- Um ano, Helena - ele repetiu, a voz desprovida de qualquer emoção. - Você mora na minha casa, aparece nos eventos ao meu lado e mantém as aparências. Em troca, o banco retira o processo de despejo e eu injeto capital para reformar este lugar.
Olhei para a caneta. Eu o odiava. Odiava o jeito como ele achava que tudo tinha um preço, odiava a frieza no seu olhar e, principalmente, odiava o fato de que ele tinha razão: eu não tinha escolha.
- Por que eu? - perguntei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. - Você poderia ter qualquer modelo ou herdeira de Nova York. Por que uma florista de um bairro que você despreza?
Alexandre deu um meio sorriso, algo que não chegou aos seus olhos.
- Porque as herdeiras querem o meu coração, e eu não o possuo. Elas querem poder, influência e amor. Você... você só quer salvar o que sobrou da sua dignidade. Você é previsível, Helena. E no meu mundo, a previsibilidade é a única coisa que me permite dormir à noite.
Sem dizer mais nada, peguei a caneta. Meus dedos roçaram nos dele por um breve segundo, e uma descarga elétrica percorreu meu braço, me fazendo recuar instintivamente. Assinei meu nome no rodapé do contrato com uma caligrafia trêmula.
- Está feito - eu disse, entregando a pasta de volta.
- Ótimo. Esteja pronta às oito da noite. Um motorista virá buscar você. Traga apenas o essencial; o restante será providenciado.
Ele se virou e saiu, deixando para trás o rastro do seu perfume caro e a sensação de que eu acabara de vender minha alma.
As horas seguintes foram um borrão. Arrumei uma mala pequena, me despedi das minhas flores com lágrimas nos olhos e fechei a porta da loja. Quando o carro preto blindado parou na frente da "Pétalas de Helena", eu soube que não havia mais volta.
A mansão de Alexandre era uma fortaleza de vidro e aço no topo de uma colina. Tudo ali era cinza, branco e impessoal. Ele me esperava no hall de entrada, já sem o terno, apenas com a camisa branca levemente aberta no colarinho.
- Este é o seu novo lar - ele anunciou, apontando para a escadaria monumental. - Há regras, Helena. A primeira delas: nunca entre no meu escritório sem ser convidada. A segunda: não espere que eu seja um marido atencioso quando estivermos sozinhos.
- Não se preocupe, Alexandre - respondi, subindo o primeiro degrau. - A última coisa que eu quero de você é a sua atenção.
Ele me observou subir com um olhar indecifrável. Naquela noite, enquanto eu me deitava em uma cama que custava mais do que minha loja inteira, eu não sabia que aquele contrato era apenas o começo de um jogo onde o meu coração seria a aposta mais alta.