Quando o sol começou a se pôr, pintando o céu de Nova York com tons de laranja e roxo, uma das empregadas da mansão, uma mulher gentil chamada Marta, veio me avisar que o Sr. Volkov exigia minha presença no andar de cima.
- Ele disse para você se preparar, querida - Marta disse, com um olhar de simpatia. - Há um evento de caridade hoje à noite. O primeiro de muitos.
Eu não tive tempo de protestar. No meu quarto, uma equipe de estilistas já me esperava. Pelas próximas duas horas, fui lavada, esfoliada, maquiada e penteada como se eu fosse uma boneca de porcelana prestes a ser exposta em uma vitrine. O vestido escolhido era um escândalo de elegância: um seda preta com um decote profundo nas costas, que abraçava minhas curvas de uma forma que me fazia sentir poderosa e vulnerável ao mesmo tempo.
Quando finalmente desci as escadas, Alexandre estava ao pé dela, vestindo um smoking clássico. Ele parou de olhar para o relógio no momento em que me viu. Seus olhos percorreram meu corpo com uma lentidão que fez minha pele formigar, e, por um breve segundo, a máscara de gelo dele fraquejou, revelando um brilho de desejo que ele rapidamente tentou ocultar.
- Você está... aceitável - ele disse, embora sua voz tivesse falhado levemente.
- "Aceitável" é o seu maior elogio, Alexandre? - brinquei, tentando esconder meu próprio nervosismo. - Achei que, depois de gastar milhares de dólares com essa equipe, eu estaria pelo menos "deslumbrante".
Ele não respondeu. Apenas ofereceu o braço.
- O carro está esperando. Lembre-se: a imprensa estará lá. Eles vão tentar te desestabilizar. Victoria provavelmente já espalhou boatos sobre a "florista misteriosa". Sorria, segure minha mão e não os deixe ver que você está com medo.
O evento era em um museu de arte moderna. No momento em que a limusine parou no tapete vermelho, o clarão dos flashes foi quase cegante. Eu senti meus pulmões se contraírem. Eu era apenas uma moça que gostava de cuidar de orquídeas; eu não estava pronta para ser o centro das atenções de uma metrópole.
Sentindo meu pânico, Alexandre apertou minha mão com firmeza. Não era um aperto de comando, mas de apoio. Ele se inclinou e sussurrou contra o meu cabelo:
- Respire, Helena. Eu estou aqui. Ninguém vai tocar em você.
Aquelas palavras, vindas do homem que eu deveria odiar, foram o que me manteve de pé. Caminhamos pelo tapete vermelho como se fôssemos o casal mais apaixonado do mundo. Eu sorri para as câmeras, respondi a perguntas vagas sobre o nosso "romance secreto" e ignorei os olhares invejosos.
No entanto, o verdadeiro teste veio durante o coquetel. Estávamos cercados por empresários e socialites quando Victoria surgiu do meio da multidão, segurando uma taça de champanhe e acompanhada por um homem baixo e calvo que parecia ser um jornalista de fofocas renomado.
- Alexandre, querido! - ela exclamou, alto o suficiente para atrair a atenção dos grupos vizinhos. - Que surpresa ver você aqui com... ela. Eu estava justamente contando ao Sr. Higgins como é refrescante ver um homem do seu calibre se interessar por alguém tão... comum. Diga-nos, Helena, é verdade que você ainda tem terra sob as unhas, ou os manicures do Alexandre conseguiram fazer milagres?
O silêncio caiu sobre o círculo. O jornalista prontamente preparou seu gravador, os olhos brilhando com a promessa de um escândalo. Senti o braço de Alexandre retesar sob o meu. Eu sabia que ele estava esperando para ver se eu desmoronaria.
Olhei diretamente para Victoria, mantendo um sorriso calmo e elegante.
- Sr. Higgins, é verdade que eu trabalho com a terra - eu disse, com a voz projetada para que todos ouvissem. - Mas a terra é honesta. Ela nos dá vida e beleza se soubermos como tratá-la. É uma pena que algumas pessoas nesta sala prefiram viver cercadas por flores de plástico, que são bonitas por fora, mas vazias e sem vida por dentro. Eu prefiro a verdade das minhas raízes à falsidade de um perfume caro que tenta esconder um caráter podre.
Houve alguns risos abafados na multidão. O jornalista sorriu, anotando furiosamente. Victoria ficou vermelha de raiva, mas antes que pudesse retrucar, Alexandre interveio.
- Com licença, cavalheiros e damas - ele disse, sua voz de comando encerrando o assunto. - Minha noiva e eu temos uma dança prometida.
Ele me conduziu para o centro do salão, onde a orquestra tocava uma valsa lenta. Quando ele me puxou para seus braços, a proximidade foi chocante. Uma mão dele estava na minha cintura, a outra segurava a minha mão, e nossos rostos estavam a poucos centímetros de distância.
- Você tem um talento natural para criar inimigos, Helena - ele comentou, enquanto nos movíamos pelo salão.
- Eu apenas respondo à altura - rebati, olhando no fundo dos olhos cinzas dele. - Você deveria estar orgulhoso. Eu salvei sua imagem hoje.
- Eu estou - ele admitiu, sua voz ficando subitamente rouca. - Mas agora o mundo inteiro quer um pedaço de você. E eu não sei se estou pronto para compartilhar minha propriedade.
A palavra "propriedade" deveria ter me ofendido, mas o jeito como ele a disse, com uma possessividade que não parecia mais apenas parte do contrato, fez meu coração errar uma batida. Dançamos sob o olhar de centenas de pessoas, mas, naquele momento, parecia que só existíamos nós dois e o segredo perigoso que começava a crescer entre nossos corpos. Eu sabia que estava jogando com fogo, e que o capítulo 80 ainda estava longe demais para eu saber se eu sairia daquela dança sem me queimar por inteiro.