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Capítulo 8 Ele não reage

Yan

A faca corta o filé em uma linha limpa.

Precisa.

Silenciosa.

Sem esforço.

É assim que eu gosto das coisas: exatas o bastante para não me surpreenderem, limpas o bastante para não deixarem vestígios, controladas o bastante para que eu nunca precise perguntar duas vezes quem está conduzindo.

Mas Carolina torna até um jantar em território instável.

A cobertura está mergulhada naquela luz baixa que faz tudo parecer mais caro e mais íntimo do que realmente é. A cidade explode atrás do vidro em milhares de pontos luminosos, um oceano de janelas acesas e vidas alheias que não me interessam. A chuva engrossou lá fora, escorrendo pelo vidro como se quisesse apagar o mundo e deixar só isso aqui: a mesa, o silêncio e a mulher sentada diante de mim como um problema que não devia me interessar tanto.

Ela cruza as pernas devagar.

Não como quem quer seduzir.

Como quem sabe exatamente o efeito que provoca e se recusa a pedir desculpas por isso.

O vestido preto se ajusta a ela como se tivesse sido pensado para irritar homens como eu. Simples demais para ser vulgar. Preciso demais para ser inocente. O tipo de roupa que não mostra tudo, mas faz a imaginação trabalhar mais do que deveria.

Ela pega a taça de água, não o vinho.

Outra vez.

Deliberado.

Um pequeno desafio dentro de outro maior.

Como se estivesse me dizendo sem palavras que viu a encenação inteira - a mesa posta, a escolha dos pratos, a formalidade polida - e decidiu não participar da parte em que eu organizo o cenário e todos obedecem a linguagem dele.

Interessante.

Irritante.

Perigosamente interessante.

- Você vai continuar me analisando desse jeito ou pretende fingir civilidade em algum momento? - ela pergunta, levando a taça à boca.

A voz baixa, morna, carregada daquela ironia que parece ter sido feita sob medida para tocar onde incomoda.

Eu corto outro pedaço da carne com calma.

Não porque precise pensar na resposta.

Porque a demora é uma resposta.

- Eu sou civilizado - digo, sem tirar os olhos do prato.

Ela solta um riso curto.

Sem humor.

- Claro. É exatamente a palavra que vem à mente quando penso em um homem que me entrega um contrato antes de servir sobremesa.

Levanto o olhar.

Encontro o dela.

Ela sustenta. Claro que sustenta.

Sempre sustenta.

É esse o problema.

- Você assinou - lembro.

- E você gostou demais disso.

- Eu gosto de decisões claras.

- Não. - ela inclina levemente a cabeça, estudando meu rosto como se quisesse me abrir com os olhos. - Você gosta de vencer.

O silêncio cai entre nós.

Denso.

Familiar.

Eu apoio os talheres no prato e limpo a boca com o guardanapo antes de responder. Gosto de ver o efeito da espera nas pessoas. A maioria começa a se explicar, corrigir, recuar. Carolina faz o oposto: fica mais afiada.

- Vencer é só uma consequência natural quando o outro entra despreparado.

O canto da boca dela sobe, lento.

Perigoso.

- Então é assim que você se conta a história? - ela pergunta. - Que eu entrei despreparada?

Eu a observo por um segundo mais longo.

A postura perfeita. O rosto bonito demais para ser confiável. O olhar firme demais para ser inofensivo.

Não, ela não entrou despreparada.

Ela entrou sabendo que pisaria em terreno hostil.

E veio mesmo assim.

Talvez isso seja a parte que me intriga.

Talvez isso seja a parte que eu deveria desconfiar mais.

- Você entrou querendo testar limites - digo.

- E você entrou querendo me colocar dentro deles.

- E você não gosta de limites.

Ela pousa a taça.

Devagar.

- Gosto dos meus.

A resposta bate no exato lugar onde deveria.

E eu não deixo aparecer.

Nunca deixo.

Tenho anos demais investidos em parecer inabalável para desperdiçar controle diante de uma mulher que transformou insolência em perfume.

- Então estamos de acordo - digo. - Você mantém os seus. Eu mantenho os meus.

Ela ri.

Agora com alguma coisa mais verdadeira, mais escura.

- Não. Nós definitivamente não estamos.

Pego o copo de água e bebo um gole curto. A água está gelada. O suficiente para lembrar ao corpo que ele não participa das decisões. Não quando eu estou presente.

- Diga.

- Você quer que eu aceite suas regras como se fossem inevitáveis. - Ela apoia o cotovelo na mesa, aproximando-se um pouco. - E o seu maior problema é que eu não acredito em inevitabilidade quando vem de um homem acostumado a comprar o próprio conforto.

A frase entra limpa.

Afiada.

Ela quer ferir.

Eu reconheço o movimento porque já o usei inúmeras vezes: encontrar a fissura, pressionar, observar se a estrutura cede.

Não cedo.

Mas registro.

Com Carolina, eu registro tudo.

O tom que ela usa quando quer parecer indiferente.

O modo como a respiração dela muda um único grau quando me aproximo.

A forma como ela me ataca sempre no ponto em que acha que existem certezas demais.

Ela quer me tirar do eixo.

Ainda não entendeu que eu não reajo na superfície.

Eu reajo internamente.

E recalculo.

- Você fala de compra com uma convicção curiosa - digo, apoiando as costas na cadeira. - Me faz pensar que já conheceu homens baratos demais.

Os olhos dela escurecem.

Ponto.

Atingi.

- E você fala de pessoas como se fossem negociações. Me faz pensar que já passou tempo demais cercado de mulheres que aceitaram pouco.

Silêncio.

A chuva engrossa no vidro.

Em algum lugar abaixo de nós, a cidade continua correndo atrás de coisas pequenas. Aqui em cima, tudo parece suspenso. Como se o mundo inteiro tivesse desacelerado só para ouvir uma mulher me desafiar à mesa enquanto eu tento decidir se quero interrompê-la ou deixá-la continuar até cruzar um limite do qual nenhum dos dois volta intacto.

Ela leva outro pedaço de comida à boca.

Calma.

Como se não tivesse acabado de me mirar.

E eu... não reajo.

Não sorrio. Não endureço. Não a corrijo.

Só observo.

Isso a irrita.

Vejo no leve estreitamento dos olhos dela.

Na forma como endireita a coluna.

Na tensão mínima que sobe pelo pescoço.

Carolina quer reação. Quer arrancar de mim alguma coisa visível. Quer a prova de que acerta.

Mas eu aprendi muito cedo que a primeira perda é sempre essa: entregar ao outro a confirmação de que ele te alcançou.

Meu pai gritava quando perdia controle.

Batidas na mesa. Voz alta. A raiva inteira derramada nos cômodos como se fosse autoridade.

Minha mãe respondia com silêncio.

Não porque fosse fraca.

Porque sabia que silêncio pode humilhar mais do que grito quando o homem à frente precisa de confronto para se sentir grande.

Eu aprendi com os dois.

Nunca grito.

E nunca dou a satisfação inteira.

Carolina me encara.

Esperando.

Quando eu não ofereço nada, ela sorri daquele jeito bonito e irritante que parece prometer incêndio.

- Entendi - diz, encostando-se na cadeira. - Você faz isso de propósito.

- Isso o quê?

- Finge que nada atravessa.

A frase vem mais baixa agora. Menos performática. Mais perto da verdade.

- Não finjo.

- Não?

- Não.

Ela me observa de uma forma diferente. Como se por um segundo tivesse cansado do jogo fácil e quisesse tocar em algo mais fundo. Mais arriscado.

- Então o que eu sou pra você, Yan?

A pergunta paira entre nós.

Simples na forma.

Complicada no conteúdo.

Eu poderia responder de várias maneiras. Poderia voltar ao contrato, aos termos, à conveniência da estrutura. Poderia chamá-la de escolha, de companhia, de variável. Poderia mentir elegantemente.

Mas Caroline tem um problema sério: ela me deixa sem paciência para mentiras confortáveis.

- Hoje? - pergunto.

Ela inclina o rosto.

- Hoje.

Eu a observo com calma, deixando o peso da resposta se construir devagar.

- Uma distração que fala demais.

Ela sorri.

Quase satisfeita.

- E mesmo assim você me trouxe até aqui.

- Distrações também podem ser instrutivas.

- Então eu sou um estudo de caso?

- Você é uma insistência.

A resposta escapa mais honesta do que devia.

Eu vejo no instante em que atinge.

Os olhos dela mudam.

Não suavizam.

Mas mudam.

Como se por baixo da guerra ela tivesse ouvido alguma coisa que não esperava.

- Insistência? - repete, baixo.

- Você insiste em me provocar.

- Talvez porque você mereça.

- Talvez porque você queira saber até onde consegue ir.

O silêncio cresce de novo, só que desta vez não é lâmina. É calor. Denso, respirando entre nós como se tivesse vontade própria.

Ela passa a ponta do dedo pela haste da taça.

Um gesto mínimo.

Absolutamente desnecessário.

Completamente calculado.

- E eu consigo? - pergunta. - Ir longe o bastante?

Eu me levanto.

Sem pressa.

A cadeira desliza para trás com um som baixo contra o piso. Ela acompanha o movimento com os olhos, sem mudar de posição. Mas o peito sobe numa respiração um pouco mais funda. Só um pouco.

O suficiente.

Dou a volta pela mesa e paro ao lado dela.

Não toco.

Ainda não.

A proximidade já é uma forma de toque quando existe tensão suficiente.

Ela ergue o rosto.

Me olha como se estivesse pronta para me desafiar, me insultar ou me beijar. Talvez os três.

- Depende - digo.

- De quê?

Inclino o corpo apenas o suficiente para diminuir o espaço entre nós.

- Do que você pretende fazer se eu parar de não reagir.

O efeito da frase é instantâneo.

Os olhos dela descem para minha boca.

Voltam.

Ela odeia que eu note.

Eu noto assim mesmo.

- Você fala como se estivesse se controlando - murmura.

- Eu estou.

- E isso devia me impressionar?

- Não. Devia te deixar cautelosa.

O canto da boca dela sobe.

Essa mulher tem o hábito irritante de sorrir quando deveria recuar.

- Cautela nunca foi a parte mais divertida de mim.

Minha mão pousa no encosto da cadeira dela. Perto demais do ombro. Distante o bastante para ainda ser escolha, não posse.

- Eu já percebi.

Ela inclina levemente o corpo para trás, até a cabeça quase tocar minha mão. Não toca. Mas a ameaça do contato está ali. Quente. Insensata.

- Então por que não reage? - ela insiste. - Está com medo de estragar o personagem?

Eu baixo um pouco mais o rosto, perto do ouvido dela sem realmente encostar.

Sinto o perfume. Pele limpa, alguma nota floral discreta e o cheiro inconfundível de tensão.

- Eu não reajo porque você ainda não disse nada que eu não tenha previsto.

Ela vira o rosto rápido o suficiente para quase tocar minha boca com a dela.

Quase.

- Mentiroso.

A palavra é um sussurro.

Não doce.

Não leve.

Cheia de desafio.

Eu me afasto um grau ínfimo.

O suficiente para negar o que ela oferece sem que pareça fuga.

- Você quer muito me ver perder controle.

- Talvez eu queira confirmar que você é homem de verdade e não só uma assinatura cara num pedaço de papel.

A provocação vem suja do jeito certo.

Direta o bastante para aquecer o sangue.

Cruel o bastante para ferir.

Eu observo a boca dela dizendo isso e penso, por um segundo perigosamente claro, em como seria segurá-la ali mesmo até arrancar esse sorriso insolente da forma mais eficaz possível.

Não faço.

- Homens inseguros provam o que são com pressa - digo, reto.

- E homens como você provam como?

- Fazendo a outra pessoa implorar para descobrir.

Ela prende a respiração.

Dessa vez mais visível.

O erro dela dura menos de um segundo, mas eu o sinto atravessar meu próprio corpo como um fósforo aceso.

Carolina recupera a postura rápido. Boa. Quase excelente.

- Você gosta de falar como ameaça.

- E você gosta de ouvir.

A mão dela sobe até a minha gravata.

Toca.

Dois dedos apenas.

Leves.

O suficiente para o meu corpo inteiro registrar.

Não abaixo o olhar para a mão dela. Não entrego o reflexo. Mas por dentro tudo fica mais atento.

- Talvez eu goste de ver até onde a sua compostura vai - ela sussurra, deslizando os dedos um centímetro pela seda. - Você parece o tipo que quebra bonito.

Meu maxilar tensiona.

Quase nada.

Ela percebe.

Claro que percebe.

Os olhos dela brilham com satisfação baixa, imprudente.

Eu seguro o pulso dela.

Calmo.

Firme.

Sem violência.

Só impedindo o próximo movimento.

- Você está testando demais algo que não sabe usar.

Ela não tenta soltar a mão.

Em vez disso, chega mais perto, ainda sentada, me obrigando a me inclinar um pouco mais sobre ela.

- E você está falando demais para alguém que diz não reagir.

O ar entre nós se torna outra coisa.

Nada a ver com jantar.

Nada a ver com contrato.

Nada a ver com qualquer estrutura segura.

Minha mão sobe do pulso dela até a linha delicada da pele interna do antebraço. Um caminho curto. Controlado. Intencional.

Ela arrepia.

Instantaneamente.

Meus olhos ficam nos dela quando digo:

- Isso foi reação suficiente pra você?

A boca dela se abre um pouco.

Fecha.

Um silêncio mínimo.

Vitória.

Mas ela não me dá o prazer completo.

Nunca dá.

- Não - responde, com a voz mais rouca do que antes. - Isso foi uma amostra.

Eu solto a mão dela.

Devagar.

Porque se eu continuar tocando, eu avanço.

E se eu avanço agora, cedo mais do que estou disposto.

Ela esfrega discretamente a ponta dos dedos, como se ainda sentisse minha mão ali.

Bom.

Eu quero que sinta.

Dou um passo para trás.

Um só.

Ela odeia. Vejo no olhar. A distância a irrita quando não foi ela quem decidiu.

- Você faz isso de propósito - ela diz.

- Faço.

- Pra me enlouquecer?

- Pra te lembrar que estar perto de mim não significa conseguir o que quer.

Ela se levanta tão rápido que a cadeira quase raspa o chão com força.

Agora somos dois corpos em pé, próximos, respirando no mesmo espaço como se isso por si só já fosse uma violência elegante.

- E o que eu quero, Yan? - pergunta.

Eu a encaro por um longo segundo.

Porque responder isso é arriscado.

Porque eu sei.

Porque talvez ela saiba que eu sei.

- Você quer vencer a parte de mim que não se entrega.

Ela sorri, mas desta vez há algo mais vulnerável por baixo do veneno.

- E você?

A pergunta volta pra mim.

Crua.

Sem floreio.

Eu poderia mentir.

Outra vez.

Mas há alguma coisa naquela mulher que me deixa sem vontade de me esconder em frases limpas.

- Eu quero ver quanto de você é pose - digo.

Os olhos dela vacilam.

Muito pouco.

Mas vacilam.

- E se não for?

- Pior pra mim.

Silêncio.

Ela me observa como se estivesse tentando decidir se me bate, me xinga ou me beija.

A possibilidade de qualquer uma das três passa por mim com intensidade indevida.

A chuva bate mais forte nos vidros.

A cidade desapareceu quase toda atrás da água.

Aqui dentro, o mundo diminuiu à exata distância entre a boca dela e a minha.

Carolina dá mais meio passo.

Agora seu corpo quase encosta no meu.

Quase.

Essa mulher vive de quase. Quase toque. Quase rendição. Quase confissão.

É inteligente.

É insuportável.

É eficaz.

- Você sabe qual é o seu problema? - ela pergunta, baixa.

- Você já me disse que são vários.

- Esse é o pior. - Ela ergue o queixo. - Você acha que silêncio é força.

Penso um segundo.

Depois sorrio.

Pouco.

- Não. Eu sei que, com você, ele é tortura.

Ela prende o ar.

Ponto exato.

Eu continuo, ainda mais baixo:

- Porque você precisa de reação para acreditar que entrou. E eu ainda não te dei o bastante.

O peito dela sobe numa respiração funda.

Os olhos descem para minha boca.

Eu poderia acabar com isso agora.

Uma inclinação mínima. Um erro pequeno. Um beijo dado no ponto exato entre raiva e desejo sempre causa danos bonitos.

Mas danos bonitos ainda são danos.

E eu não estrago uma estrutura antes de entender o material.

Então não cedo.

Em vez disso, encosto o dedo sob o queixo dela e levanto seu rosto mais um pouco.

- Senta, Carolina.

O comando sai baixo.

Calmo.

Inequívoco.

Os olhos dela queimam.

Por um segundo, acho que vai me desafiar só pelo prazer do confronto.

Ela quase faz isso.

Vejo o impulso.

Vejo a insolência pronta na ponta da língua.

Mas então algo muda.

Uma curiosidade mais escura.

Mais íntima.

E ela senta.

Devagar.

Sem quebrar o contato visual.

A obediência voluntária tem um tipo particular de violência.

Eu a observo por dois segundos longos demais.

Depois volto para o meu lugar à mesa como se nada tivesse acontecido.

Como se eu não estivesse perfeitamente consciente do corpo dela atrás de mim, do silêncio alterado, do jeito como o ar parece mais quente.

Como se não tivesse notado que, pela primeira vez, fui eu quem a fez parar.

Pego a taça.

Bebo um gole de vinho.

E só então digo, olhando para ela por cima da borda do cristal:

- Agora eu reagi.

O rosto dela fica imóvel.

Mas os olhos...

os olhos brilham com alguma coisa perto de raiva. Perto de tesão. Perto do tipo de tensão que transforma qualquer palavra em coisa perigosa.

- Isso? - ela pergunta, quase ofendida. - Você chama isso de reação?

Eu apoio a taça.

- Você ainda está pensando na minha mão no seu braço.

Silêncio.

Atingi fundo.

Ela leva um segundo inteiro para responder.

- E você ainda está pensando na minha mão na sua gravata.

Eu sorrio sem mostrar dentes.

Porque ela está certa.

Porque essa é a pior parte.

Porque, apesar da estrutura, apesar do contrato, apesar da mesa, da cidade, da chuva e de tudo o que eu construí para manter o mundo legível...

Carolina entra em um cômodo e transforma qualquer controle em performance.

- Termine o jantar - digo.

Ela arqueia uma sobrancelha.

- Isso foi outra ordem?

- Isso foi um conselho.

- Você não parece homem de conselhos.

- E você não parece mulher que os siga.

Ela se inclina sobre a mesa, aproximando o rosto.

- Então para de falar como se eu fosse sair daqui domesticada.

Eu sustento o olhar.

Sem pressa.

Sem sorriso.

Sem nada além da verdade crua que eu raramente entrego:

- Eu não quero você domesticada.

Ela fica muito quieta.

Quieta demais.

Eu continuo:

- Eu quero você lúcida o suficiente para entender o que acontece quando para de me provocar e começa a me querer sem estratégia.

A frase cai entre nós como um golpe.

Sem retorno.

Sem enfeite.

Carolina desvia o olhar primeiro.

Só por um segundo.

Mas comigo, um segundo basta.

Ela pega a taça.

Bebe água.

Não vinho.

Ainda tentando manter algum tipo de território.

Eu respeito isso mais do que deveria.

Respeito e desejo desafiar.

Perigosa combinação.

- Você é insuportável - ela murmura.

- E você ainda está aqui.

- Talvez eu goste de sofrer.

- Não. - minhas palavras saem baixas, seguras. - Você gosta de chegar perto demais daquilo que pode te engolir e chamar isso de coragem.

O olhar dela volta para o meu.

Devastador.

Ferido.

Provocante.

Vivo.

- E você? - pergunta. - Gosta de quê?

A resposta já está na minha boca antes que eu decida escondê-la.

- De ver você entrar no fogo achando que é quem está carregando o fósforo.

Silêncio.

Longo.

Inquieto.

Carregado demais.

Ela sorri de novo, só que agora o sorriso não tem leveza alguma. É o sorriso de alguém que ouviu uma ameaça e sentiu tesão em vez de medo.

- Então não reage, Yan - ela diz, baixa, segura, linda demais para ser boa ideia. - Me deixa continuar achando.

Eu a observo.

Inteira.

Demorada e deliberadamente.

E não respondo.

Porque ela ainda não entendeu.

Minha ausência de reação sempre foi a reação mais perigosa que eu tenho.

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