Levantei-me daquela cama imensa, cujos lençóis de cetim pareciam escorregar pela minha pele como as promessas vazias de Alexandre. Caminhei descalça pelo tapete felpudo até o closet, que era maior do que toda a minha antiga sala de estar. Estava lotado. Alexandre não tinha mentido quando disse que tudo seria providenciado. Havia vestidos de seda, conjuntos de alfaiataria de grifes que eu só conhecia por revistas e sapatos que custavam mais do que meu carro velho e barulhento.
Escolhi algo sóbrio, um vestido azul-marinho de corte impecável, tentando ignorar o fato de que cada peça ali era uma lembrança constante de que eu era agora parte de um acordo comercial. Eu não era Helena Ferreira, a florista; eu era a noiva contratada de um império.
Desci as escadarias monumentais em silêncio, esperando encontrar a casa vazia, mas Alexandre estava lá. Ele ocupava a cabeceira da mesa de jantar de doze lugares, concentrado em um tablet enquanto tomava um café preto que parecia tão amargo quanto o seu temperamento. Ele nem sequer levantou os olhos quando meus saltos ecoaram no chão de pedra.
- Sente-se, Helena. O café está servido - disse ele, a voz grave e fria cortando o silêncio como uma navalha.
- Bom dia para você também - respondi, sentando-me o mais longe possível dele, na outra extremidade da mesa.
Ele finalmente desviou o olhar do aparelho e me encarou. Seus olhos cinzas, da cor de um céu de tempestade, percorreram meu rosto com uma precisão cirúrgica, como se estivesse procurando por falhas na mercadoria que acabara de adquirir.
- Hoje teremos o nosso primeiro compromisso oficial. Um almoço com o conselho administrativo da Volkov Corp - anunciou ele, ignorando meu sarcasmo. - Eles precisam ver que o noivado é real e que você é... apresentável.
A palavra "apresentável" atingiu meu peito como um tapa. Senti o sangue subir às bochechas e o guardanapo de linho sob a mesa ser esmagado pelos meus dedos.
- "Apresentável"? - repeti, a voz carregada de veneno. - Eu não sou um troféu que você limpa e coloca na estante para impressionar seus sócios, Alexandre. Sou uma pessoa, embora você pareça ter esquecido o significado dessa palavra.
Ele deixou o tablet de lado e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. A intensidade do seu olhar era quase física, uma pressão que me fazia querer recuar, mas eu me forcei a continuar encarando-o.
- Para o mundo lá fora, você é exatamente o que eu disser que você é - ele afirmou com uma arrogância absoluta. - Use o vestido que deixei separado com a etiqueta dourada. E, por favor, tente esconder esse olhar de desprezo genuíno. Sorria. Finja que está perdidamente apaixonada pelo homem que salvou sua vida e a loja de flores baratas do seu pai, mesmo que saibamos que a verdade é o oposto.
- Você é um monstro - sussurrei, a garganta apertada.
- Um monstro que paga suas dívidas e garante que você não durma na rua, Helena. Não se esqueça disso antes de abrir a boca naquele almoço.
Ele se levantou com uma elegância irritante, ajeitou o paletó e saiu sem olhar para trás, deixando-me sozinha com uma mesa cheia de comida que eu não conseguia tocar. Eu tinha o dinheiro, as roupas e o título de futura Sra. Volkov, mas nunca me senti tão pobre e pequena em toda a minha vida. As muralhas de vidro daquela mansão estavam começando a se fechar ao meu redor, e eu temia que, antes do ano acabar, não sobrasse nada da verdadeira Helena.