Do jeito que deve ser.
Do jeito que sempre funcionou.
Mas hoje...
Não parece suficiente.
Porque não é o contrato que está em jogo.
É a reação dela a ele.
E isso não pode ser previsto com precisão.
Eu não gosto disso.
O relógio marca 19h58.
Ela chega em dois minutos.
Ou não chega.
As duas opções dizem muito.
A primeira confirma interesse.
A segunda... confirma independência.
E curiosamente-
As duas me interessam.
Um leve toque na porta interrompe a linha de pensamento.
Pontual.
Claro que sim.
- Entre.
A porta se abre sem hesitação.
Ela entra como entrou da primeira vez: sem pedir permissão ao espaço.
Isso diz mais sobre ela do que qualquer palavra.
Meu olhar percorre automaticamente.
Vestido diferente.
Mais escuro.
Mais... contido.
Mas o efeito é o oposto.
Nada nela é realmente contido.
Ela fecha a porta atrás de si com calma, como se estivesse marcando o início de algo.
E talvez esteja.
- Você gosta de horários exatos - ela comenta, caminhando lentamente até a mesa.
A voz é baixa.
Controlada.
Mas há algo por baixo.
Provocação.
- Gosto de saber com o que estou lidando.
Ela para do outro lado da mesa.
Não senta.
Não ainda.
Os olhos descem para o contrato.
Voltam para mim.
- E acha que isso aqui resolve?
Eu me levanto.
Devagar.
Sem pressa.
Ajusto o botão do paletó enquanto contorno a mesa.
Não fico atrás dela.
Fico ao lado.
Mais próximo.
Mais... direto.
- Resolve o que precisa ser resolvido.
Ela solta um pequeno riso.
Sem humor.
- Que conveniente.
Silêncio.
Eu observo o micro movimento do corpo dela.
A respiração levemente mais profunda.
O peso mudando de um pé para o outro.
Ela sente.
Mesmo tentando não mostrar.
- Leia - digo, apontando para o documento.
Ela não se move imediatamente.
Claro que não.
Ela me olha primeiro.
Longo.
Como se estivesse tentando entender onde exatamente está entrando.
Ou... onde pretende me levar.
Então finalmente se aproxima da mesa.
Pega o contrato.
Mas não lê de imediato.
Passa os dedos pela borda do papel.
Devagar.
Como se estivesse sentindo mais do que apenas o material.
- Você sempre transforma tudo em termos?
- Tudo que importa.
Ela levanta o olhar.
Direto.
- E eu importo?
A pergunta não é leve.
Não é provocação simples.
É... mais.
Eu sustento.
Sem hesitar.
- Você está aqui.
Ela inclina levemente a cabeça.
- Isso não responde.
- Responde o suficiente.
Silêncio.
O tipo de silêncio que não precisa ser preenchido.
Porque já está carregado.
Ela finalmente olha para o contrato.
Lê.
Os olhos percorrem as linhas com atenção real.
Nada superficial.
Nada automático.
Isso... me chama atenção.
A maioria não lê.
Aceita.
Ela analisa.
Detalhe por detalhe.
Minuto por minuto.
E isso muda a dinâmica.
- Exclusividade - ela murmura, mais para si do que para mim.
- Sim.
- Controle de agenda.
- Sim.
Ela vira a página.
- Presença obrigatória quando solicitado.
- Sim.
Ela para.
Respira fundo.
E então levanta o olhar.
- Você quer posse.
Direto.
Sem suavizar.
Eu não recuo.
- Eu quero clareza.
Ela dá um passo à frente.
Agora não há mesa entre nós.
Só ar.
E tensão.
- Não. - a voz dela baixa um tom - Você quer garantir que eu não tenha escolha.
Algo dentro de mim reage.
Rápido.
Instintivo.
Mas eu não deixo aparecer.
- Você sempre tem escolha.
- Dentro do que você define.
A correção vem imediata.
Afiada.
Ela não está errada.
Mas também não está no controle.
Ainda não.
Eu me aproximo um pouco mais.
O suficiente para invadir o espaço pessoal.
Mas não o suficiente para tocar.
- E isso te incomoda?
Ela não recua.
Claro que não.
- Me desafia.
A resposta vem firme.
Sem tremor.
Sem fuga.
Droga.
Isso é...
Interessante demais.
Meu olhar desce por um segundo.
O contorno da boca dela.
Volta.
- Desafio pode ser resolvido.
- Ou pode sair do controle.
Silêncio.
Curto.
Mas denso.
- Eu não saio do controle.
Ela sorri.
Mas não é leve.
É quase... perigoso.
- Todo mundo sai.
As palavras ficam entre nós.
Vivas.
Eu seguro o queixo dela com dois dedos.
Dessa vez mais firme.
Testando.
Medindo.
Ela não tenta se soltar.
Mas a respiração muda.
E isso é suficiente.
- Não comigo.
Ela sustenta meu olhar.
E responde baixo.
Muito baixo.
- Veremos.
Solto.
Devagar.
Porque ficar mais um segundo assim...
não seria estratégico.
Volto um passo.
Recomponho.
- Assine.
Simples.
Direto.
Como deve ser.
Ela olha para o contrato novamente.
Depois para mim.
Depois de volta para o papel.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
Três.
Tempo suficiente para qualquer pessoa recuar.
Mas ela não recua.
Ela pega a caneta.
Gira entre os dedos.
E então-
Para.
- Se eu assinar... - a voz vem mais baixa agora - isso muda tudo?
Eu respondo sem hesitar.
- Define tudo.
Ela solta um pequeno riso.
- Você realmente acredita nisso.
- Eu não acredito. Eu construo.
Silêncio.
Ela me encara.
E pela primeira vez...
há algo diferente ali.
Não é só provocação.
Não é só desafio.
É... decisão.
Ela se inclina levemente sobre a mesa.
Assina.
Sem pressa.
Sem tremor.
Sem pedir mais nada.
O som da caneta no papel é baixo.
Mas o efeito-
Não é.
Ela solta a caneta.
E o olhar volta para mim.
- Pronto.
Simples assim.
Mas não é simples.
Nada nisso é simples.
Eu observo.
Registro.
Processo.
Mas algo dentro de mim não segue o padrão.
Porque isso deveria ser vitória.
Controle.
Conclusão.
Mas não é o que parece.
- Você não leu tudo.
Ela dá um passo à frente.
Mais perto.
De novo.
- Eu não preciso.
- Confia assim?
Ela inclina a cabeça.
Quase um desafio.
- Não confio.
Silêncio.
- Então por quê?
Ela sustenta o olhar.
E responde:
- Porque eu quero você.
Direto.
Sem defesa.
Sem filtro.
Isso bate.
Mais forte do que deveria.
Meu corpo reage antes da lógica.
Aproximo.
Dessa vez não paro tão cedo.
Fico perto o suficiente para sentir o calor dela.
Para perceber o ritmo da respiração.
Para notar o detalhe que ninguém mais veria.
Ela também sente.
Claro que sente.
- Isso não faz parte do contrato - eu digo baixo.
Ela não se afasta.
- Talvez seja a única parte real.
O ar muda.
De novo.
Mais denso.
Mais instável.
Eu seguro o pulso dela.
Não com força.
Mas com intenção.
- Você não faz ideia do que acabou de aceitar.
Ela inclina o rosto.
A respiração toca minha pele.
- E você não faz ideia do que acabou de começar.
Silêncio.
Pesado.
Carregado.
Errado.
Eu deveria parar.
Encerrar.
Redefinir.
Mas não faço.
Porque agora...
não é mais sobre controle.
É sobre ela.
E isso-
É o tipo de erro que não pode ser desfeito.
Mesmo antes de acontecer.
Eu solto o pulso dela lentamente.
Mas não me afasto.
Não completamente.
- Amanhã começa.
Ela sustenta.
Sem hesitar.
- Já começou.
E pela primeira vez em muito tempo...
Eu não discordo.