Tentei falar, confirmar, mas minha garganta estava em carne viva, minha língua grossa. Uma onda de tontura me atingiu. Apenas encarei o teto, minha mente uma tela em branco de dormência. Não havia família. Não mais. Eu estava sozinha. Absolutamente, completamente sozinha.
A porta rangeu ao se abrir. Bruno.
Ele parou na porta, impecavelmente vestido como sempre, um contraste gritante com meu corpo quebrado. "Eu paguei a conta do hospital", disse ele, sua voz plana, formal. Ele não estava falando comigo, mas com a enfermeira. "Ela está clinicamente estável agora."
Suas palavras, destinadas a soar responsáveis, eram uma demissão calculada. Ele estava pagando para me apagar, não para me salvar. Fechei os olhos, uma onda de náusea me invadindo. Eu não suportava olhar para ele.
Ele pigarreou, um som pequeno, quase imperceptível. Quando não respondi, ele não disse mais nada. O silêncio era ensurdecedor, preenchido pelo peso não dito de sua indiferença.
Então, uma pequena cabeça espiou pela fresta da porta. Enzo. Seus olhos, tão familiares, encontraram os meus. Um lampejo de algo - surpresa? culpa? - cruzou seu rosto, rapidamente substituído por uma máscara cuidadosamente construída de distanciamento.
"Papai", Enzo falou, sua voz clara e inocente. "Mamãe Carla disse para te lembrar sobre o baile de caridade hoje à noite. Ela está quase pronta." Mamãe Carla. As palavras caíram como pequenas adagas, cada uma se torcendo mais fundo.
Meu peito se apertou, um aperto familiar e agonizante. Meu filho. Meu garotinho. Ele a chamava de mamãe.
Bruno se virou, de costas para mim. "Tudo bem, filho. Vamos."
Enzo o seguiu sem outro olhar, seus pequenos passos ecoando pelo corredor. A porta se fechou com um clique, selando-me mais uma vez no silêncio sufocante da minha nova realidade. Encarei a porta fechada, uma única lágrima traçando um caminho pela sujeira e sangue na minha bochecha.
A porta se abriu novamente. Carla.
Ela entrou deslizando, uma visão em um vestido de noite cintilante, seu cabelo perfeitamente penteado, sua maquiagem impecável. Parecia que ela tinha saído de uma capa de revista. Parecia tudo o que eu não era.
"Ainda viva, pelo visto", ela ronronou, sua voz pingando falsa simpatia. Ela se aproximou, seu perfume caro colidindo com o cheiro estéril do hospital. "Você simplesmente não sabe quando desistir, não é, Amanda? Você sempre foi tão persistente." Ela se inclinou mais perto, seus olhos brilhando com malícia. "Mas eu te conheço, Amanda. Cada pequeno segredo. Cada pequena fraqueza."
Eu a observei, meus olhos estreitos, um nó frio se formando no meu estômago. O que ela sabia?
Ela tirou um celular da bolsa e tocou na tela. Uma gravação começou a tocar.
A voz de Enzo, jovem e incerta, encheu o quarto. "Eu não gosto dela, papai. Ela é assustadora. Carla é minha mãe de verdade. Ela me conta histórias e faz biscoitos. Eu não quero a mulher louca de volta. Ela só te deixa triste."
Minha respiração ficou presa. Era o Enzo. Meu filho. As palavras eram uma ferida nova, profunda e purulenta.
A voz de Bruno, baixa e cansada, seguiu. "Ela não vai voltar, filho. Ela se foi. Carla é boa para nós. Ela entende. Ela não tem todos... os problemas dela."
Então, a voz açucarada de Carla, carregada de triunfo. "Não se preocupe, Bruno. Vou me certificar de que ela nunca mais nos incomode. Algumas pessoas simplesmente não sabem quando não são mais queridas. Ela é descartável."
A gravação parou. O quarto do hospital de repente ficou pequeno demais, sufocante demais. Meu rosto estava pálido, meus lábios tremendo. Descartável. Era isso que eu era para eles.
Carla sorriu, um sorriso largo e predatório. "Viu, Amanda? Até seu próprio filho sabe que você não passa de um incômodo. Um fantasma de um passado que ninguém quer lembrar. Você é notícia de ontem. E logo, você não será nada."