O pior tipo de problema é o que você reconhece antes de acontecer e, mesmo assim, caminha até ele com a postura erguida, como se fosse escolha e não vício.
Eu deveria ir embora.
Essa é a verdade limpa. Simples. Humilhante.
Eu deveria pegar minha bolsa, atravessar essa sala, entrar no elevador e me salvar da parte mais perigosa disso tudo: não é Yan me olhando como se já soubesse o efeito que causa. Não é o contrato. Não é a arrogância afiada dele, nem o jeito como cada palavra sai da boca dele com a pretensão irritante de virar regra.
A parte mais perigosa sou eu... ficando.
Porque permanecer também é uma forma de resposta.
E eu estou respondendo a ele desde a hora em que entrei.
Ele está do outro lado da mesa agora, a taça entre os dedos, o corpo inclinado o mínimo necessário para parecer casual. Mas Yan não é casual. Nada nele é acidente. Até o silêncio dele parece ter sido treinado para intimidar. Até a pausa entre uma frase e outra parece pensada para tirar o ar de alguém.
Eu odeio isso.
Odeio mais ainda gostar.
- Vai continuar me encarando como se pudesse me desmontar com os olhos? - pergunto, apoiando as costas na cadeira.
A voz sai estável. Boa. Melhor do que eu esperava.
Os olhos dele sobem lentamente do meu copo de água até meu rosto. Sempre devagar. Sempre como se tivesse tempo. Como se o mundo inteiro pudesse esperar enquanto ele decide o próximo movimento.
- Ainda não decidi se estou tentando desmontar você - ele responde - ou descobrir quantas partes suas já vieram quebradas.
A frase entra em mim do jeito errado.
Não pelo insulto.
Mas pela precisão.
Meu sorriso sobe, lento, venenoso.
- Essa foi profunda demais para um homem que transformou desejo em contrato.
Ele não sorri. Claro que não. Yan parece o tipo de homem que vê graça nas coisas por dentro e, ainda assim, se recusa a facilitar a vida de qualquer pessoa com a prova disso.
- E essa foi defensiva demais para uma mulher que diz não se importar.
Eu cruzo as pernas devagar. Não para seduzir. Pelo menos não só por isso. Faço porque preciso de alguma coisa física para segurar, alguma lembrança de que ainda sou dona do meu corpo quando ele me olha desse jeito.
- Eu não me importo. Eu só não gosto quando homens arrogantes confundem análise com intimidade.
O olhar dele desce um segundo para minhas pernas. Volta.
Um segundo.
Apenas um.
Mas eu vejo.
E odeio o alívio pequeno, imundo, delicioso que sobe pela minha pele quando percebo que ele também falha. Nem que seja só nos olhos.
- Intimidade exige confiança - ele diz. - Nós ainda estamos em outra fase.
Eu me inclino um pouco para frente.
- Qual?
- A fase em que você me provoca para não admitir que está curiosa.
Uma risada baixa escapa antes que eu consiga impedir.
- Curiosa? Sobre o quê? Sobre quanto tempo você consegue fingir autocontrole antes de virar só mais um homem com ego e mãos ansiosas?
Pronto.
Atingi.
Vejo no maxilar dele. Só um toque de tensão. Mínimo. Quase elegante. Mas vejo.
É o bastante para eu querer mais.
Talvez esse seja o meu lado mais feio: quando encontro uma fissura, eu não passo por ela. Eu enfio os dedos.
Yan apoia a taça com calma, como se eu não tivesse acabado de mirar onde dói.
- Você fala de homens como quem conhece o catálogo inteiro.
- E você fala de mulheres como quem já leu o manual.
- E não li?
- Não o meu.
Silêncio.
A chuva engrossa.
Meu coração erra um compasso estúpido quando ele se levanta.
Sem pressa.
O som baixo da cadeira contra o piso parece muito alto dentro da minha cabeça. Ele contorna a mesa lentamente, sem tirar os olhos de mim, e eu continuo sentada porque me recuso a oferecer o prazer de me ver recuar.
Mas meu corpo sabe.
Meu corpo sempre sabe primeiro.
A aproximação dele muda o ar. Muda a temperatura. Muda o espaço ao redor das minhas costelas.
Yan para ao lado da minha cadeira.
Perto demais.
Sem tocar.
E é exatamente isso que torna tudo pior.
Tocar seria simples. Tocou, você entende. Tocou, você reage. Tocou, existe um lugar objetivo onde a tensão se torna fato.
Mas sem toque...
sem toque, a imaginação faz o trabalho sujo.
Ele apoia uma mão no encosto da minha cadeira. A outra repousa no bolso da calça. O paletó ficou para trás em algum lugar da cobertura, e a camisa branca dobrada nos antebraços é o tipo de detalhe que devia ser insignificante e não é. Eu consigo ver a linha do pulso dele, a veia discreta na mão, o controle até no jeito de respirar.
Quero olhar para outro lugar.
Não olho.
- Levanta - ele diz.
Meu queixo sobe.
- Isso foi um pedido ou uma ordem?
Ele inclina o rosto. Não sorri. Só me observa como se já soubesse o que vai encontrar do outro lado da minha resistência.
- Isso foi o caminho mais curto.
- Pra quê?
- Pra você parar de se esconder atrás da mesa.
A frase me irrita mais do que devia porque, no fundo, ele tem razão. Estar sentada me protege de um jeito ridículo. Me dá um cenário, um objeto entre nós, alguma estrutura. E eu odeio quando ele percebe aquilo que eu tento não dizer nem com postura.
Levanto.
Devagar.
Não porque obedeci.
Porque escolhi não parecer acuada.
Fico de frente para ele. E, em pé, a diferença entre nós se reorganiza. Yan é maior, claro. Não só pelo corpo. Pela presença. Por aquele tipo de silêncio masculino que não implora espaço - toma.
Meu corpo inteiro se torna consciente de si.
Do vestido justo demais na cintura.
Da pele exposta entre o colo e o tecido escuro.
Da barra do vestido contra a metade das coxas.
Da respiração que eu tento manter regular.
Ele observa tudo isso. Não de forma vulgar. Não como um homem faminto demais. Pior. Como um homem que sabe que pode esperar.
- Melhor - ele murmura.
Eu rio sem humor.
- Você avalia tudo como se estivesse comprando uma propriedade.
Os olhos dele sobem até os meus.
- E você se defende com ironia como se ela pudesse esconder que gosta quando eu chego perto.
O golpe vem limpo.
Meu peito sobe numa respiração mais profunda. Não por fraqueza. Por raiva. É isso que eu digo para mim mesma, pelo menos.
- Você realmente acha que tudo gira em torno do seu efeito sobre mim.
Ele dá meio passo à frente.
Agora a borda da cadeira toca a parte de trás das minhas pernas. O corpo dele ainda não me encosta, mas eu sinto o calor. Sinto a ameaça. Sinto a possibilidade.
- Não tudo - ele diz. - Só essa sala.
Maldito.
Arrogante.
Insuportável.
Meu tipo exato de erro.
- Então eu devia te cobrar aluguel por estar vivendo tanto na minha cabeça - eu devolvo.
Dessa vez, o canto da boca dele sobe quase nada. Quase um sorriso. Quase uma rachadura na superfície perfeita.
- Se eu estiver na sua cabeça, Carolina, está barato demais.
Meu pulso falha.
Só um pouco.
Mas ele vê.
Claro que vê.
Vejo quando o olhar dele desce para minha boca. Não rápido. Não escondido. Ele fica ali por um segundo longo o bastante para meu corpo inteiro se lembrar de que tem terminações nervosas. Depois volta aos meus olhos, como se me devolvesse intacta e, ao mesmo tempo, não devolvesse nada.
- O que você quer de verdade? - pergunto.
A pergunta sai mais baixa do que eu queria. Menos afiada. Mais sincera.
Erro.
Mas já foi.
Ele percebe a mudança e a absorve como tudo que absorve: sem barulho, sem pressa, sem misericórdia.
- Hoje?
- Hoje.
- Ver se você sustenta a mesma coragem quando eu não facilito.
Silêncio.
Eu ergo o queixo.
- E eu quero ver se por trás desse controle todo existe um homem de verdade ou só um ego vestido sob medida.
Os olhos dele escurecem.
Atingi.
De novo.
Mas dessa vez a vitória não vem limpa. Vem misturada com alguma coisa mais perigosa, porque ele não se afasta quando é ferido. Ele se aproxima.
Mais um passo.
Agora existe menos de um sopro entre nós.
Sem toque.
Sem beijo.
Sem saída confortável.
Meu corpo reage como se ele já estivesse me tocando. Essa é a parte que me enfurece. Porque não é a mão dele na minha pele que me desorganiza. É a ausência dela. É saber que ele sabe exatamente o que está fazendo ao parar antes. Ao me deixar nesse lugar absurdo entre expectativa e frustração.
- Você fala muito sobre homem de verdade - ele murmura, a voz baixa o bastante para parecer um segredo ruim. - Me diz, Carolina... quantos precisaram gritar, apertar, prometer demais, pra te convencer que desejo só é real quando vem bagunçado?
Aquilo me atravessa.
Forte.
Pessoal demais.
Perigoso demais.
Por um segundo, meu instinto é recuar. Não fisicamente. Nunca fisicamente. Mas por dentro. Erguer muralha. Vestir sarcasmo. Cortar.
Faço o que sei fazer melhor.
- E quantas mulheres precisaram aceitar migalhas para você acreditar que controle é a mesma coisa que caráter?
Os olhos dele ficam frios.
Não vazios.
Pior.
Precisos.
A sala inteira parece encolher ao redor do silêncio que se instala entre nós. É o tipo de silêncio que arranha. Que encosta sem pedir licença. Que faz o corpo lembrar que existe algo brutal em não tocar.
A mão dele sobe.
Lenta.
E para.
Ao lado do meu rosto.
Sem encostar.
Meu coração bate no pescoço como se quisesse me denunciar.
Ele sabe.
Inferno, ele sabe.
- Você quer que eu reaja - ele diz. - Porque reação te dá prova. Te dá chão. Te dá alguma coisa concreta pra transformar em raiva.
Eu sustento o olhar dele com tudo que tenho.
- E você quer que eu ceda. Porque rendição alimenta o seu vício de comando.
Ele inclina o rosto um pouco mais.
Tão perto que, se eu respirar errado, a boca dele toca a minha.
- Eu não quero que você ceda.
A frase me confunde por um segundo idiota.
- Não?
- Não. - O olhar dele desce para minha boca outra vez. Volta. - Eu quero que você escolha. E odeio o quanto você ainda não sabe a diferença.
Aquilo me irrita porque me expõe.
Porque, em algum lugar que eu não gosto de visitar, ele pode estar certo.
Então faço o que toda mulher ferida e orgulhosa faz quando um homem chega perto demais da verdade: ataco.
- Você fala como se fosse difícil te querer. Não é. O difícil é respeitar o que vem junto.
Ponto.
Atingi fundo.
Eu vejo na linha do maxilar. Na respiração controlada em excesso. Na mão ainda suspensa ao lado do meu rosto, firme demais para ser casual.
Mas ele não devolve no mesmo tom.
Ele piora.
- E você fala como se fosse impossível desejar você e ainda assim não confiar no motivo pelo qual ficou.
O golpe entra seco.
Meu estômago aperta.
Merda.
Merda.
Merda.
A frase tem veneno demais. Não pelo que diz na superfície, mas pelo que insinua. Dinheiro. Interesse. Escolha comprada. É isso que ele pensa. É isso que ele provavelmente sempre vai pensar.
Sinto a raiva subir, viva, quente, quase um alívio porque raiva é mais fácil do que a outra coisa. Muito mais fácil.
- Então é isso? - pergunto, a voz mais baixa e perigosa. - Você me quer perto o suficiente pra desejar e longe o suficiente pra desprezar?
Ele não se move.
- Eu quero entender por que você aceitou.
- E se a resposta for pior do que o seu ego suporta?
- Tenta.
Ele disse "tenta" como se me desafiasse a arrancar a própria pele ali, diante dele. Como se quisesse verdade mas só nas condições dele. Como se eu devesse me abrir enquanto ele continua vestido de controle do pescoço aos sapatos.
Meu sorriso vem torto.
Falso.
Afiado.
- Talvez eu tenha aceitado porque gosto do seu dinheiro, Yan. Talvez eu tenha olhado pra você e pensado em joias, viagens, conforto. Talvez você seja só um homem difícil com uma conta bancária impressionante.
A mentira fica entre nós como gasolina.
Eu vejo o efeito.
Não explosão.
Nunca explosão.
Mas algo mais grave: a contenção dele se torna ainda mais precisa, o que significa que eu realmente o atingi.
- Essa resposta não combina com seus olhos - ele diz.
Meu coração tropeça.
Odeio quando ele fala como se me visse.
- E você acha que me conhece pelos olhos?
- Acho que você mente pior do que provoca.
A raiva se mistura com outra coisa mais funda, mais triste, mais escura. Uma coisa que eu não quero nomear porque nomear seria admitir que parte de mim realmente queria que ele enxergasse. Não a versão provocadora. Não a mulher que desafia por esporte. Eu.
Idiota.
Perigoso.
Imperdoável.
Então eu dou o golpe mais baixo que posso.
- E você transa como fala? - pergunto, baixa, afiada, suja do jeito certo. - Cheio de controle, cheio de pausas, como se toda mulher devesse agradecer pela demora? Ou só enrola assim quando está com medo de não ser inesquecível?
Silêncio.
Absoluto.
O tipo de silêncio que nasce quando se cruza uma linha.
Minha respiração acelera.
Não de arrependimento.
De expectativa.
Porque agora eu realmente não sei o que ele vai fazer.
Yan me olha de um jeito que me faz sentir pele, osso, impulso, erro. Não é raiva simples. É algo mais complexo, mais masculino, mais perigoso. Uma mistura de ofensa e desejo que altera a gravidade do ambiente.
A mão dele, ainda suspensa ao lado do meu rosto, desce devagar. Passa pelo ar entre nós. Para na altura da minha cintura.
Sem toque.
Sem encostar.
Só a proximidade.
Só a ameaça da mão dele ali.
Meu corpo inteiro reage como se já tivesse acontecido.
Maldito.
- Quer mesmo essa resposta? - ele pergunta, a voz rouca pela primeira vez.
Meu pulso dispara.
Mas eu sorrio.
- Talvez eu queira ver se você sabe dar.
O olhar dele escurece tanto que quase dói sustentar.
Ele chega um milímetro mais perto.
Só um.
O suficiente para minha cabeça tocar a beirada da cadeira atrás de mim.
- Eu saberia exatamente como fazer você parar de usar essa boca pra ferir e começar a usar pra implorar - ele diz, baixo, devastador, sem me tocar - mas essa noite não vai te dar esse privilégio.
Meu corpo trai.
Um arrepio desce inteiro pela minha coluna.
Quente.
Cruel.
Humilhante.
E o pior é que ele vê. Ele vê tudo. A forma como minha respiração falha. Como meus dedos se fecham devagar na lateral do vestido. Como meu olhar cai por um segundo na boca dele e volta tarde demais.
Então ele se afasta.
Assim.
Simplesmente.
Dando um passo para trás como se pudesse me deixar pegando fogo sozinha e ainda parecer dono da situação.
Ódio sobe pela minha garganta junto com desejo. Uma mistura tão indecente que quase me faz rir.
- Covarde - sussurro.
Ele pega a taça, gira o vinho uma vez, observa o líquido como se não tivesse acabado de bagunçar meu corpo inteiro sem usar uma mão sequer.
- Não. - Ele ergue os olhos para mim. - Inteligente.
Eu me endireito devagar, me afastando da cadeira. Preciso recuperar alguma coisa que se pareça com território.
- Você chama isso de inteligência?
- Chamo de saber a diferença entre ganhar tensão e desperdiçá-la.
Meu peito sobe e desce mais rápido do que deveria.
- Você acha que está ganhando.
- Não. - Ele inclina a cabeça. - Acho que você está.
A frase me confunde de novo.
Odeio isso. Odeio quando ele tira o chão e me deixa nesse espaço onde não sei se fui lida, protegida ou manipulada.
- Explica.
Ele apoia a taça.
Cruza os braços.
E, pela primeira vez desde que cheguei, parece... quase honesto.
- Você quer me ver reagir com toque porque toque simplifica. Toque te dá motivo pra odiar, desculpa pra desejar, prova concreta de que eu perdi primeiro. Sem toque, o que sobra é pior.
Silêncio.
Minha boca seca.
Porque eu sei.
Sei exatamente o que sobra.
O pensamento. A antecipação. O quase. A tortura limpa de imaginar.
- E o que sobra? - pergunto, mesmo assim.
Ele me olha como se a resposta já estivesse escrita no meu corpo.
- Você inteira pensando em mim depois que sair daqui.
Aquilo me atravessa como um fósforo.
Meu orgulho se levanta imediatamente, armado até os dentes.
- Narcisista.
- Assustada.
Eu dou um passo na direção dele.
- Você não me assusta.
Ele dá um na minha.
- Ainda não.
Ficamos assim, um sopro de distância de novo, só que agora é diferente. O ar não está apenas quente. Está carregado de alguma coisa mais funda, mais perigosa do que tesão. Orgulho ferido. Curiosidade brutal. Uma fome que não é de corpo apenas. É de poder. De verdade. De desmascarar.
- Você é insuportável - murmuro.
- E você continua aqui.
- Talvez eu goste de ver até onde sua pose aguenta.
- Talvez eu goste de deixar você perto o suficiente pra se perder.
Meus dedos sobem até a lapela da camisa dele. Não toco. Pairo. Milímetros apenas. Repito o que ele fez comigo. Proximidade. Promessa. Frustração.
Os olhos dele descem para minha mão.
Voltam.
- Isso é cruel - ele diz.
- Aprendi com você.
- Então aprendeu rápido.
- E você subestima fácil.
Dessa vez sou eu quem recua.
Apenas um passo.
O bastante para respirar sem o cheiro dele dentro de mim.
Pego minha bolsa na cadeira. Endireito a postura. Refaço a boca, o queixo, a máscara inteira.
- O jantar acabou.
Ele não tenta impedir.
Não oferece carona. Não pede que eu fique. Não recorre a charme, desculpa ou controle visível.
Só me olha.
Esse homem sabe que o silêncio certo pode seguir alguém até em casa.
Eu caminho até a porta.
Minhas costas sentem o olhar dele o tempo todo, quente como mão que não veio. Quando chego perto da saída, paro. Não me viro de imediato. Porque uma parte de mim sabe que, se eu olhar agora, talvez volte. Talvez diga alguma coisa errada. Talvez faça alguma loucura.
Mas eu me viro mesmo assim.
Claro que me viro.
Yan continua no mesmo lugar. Escuro contra a luz da cidade chuvosa. Perigoso demais para parecer real. Os botões da camisa impecáveis, o rosto calmo, a boca séria. E os olhos...
os olhos em mim como se eu fosse um incêndio bonito demais para apagar.
- Isso não acabou - ele diz.
Não é ameaça.
Não é promessa.
É fato.
Meu coração responde antes que eu consiga impedir.
Eu seguro a maçaneta.
- Pra você, talvez.
O canto da boca dele se move quase nada.
- Pra você também.
Eu deveria negar.
Deveria rir.
Deveria ser cruel mais uma vez.
Mas alguma coisa no meio do peito já está cansada de fingir que não sabe.
Então entrego o único tipo de honestidade que ainda consigo sem me trair por inteiro:
- O pior de tudo, Yan... - minha voz sai baixa, íntima, afiada como vidro molhado - é que você nem precisou me tocar.
E saio antes que ele veja o estrago.