Eu sempre soube que Bruno era inconstante. Suas paixões queimavam intensas e rápidas. Eu até me preparei para a possibilidade de que ele pudesse seguir em frente, encontrar outra pessoa depois de quatro anos da minha suposta morte. Uma parte de mim, a agente lógica, entendia. Quatro anos era muito tempo. As pessoas mudam. A vida continua.
Eu não fui uma boa esposa por quatro anos. Não fui uma boa mãe. Estive ausente. Talvez, raciocinei no beco escuro, ele merecesse a felicidade. Ele merecia uma vida normal.
Mas não com a Carla. Nunca com a Carla. Minha meia-irmã, a sombra perpétua, sempre cobiçando o que era meu. Esse era o pecado imperdoável. A traição suprema. Ela não era apenas uma substituta; era uma usurpação deliberada.
A última explosão de fogos de artifício se desvaneceu, deixando o céu noturno parado e vazio, muito parecido com a minha alma. A cidade zumbia com um barulho distante e comemorativo. Mas aqui, no beco, apenas o silêncio do meu desespero permanecia.
Meu corpo gritava em protesto, mas uma estranha e fria determinação se instalou em mim. Eu precisava de um lugar para descansar, um lugar para planejar. E só havia um lugar que eu conhecia. A casa de Bruno. A fonte da minha dor seria agora meu santuário temporário.
Arrastei-me de volta, cada passo um testemunho de uma nova e aterrorizante indiferença. Ao me aproximar da propriedade, uma multidão de jovens festeiros impecavelmente vestidos saía pelos portões, suas risadas ecoando no ar fresco da noite. Eram barulhentos, turbulentos, seus rostos corados pela bebida. Cheiravam a perfume caro e emoções baratas.
Um deles, um jovem com cabelo penteado para trás e um sorriso arrogante, me viu. "Olha o que o vento trouxe! Uma prostituta de rua da vida real!", ele arrastou as palavras, empurrando seus amigos. "Ei, quanto por uma rapidinha?" Ele tirou um maço de dinheiro, abanando-o zombeteiramente.
Eu o encarei, meus olhos vazios. Meu corpo era uma ruína, mas minha dignidade, o pouco que restava, ainda era minha para defender. Afastei sua mão, o dinheiro se espalhando pelo chão.
Seu sorriso se transformou em um rosnado. "Ah, uma orgulhosa, é? Assim como o velho disse, algumas pessoas precisam aprender uma lição." Ele avançou, seus amigos se aproximando.
Meu treinamento entrou em ação, um eco fantasma de uma vida que eu pensei ter desaparecido. Anos de combate corpo a corpo, de desviar de golpes, de usar a agressão de um oponente contra ele. Meus movimentos eram desajeitados, meu corpo rígido de dor, mas a memória muscular estava lá. Abaixei-me sob um golpe selvagem, dei uma joelhada na virilha de outro agressor e girei, usando o impulso deles para criar uma abertura.
"Peguem ela!", alguém gritou.
Corri, a adrenalina bombeando por minhas veias exaustas. Eles subiram em suas motocicletas, os motores rugindo para a vida, uma sinfonia predatória na noite. Pneus cantaram, faróis brilhando na minha visão periférica.
Pressionei-me contra a parede de um prédio, esperando despistá-los, mas a moto era rápida. Rápida demais. Ela me atingiu por trás. Senti o impacto, um estalo brutal de osso e metal, antes de ser arremessada. Minha cabeça bateu no pavimento com um baque nauseante. A dor explodiu atrás dos meus olhos, depois a escuridão.
Fracamente, ouvi vozes. "Meu Deus, ela está morta?" "Nós a atingimos com muita força!" "O que fazemos?" "Chame uma ambulância! Chame a polícia!"
Um feixe de luz cortou a escuridão, pousando no meu rosto. Minhas pálpebras se abriram, minha visão embaçada. Meu corpo era um peso de chumbo, cada centímetro gritando.
"Espere... essa não é... Amanda Park?" Uma voz de mulher, sussurrada e aterrorizada.
"Não, é impossível! Ela morreu há quatro anos!", outra respondeu.
"Não, não, é ela!" A primeira mulher ofegou. "A esposa de Bruno Sharpe! A que desapareceu!"
Um silêncio súbito caiu sobre a multidão. Então, uma voz familiar, afiada de irritação. "Que comoção é essa?"
Bruno. E Carla. Até mesmo Enzo. Eles estavam na beira da multidão, seus rostos uma mistura de curiosidade e aborrecimento, iluminados pelas luzes piscantes de uma ambulância que chegava.
"Sr. Sharpe", um policial começou, "parece ser sua esposa desaparecida, Amanda Park. Ela foi atingida por uma motocicleta."
Os olhos de Bruno se arregalaram, depois se estreitaram. Ele avançou, abrindo caminho entre os curiosos. Ele olhou para mim, seu rosto uma máscara de incredulidade.
"Não", disse ele, sua voz fria, desdenhosa. "Não pode ser. Ela é... ela é apenas uma moradora de rua que se parece vagamente com ela. Amanda está morta."
Enzo, meu doce Enzo, puxou a mão de Carla. "Papai, essa é a mulher louca de novo? Aquela que se chamava de mamãe? Ela não é minha mãe, né? Minha mãe é a Carla!" Ele olhou para Bruno, seus olhos arregalados, buscando confirmação.
O olhar de Bruno endureceu. Ele se ajoelhou ao meu lado, seus olhos examinando meu rosto arruinado. "Ela não é a Amanda", repetiu ele, sua voz desprovida de emoção. "Amanda nunca teria essa aparência. Ela não estaria aqui." Ele afastou uma mecha de cabelo emaranhado do meu rosto, seus dedos roçando uma cicatriz irregular. "Além do mais", acrescentou ele, uma provocação cruel em sua voz, "Amanda era linda."
Meus olhos, já nadando em lágrimas, finalmente cederam. Elas escorreram pelas minhas bochechas, misturando-se com o sangue dos meus arranhões. Meu mundo se fragmentou. Eu vi seu rosto, o rosto do homem que jurou me amar para sempre. O rosto do homem que disse que nunca deixaria nada me machucar.
E lembrei-me de suas palavras, ditas tantos anos atrás, sussurradas contra meu cabelo: "Eu sempre vou te proteger, meu amor. Sempre."
Era tudo mentira. Ele era como seu pai, e o pai de seu pai. Uma linhagem inteira de homens que descartavam mulheres quando elas não eram mais convenientes. Minha visão ficou em branco, engolida por uma escuridão consumidora.