Decidi que não ficaria trancada naquele quarto de museu. Desci as escadas e comecei a explorar os corredores que ainda não conhecia. A casa era uma sucessão de obras de arte modernas e móveis de design que pareciam nunca ter sido usados. Tudo era impecável, mas sem alma. No final de um corredor no segundo andar, notei uma porta entreaberta, diferente das outras. Não era de madeira escura e pesada, mas sim uma porta simples, quase escondida atrás de uma tapeçaria.
A curiosidade, ou talvez o tédio de ser uma prisioneira de luxo, me impulsionou. Empurrei a porta e, para minha surpresa, não encontrei mármore ou vidro. Era um pequeno jardim de inverno, um pouco negligenciado, mas cheio de plantas que eu reconheci imediatamente: azaleias, lírios e até algumas mudas de jasmim que lutavam para sobreviver com a pouca luz que filtrava pelo teto de vidro sujo.
- O que você está fazendo aqui? - A voz de Alexandre soou como um trovão às minhas costas.
Dei um pulo, o coração batendo na garganta. Ele estava parado no umbral da porta, a expressão mais sombria do que eu já tinha visto. Seus olhos não estavam frios como o aço, eles estavam carregados de uma dor latente que ele tentava esconder com raiva.
- Eu estava apenas caminhando e... - comecei, mas ele me cortou, aproximando-se com passos rápidos e decididos.
- Eu dei ordens claras sobre onde você pode ir nesta casa, Helena. Este lugar está fora dos limites - ele sibilou, pegando meu braço, mas desta vez não havia o toque possessivo de antes, apenas uma urgência desesperada de me tirar dali.
- Por que? São apenas plantas, Alexandre! - rebati, soltando-me do seu aperto. - Elas estão morrendo porque ninguém cuida delas. Eu sou uma florista, eu sei como salvá-las. Por que você tem tanta raiva de um pouco de vida nesta casa de gelo?
Ele parou, a respiração pesada. Por um segundo, a máscara de bilionário implacável caiu, e eu vi um homem atormentado.
- Esse jardim pertencia à minha mãe - ele disse, a voz quase um sussurro, carregada de uma amargura antiga. - É a única coisa que sobrou dela que meu pai não conseguiu destruir antes de morrer. Mas eu não consigo entrar aqui. O cheiro... o cheiro me lembra de coisas que eu passei anos tentando esquecer.
Fiquei em silêncio, chocada com a revelação. Alexandre Volkov tinha sentimentos, afinal. E aqueles sentimentos eram tão dolorosos que ele preferia deixar o legado da própria mãe morrer a ter que encará-los.
- Deixe-me cuidar delas - pedi, com a voz mais suave. - Eu não vou mudar nada, apenas dar água e luz. Elas não têm culpa do seu passado, Alexandre.
Ele me encarou por um longo tempo, a luta interna visível em seu rosto. Por um momento, a distância entre nós pareceu diminuir, e não éramos apenas dois inimigos em um contrato, mas duas pessoas quebradas tentando encontrar um terreno comum.
- Faça o que quiser - ele disse finalmente, dando as costas para mim. - Mas se eu encontrar você aqui de novo enquanto eu estiver em casa, o acordo acaba. Considere isso seu único aviso.
Ele saiu, deixando-me sozinha entre as plantas moribundas. Eu sabia que tinha acabado de encontrar a primeira rachadura na armadura de Alexandre. E, enquanto eu tocava as folhas secas de uma azaleia, percebi que salvar aquele jardim poderia ser o caminho para entender o homem que eu deveria odiar, mas que estava começando a me intrigar de uma forma perigosa.