Ele havia escolhido. Muito antes de eu rastejar de volta para ele. Eu estava simplesmente cega demais, desesperada demais, para ver. Toda a minha luta, toda a minha resistência, tudo por isso. Para ser descartada como lixo. Era uma piada. Uma piada cósmica e cruel.
Bruno ainda estava lá, encostado na parede, mexendo no celular. Um sorriso suave tocou seus lábios, uma curva gentil em sua boca que eu não via direcionada a mim há dias. Eu sabia com quem ele estava falando. Eu conhecia aquele olhar. Contei os segundos. Três. Dois. Um.
Ele ergueu os olhos, sua amabilidade branda instantaneamente substituída por uma carranca quando seus olhos encontraram os meus. "Olha", disse ele, sua voz afiada, desprovida da ternura anterior. "Não tenha nenhuma ideia. Estou deixando você ficar aqui, neste hospital, apenas porque uma cena pública seria ruim para os negócios. Mas você precisa entender o seu lugar. Não cause problemas. E não espere nada de mim. Se você tentar interferir na minha vida, com a minha família, vou garantir que você acabe na rua. Permanentemente."
Ele não esperou por uma resposta. Girou nos calcanhares, saindo do quarto, o celular pressionado contra a orelha. Ouvi sua voz, mais suave agora, distante. "Carla, querida? Sim, estou quase terminando. Apenas resolvendo umas... pontas soltas. Eu também te amo."
Suas palavras se desvaneceram pelo corredor, levando com elas qualquer resquício de emoção dentro de mim. Meu coração era uma pedra, frio e insensível. A raiva, a dor, o desespero - tudo isso havia recuado, deixando para trás um vazio vasto e ecoante.
Comecei a contar. Não segundos, não minutos. Dias. Horas. Eu sabia que a Agência viria me buscar. Cláudio, meu contato, prometeu. Ele sempre cumpria suas promessas. Eu só precisava sobreviver a isso por tempo suficiente.
Eu tinha voltado correndo, coração batendo forte, adrenalina alimentando cada passo, acreditando que estava correndo em direção ao amor, à redenção. Agora, tudo o que eu queria era correr para mais longe do que jamais estive. Cortar todos os laços. Minha sobrevivência não dependia mais da esperança do amor deles, mas da lógica fria e dura da Agência.
Meu celular, o descartável que eu comprei, vibrou. Uma única mensagem de texto. De um número desconhecido.
Carla Watkins. Caim. Hoje à noite. Bairro Industrial.
Minhas pupilas dilataram. Caim. O nome era uma cicatriz recente, queimando em carmesim na minha consciência. O implacável traficante de armas internacional. O homem que me capturou, me torturou, me manteve naquele inferno por quatro anos. O homem que eu pensei estar morto, morto na incursão da Agência que finalmente me libertou.
Minhas mãos tremeram, agarrando o celular. Ele estava vivo. E Carla estava com ele? Um pavor frio se infiltrou nos meus ossos. Lembrei-me dos gritos, das noites intermináveis naquela cela escura, dos rostos dos meus camaradas, quebrados e silenciados. Minha missão, a razão pela qual eu me infiltrei, era expor Caim. Ele era um fantasma, um mito, até que eu o encontrei. E ele me encontrou.
Ele havia me prometido a morte, uma morte lenta e agonizante. Mas então eu fui retirada inesperadamente. Não por uma missão de resgate, mas por uma mudança súbita e caótica em sua operação. Usei sua distração, seu momento fugaz de descuido, para escapar. Agora, o passado estava se estendendo, seus dedos gelados se apertando em volta da minha garganta.
Isso não era mais apenas sobre minha família desfeita. Era sobre algo muito maior. E muito mais perigoso. Se Carla estava envolvida com Caim, se ela estava lhe passando informações, então minha família - e talvez toda a agência - estava em grave perigo. Esta era a minha chance. Minha chance de terminar o que comecei. Minha chance de finalmente derrubar Caim.
Minha decisão foi rápida e implacável. Eu voltaria. Não por amor, não por família. Por vingança. Por justiça.
Tirei minha antiga foto de casamento da minha bolsa do hospital. Estava amassada, mas seus rostos sorridentes ainda brilhavam. Tirei uma foto rápida, depois a enviei para o número pessoal de Bruno, junto com uma única e arrepiante mensagem: "Papéis do divórcio, ou eu exponho tudo. A escolha é sua."
Meu celular vibrou quase instantaneamente. Bruno. Ele estava ligando. Deixei tocar. Uma. Duas vezes. Então apertei "recusar".
Outro texto chegou. Apenas um ponto final. "."
Uma risada fria e sem alegria me escapou. Um ponto final. A pontuação perfeita para nossa história. Meu marido. O homem que eu amei. O homem por quem lutei para voltar. Costumávamos conversar por horas, sobre tudo e nada. Agora, tudo o que restava era um único e seco sinal de pontuação. Joguei o celular na minha cama, um pedaço de metal inútil.