"Toma", disse ele, sua voz plana, desprovida de qualquer calor. "Vá comprar uma refeição. E fique longe da minha propriedade."
O mundo girou. A nota de duzentos reais, um frágil retângulo verde, tremulou entre nós. Não um abraço. Não uma palavra de reconhecimento. Uma esmola. Para uma mendiga. Suas palavras foram um golpe físico, uma parede fria se chocando contra minha esperança.
Minha mão disparou, não para pegar o dinheiro, mas para tocá-lo. Para provar que eu era real. Para fazê-lo sentir minha presença. "Bruno, sou eu. Amanda." Minha voz era um sussurro rouco.
Ele recuou, como se meu toque fosse veneno. Seu rosto se contorceu em repulsa. "Não me toque!", ele rosnou, dando um passo apressado para trás. "Sua mulher louca."
A nota de duzentos reais escorregou de seus dedos, caindo no chão, uma folha verde na poeira. Pousou perto dos meus pés, um símbolo da minha dignidade estilhaçada.
"Bruno, o que você está fazendo?" A voz de Carla, doce e preocupada, veio de trás dele. Ela se aproximou, passando o braço pelo dele. Seus olhos, no entanto, encontraram os meus. Um lampejo de reconhecimento, um brilho de triunfo. E então, um véu de falsa piedade.
Ela sabia. Ela com certeza sabia.
"É só uma louca, querido", Bruno murmurou, puxando Carla para mais perto. Ele me deu as costas, protegendo ela e Enzo da minha presença. Ele era o escudo dela. Meu mundo desmoronou.
Enzo, que observava em silêncio, seu rostinho uma mistura de confusão e medo, olhou para mim uma última vez. Seus olhos continham uma estranha e triste curiosidade. Então, Carla apertou sua mão, e ele se virou, desaparecendo dentro de casa com ela e Bruno. A pesada porta de carvalho se fechou, ecoando a finalidade do meu abandono.
Minhas pernas cederam. Caí no chão, a terra fria e implacável contra minha pele. Minha alma parecia oca, esvaziada. A nota de duzentos reais ainda estava lá, zombando de mim. Automaticamente, estendi a mão para pegá-la, meus dedos se contraindo.
"Aposto que você não esperava que ele fosse tão cruel, não é?", o guarda zombou, chutando uma pedrinha em minha direção. "Dizem que o Sr. Sharpe vai ficar noivo da Srta. Watkins no próximo mês. Ele diz que ela o ajudou a seguir em frente depois que a esposa dele fugiu com um gringo. Você é apenas uma lembrança dolorosa agora, moça. E uma bem feia, por sinal."
Ele cutucou a nota com a bota. "Vá em frente, pegue. Ele não vai querer que a nova noiva dele veja você por aqui. Vá comprar uma passagem para sair daqui."
A dor no meu peito se intensificou, uma agonia lancinante que fez minha visão turvar. Não era apenas meu coração se partindo; minhas velhas feridas, as da captura, inflamaram. Meu corpo tremia incontrolavelmente.
"Levanta!", o guarda latiu, uma mangueira aparecendo de repente em sua mão. Um jato de água gelada me atingiu, tirando o ar dos meus pulmões. A força rasgou minhas roupas esfarrapadas, lavando a sujeira, mas deixando minha pele em carne viva e ardendo. Engasguei, meus pulmões lutando por ar. "Saia daqui antes que eu chame a polícia por invasão de propriedade!"
Rastejei, meio cega pela água, arrastando meu corpo quebrado pela longa entrada de carros, agarrando-me às sombras. Cada movimento era uma agonia, mas eu continuei, para longe da casa bem iluminada, para longe da família feliz lá dentro.
Desabei em um beco escuro atrás de uma fileira de latas de lixo, o concreto frio um substituto pobre para uma cama. O mundo ficou preto.
Um aroma doce e enjoativo me despertou. Meu estômago roncou, um som oco e desesperado. Eu estava faminta. Meus olhos se abriram. Um bolo pela metade, jogado descuidadamente em uma lixeira, me chamava. Avancei, minhas mãos procurando as migalhas açucaradas. Tinha gosto de cinzas e paraíso.
Então, uma dor aguda e lancinante na minha boca. Cuspi um pedaço de vidro, sangue florescendo na minha língua. Um ato deliberado. Alguém me queria fora. Permanentemente.
Nesse momento, uma explosão de luz irrompeu no céu. Fogos de artifício. Vermelhos, dourados e verdes. Eles floresceram sobre a cidade, formando palavras que eu quase conseguia ler: "Case-se Comigo, Carla."
Uma risada amarga escapou dos meus lábios, um som seco e arrastado. Ele estava pedindo ela em casamento. Para ela. Em uma noite em que eu comia bolo descartado de uma lixeira, sangrando por um ferimento deliberado, e assistindo minha vida se desenrolar com ela no meu lugar.
A última centelha de esperança no meu coração morreu. Não apenas morreu, mas foi incinerada.
Tirei a nota de duzentos reais, ainda agarrada na minha mão. Estava suja, amassada, mas era dinheiro. O suficiente para comprar um celular pré-pago. O suficiente para fazer uma ligação. Minha última tábua de salvação.
Meus dedos desajeitados discaram um número que eu não usava há quatro anos. Tocou uma, duas vezes... então um clique. "Aqui é o Cláudio."
"É a Amanda", murmurei, minha voz mal humana. "Eu voltei. Eu quero entrar. Projeto Rouxinol."
Houve um longo silêncio do outro lado, depois um suspiro. "Rouxinol? Amanda, você sabe o que isso implica. Um apagamento completo. E sua condição..."
"Eu não me importo", cortei-o, minha voz ganhando força. "Não tenho mais nada a perder. Queime tudo. Quero construir algo novo das cinzas."
Projeto Rouxinol. A mais secreta das operações secretas, projetada para agentes que precisavam desaparecer completamente, corpo e alma. Significava desistir de tudo, até da minha identidade. Minha vida como Amanda Park. Minhas memórias, minhas emoções. Uma reengenharia psicológica completa. Eu já sonhei com uma vida tranquila, uma família, uma existência normal. Esse sonho estava morto.
Fechei os olhos. "Diga ao Bruno", falei, minha voz fria, desapegada, "que Amanda Park está oficialmente morta. Ele conseguiu o que queria. Diga a ele para ser feliz com a Carla. Ela é toda dele. E o meu filho também."
As palavras pareceram uma incisão cirúrgica, cortando as últimas terminações nervosas que me conectavam ao meu passado. Não havia mais volta.