- Noiva? - Victoria finalmente soltou uma risada seca, um som que lembrava o quebrar de cristais finos. Ela deu um passo à frente, ignorando o chão de terra e sujando a ponta de seus sapatos de grife que provavelmente custavam o faturamento de um mês da minha floricultura. - Alexandre, querido, você sempre teve um senso de humor peculiar, mas essa piada está indo longe demais. Olhe para ela.
Ela gesticulou para mim com desdém. Eu estava ciente da minha aparência: meu rosto estava manchado de poeira, meu cabelo preso em um coque frouxo com alguns fios rebeldes caindo nos olhos, e minhas unhas... bem, minhas unhas tinham a marca do meu trabalho digno. Eu era o oposto daquela mulher que parecia ter acabado de sair de um ensaio para a Vogue.
Senti o sangue ferver. Eu não era de levar desaforo para casa, mas sabia que, naquela casa, eu representava mais do que a mim mesma; eu era uma peça no tabuleiro de Alexandre. Olhei para ele, esperando que ele dissesse algo, que me defendesse com a mesma frieza que usava para fechar negócios. Mas Alexandre estava com o rosto impenetrável, embora eu notasse um leve tremor no músculo de sua mandíbula.
- Victoria é filha de um dos sócios majoritários do grupo Volkov - disse Alexandre, sua voz neutra, mas carregada de uma advertência implícita. - E Victoria, Helena é a mulher com quem vou me casar. O que você acha ou deixa de achar sobre a aparência dela é irrelevante para os meus planos.
- Planos? Ah, entendo - Victoria se aproximou de mim, o perfume dela, algo excessivamente doce e sufocante, invadindo meu espaço. Ela parou a poucos centímetros, analisando-me como se eu fosse uma espécie exótica e indesejada de erva daninha. - Deixe-me adivinhar: você é algum tipo de projeto de caridade do Alexandre? Ele sempre teve uma queda por causas perdidas. Mas seja lá o que ele te prometeu, querida, saiba que o mundo dele não aceita transplantes. Você vai murchar antes mesmo de chegar ao altar.
- Flores que crescem no asfalto são muito mais fortes do que aquelas protegidas em estufas de luxo, Srta. Victoria - respondi, minha voz saindo clara e firme, apesar do meu coração estar batendo como um tambor. - Eu posso estar suja de terra agora, mas a terra sai com água. Já a arrogância... acho que nem todo o dinheiro da família Volkov consegue lavar a sua.
Os olhos de Victoria se arregalaram. Ela não esperava que a "jardineira" tivesse voz, muito menos que soubesse como usá-la. Alexandre soltou um som que poderia ser interpretado como um pigarro ou uma risada contida.
- Chega - disse ele, cortando o embate. - Victoria, se veio aqui para tratar de negócios, meu escritório é para o outro lado. Se veio para insultar minha futura esposa, a porta de saída é ainda mais perto.
Victoria bufou, ajeitando a bolsa de couro de jacaré no ombro.
- Você vai se arrepender disso, Alexandre. O conselho não vai aceitar uma... uma qualquer vinda do nada como a face da empresa. E você - ela se virou para mim, os olhos estreitos - aproveite os seus quinze minutos de fama. Eles vão acabar mais rápido do que você imagina.
Ela girou nos calcanhares e saiu, o som de seus saltos batendo no mármore soando como tiros de despedida. Quando ela sumiu de vista, o silêncio voltou, mas era um silêncio diferente. Eu me sentia exausta, a adrenalina começando a baixar.
- Você não deveria ter deixado ela falar assim comigo - eu disse, encarando Alexandre.
- Você se defendeu muito bem sozinha, Helena - ele respondeu, aproximando-se. Ele estendeu a mão e, por um momento, achei que ele fosse me tocar. Mas ele apenas pegou uma folha seca que havia caído no meu ombro. - Mas saiba de uma coisa: Victoria não faz ameaças vazias. Ela vai tentar cavar seu passado, vai tentar encontrar cada erro que você já cometeu.
- Eu não tenho nada a esconder, Alexandre. Minha vida era simples antes de você aparecer e comprá-la.
- Ninguém tem uma vida "simples" aos olhos de pessoas como Victoria - ele disse, a voz subitamente sombria. - A partir de hoje, você não é apenas minha noiva por contrato. Você é um alvo.
Ele se retirou, deixando-me sozinha com minhas plantas. Olhei para as azaleias que eu tanto me esforcei para salvar e, pela primeira vez, uma dúvida gelada percorreu minha espinha. Eu estava salvando o jardim da mãe de Alexandre, mas quem é que ia me salvar da tempestade que estava começando a se formar sobre a minha cabeça? Eu sabia que o contrato de 80 capítulos seria longo, mas não imaginava que cada página seria escrita com tanto sangue, suor e, agora, o veneno de uma inimiga que não tinha nada a perder.