entre nós está desse jeito, carregado demais para ser desperdiçado. Não quando cada palavra parece um fósforo riscado em tecido seco. Não quando há alguma coisa quase doentia em descobrir quem cede primeiro.

Eu desço da bancada, ficando totalmente diante dele de novo.

Desta vez sou eu quem invade o espaço.

Sou eu quem escolhe a distância curta.

Sou eu quem levanta o rosto e diz, em voz baixa:

- Sabe qual é o seu problema, Yan?

- Você.

Minha respiração falha. Quase imperceptível.

Ele continua:

- Mas imagino que você tenha outra resposta.

Eu rio, porque é isso ou confesso demais.

- Seu problema é que você acha que desejo é uma fraqueza do outro.

- Geralmente é.

- Não comigo.

Ele inclina o rosto.

- Já está sendo.

- Você adoraria.

- Eu não preciso adorar. Eu só preciso esperar.

Eu chego perto o suficiente para que a ponta do meu salto quase toque o sapato dele.

- Então espera.

E seguro o olhar dele enquanto deslizo um dedo pela própria clavícula, devagar, como se fosse distração. O gesto é pequeno. Quase inocente.

Quase.

Os olhos dele acompanham.

Inferno.

A vitória vem amarga e quente, subindo pela minha pele.

- Isso é tudo? - ele pergunta, baixo, com a voz mais rouca pela primeira vez.

- Pra hoje?

Inclino a cabeça.

- Talvez.

Ele dá meio passo à frente. Agora meu corpo encosta de leve na bancada atrás de mim. Não há toque entre nós, mas tudo grita o contrário.

- Então me diz como termina essa sua provocação.

Eu sorrio.

Porque agora a respiração dele também mudou.

Porque agora já não sou só eu queimando.

- Não termina - eu digo. - Fica na cabeça. Incomodando. Do jeito certo.

Os olhos dele ficam ainda mais escuros.

- Você gosta de deixar marcas invisíveis.

- Você gosta de fingir que não sente.

- Eu sinto o suficiente para saber quando algo merece contenção.

- E eu sinto o suficiente para saber quando contenção é só medo bem vestido.

A frase o atravessa. Eu vejo.

Ele fica imóvel por um segundo inteiro.

Longo.

Perigoso.

Então a mão dele sobe e para ao lado do meu rosto, apoiada no mármore, me cercando sem me tocar. O corpo grande, quente, controlado demais. A cidade lá fora. A chuva mais forte no vidro. O meu coração cometendo erros em sequência.

- Continua me chamando de covarde desse jeito - ele diz, baixo, perto demais - e eu posso acabar te mostrando exatamente o quanto não sou.

A ameaça não é sexual.

É pior.

Porque vem cheia de subtexto. Cheia de possibilidade. Cheia daquele ponto febril onde medo e desejo dividem a mesma pele.

Eu engulo seco, odiando o quanto isso aparece na minha respiração.

Mas sustento.

Até o fim.

- Então mostra.

A frase sai mais baixa do que eu queria. Mais íntima. Mais comprometida.

O olhar dele desce para minha boca uma última vez.

Fica.

Depois sobe.

- Ainda não.

E se afasta.

Assim.

Simplesmente.

Como se não tivesse acabado de deixar meu corpo inteiro em estado de alerta. Como se não tivesse bagunçado o ar ao redor. Como se não soubesse exatamente o que faz quando chega perto e vai embora antes do estrago completo.

Ele pega o copo de novo. Bebe enfim um gole mínimo. E fala de costas, olhando a cidade:

- Jante comigo.

Não é convite.

Ainda não.

Mas também não é ordem.

É pior.

É interesse tentando vestir elegância.

Eu aliso o vestido devagar, recompondo a respiração, recolhendo pedaços meus que ficaram espalhados no mármore, no vidro, no espaço exato entre a boca dele e a minha.

- Isso foi um pedido? - pergunto.

Ele vira o rosto só o bastante para me encarar de perfil.

- Foi uma segunda chance para você me provocar à mesa em vez da porta.

O sorriso vem antes que eu permita.

- E você aguenta?

- Descubra.

Silêncio.

Depois eu pego minha bolsa, caminho até a cadeira mais próxima da mesa e me sento como se meu corpo não estivesse em guerra aberta comigo mesma.

Cruzo as pernas.

Ergo o queixo.

Encaro o homem que acabou de me deixar à beira de alguma coisa que ainda não tem nome e digo:

- Tudo bem. Mas só pra ficar claro: a primeira provocação fui eu.

Os olhos dele se fixam em mim, lentos, quentes, fatais.

- Não, Carolina.

Ele pousa o copo.

E sorri daquele jeito mínimo, perigoso, insuportável.

- A primeira provocação foi você ter entrado.

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